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Artigos Ponto de Vista
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Perda de fiéis faz católicos questionarem 'politização' |
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Escrito por ROLDÃO ARRUDA
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11-Jul-2002 |
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A fuga de fiéis da Igreja Católica, apontada há pouco
pelos resultados do Censo 2000, vem provocando análises e debates no interior da
instituição. Procuram-se explicações para a diminuição do número de católicos,
que representavam 83,8% da população em 1991 e hoje somam 73,8% - um declínio de
10 pontos porcentuais. A tendência predominante é atribuir a perda à rápida
urbanização do País, que causou mudanças de comportamento na população, com
reflexos na área religiosa. Mas há vozes discordantes. Uma delas é a do bispo
diocesano de Jundiaí, interior de São Paulo, d. Amaury Castanho. Para ele, uma
das principais razões da queda foi a exagerada politização da Igreja no Brasil
durante os últimos 30 anos.
Esse foi o período em que a ala progressista do
episcopado determinou os rumos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB). Para d. Amaury, também foi o tempo em que predominou a Teologia da
Libertação, que confere mais ênfase a questões sociais e políticas do que à
evangelização no sentido clássico, definido pelo bispo como ''o anúncio explícito
da pessoa de Jesus Cristo e do projeto de salvação''.
D. Amaury tem dito, em artigos que divulga em sua
dioceses e em entrevistas, que embora falassem em ''opção preferencial pelos
pobres'', os teólogos da libertação adotaram uma posição excludente, afastando da
Igreja as classes mais abastadas. Curiosamente, segundo observações do bispo, os
pobres não entenderam essa opção e acabaram virando as costas para o
catolicismo: ''O trabalho da Teologia da Libertação, por meio das Comunidades
Eclesiais de Base (CEBs) concentrou-se principalmente nas periferias das
cidades, nos bairros mais pobres. Não deixa de ser irônico que a maior perda de
fiéis ocorreu nesse meio, entre as classes C e D.''
Vulnerabilidade - Os pobres, segundo o bispo de
Jundiaí, ''esperavam uma palavra de fé'' e não ''posicionamentos
político-partidários de esquerda''. Eles teriam ficado mais vulneráveis aos
apelos dos evangélicos - que adotaram uma linha agressiva de proselitismo
religioso, com o uso intenso de emissoras de rádio e de TV.
As opiniões de d. Amaury batem de frente com as de outros
observadores. Há poucos dias, durante uma reunião da cúpula da CNBB, em
Brasília, o sociólogo e diretor-executivo do Centro de Estatística Religiosa e
Investigações Sociais (Ceris), Luiz Alberto Gómez de Souza, apresentou uma visão
mais tranqüilizadora para os bispos. Num texto distribuído no encontro, afirmou
que a perda ocorreu principalmente entre católicos nominais, aqueles que dizem
pertencer à Igreja mas não são praticantes. Os católicos verdadeiros teriam
permanecido.
Em entrevista ao Estado, o sociólogo disse não perceber
relação entre a opção da Igreja pelos pobres e a perda de fiéis. Para ele, é
arriscado estabelecer relações tão diretas entre causa e efeito, porque há
múltiplos fatores em jogo. ''O Estado em que houve maior redução na porcentagem
de católicos foi o Rio, onde as CEBs não tiveram grande desenvolvimento. Por
outro lado, em São Paulo, onde o trabalho das CEBs é forte, houve menos perda.''
O sociólogo do Ceris faz parte de um grupo de
observadores que tem opinião oposta à do bispo de Jundiaí: para eles, a Teologia
da Libertação e as CEBs teriam dado um maior dinamismo à Igreja e evitado que a
perda fosse maior do que a registrada pelo Censo. Num artigo publicado na semana
passada pelo Estado, o escritor dominicano Frei Beto observou: ''Estados onde as
CEBs se multiplicaram ocupam os dez primeiros lugares no ranking das populações
católicas.''
Renovação - Para outros observadores, porém, o que
estancou a perda de fiéis não foram as CEBs, mas outros movimentos católicos não
tão envolvidos com questões sociais e políticas. O sociólogo Ricardo Mariano,
estudioso da questão religiosa, afirma que a Renovação Carismática Católica
(RCC) foi a grande arma da Igreja para conter o avanço evangélico.
Construída a partir de pequenos grupos de oração, com
ênfase em aspectos do catolicismo mais popular, como a crença em milagres, a RCC
tem prosperado sobretudo entre a classe média, que teria sido esquecida pelas
CEBs. Também prosperaram na última década movimentos católicos de perfil mais
conservador, como Comunhão e Liberdade, o dos focolares e o dos neocatecumenais.
No caso de São Paulo também deveria se levar em consideração a presença do padre
Marcelo Rossi, um fenômeno de comunicação de massa, com mensagens católicas
tradicionais. Por essa perspectiva, o que teria impedido uma queda maior seria a
diminuição do grau de envolvimento com a política.
Os comentários de d. Amaury seguem uma linha de
pensamento já apresentada no livro A Igreja Através dos Tempos, lançado
recentemente. No texto sobre catolicismo no Brasil, ele havia escrito que ''a
releitura política da Bíblia'' fez a Igreja perder ''multidões de pobres e,
certamente, inúmeros 'possuídos', agredidos por uma opção excludente e
antievangélica''.
O bispo de Jundiaí é uma das poucas vozes no interior da
CNBB que criticam abertamente o envolvimento da Igreja com organizações como o
Movimento dos Sem-Terra. Para ele, a instituição é fortemente influenciada por
assessores de inspiração ideológica mais à esquerda do que o desejado por ele.
Tendência - De fato, o conjunto dos assessores da
CNBB pende mais para a esquerda do que para o centro ou a direita. Um dos
lugares onde se vê isso claramente são os boletins com análises de conjuntura
produzidos a cada dois meses pela assessoria e distribuídos aos bispos: têm o
teor e o tom de textos de partidos de esquerda. No último deles, a derrota da
esquerda na França foi demoradamente lamentada, com o subtítulo Lições a
Aprender no Brasil.
Sobre a eleição à Presidência em 2002, os assessores
deixam clara sua posição: ''Como será a ruptura com tudo aquilo que aos poucos
vai transformando o País em entreposto dos grandes interesses internacionais,
organizados através de políticas neoliberais, concentração de riqueza e
sacrifício imenso para a maioria da população? Sente-se pelas pesquisas que a
população está a indicar que soou a hora da mudança.''
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