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A família no pontificado de João Paulo II PDF Imprimir E-mail
Escrito por Silas   
09-Out-2003
ImageDom Rafael Llano Cifuentes
Bispo Presidente da Comissão
Família e Vida da CNBB

Solicitaram-me que escrevesse um artigo subordinado ao título: “A família no pontificado de João Paulo II”. E pensei: como tentar dizer alguma coisas, nas poucas linhas de uma matéria, sobre esse monumento doutrinal que o Papa construiu ao longo desses seus vinte e cinco anos de pontificado? Era para mim algo desanimador. Veio, então, na minha ajuda um pensamento que insinuava: deixa-te levar pelas tuas lembranças.

Evocando acontecimentos, veio à minha memória a oportunidade única de ser recebido em audiência particular pelo Santo Padre, no dia 7 de janeiro de 1991, na biblioteca pontifícia. Lado a lado, não frente a frente, porque assim o quis o Papa que me sentasse, disse-lhe: Santo Padre, desejo agora que me facilite uma mensagem especial para as famílias do Rio de Janeiro das quais eu sou o bispo responsável. E João Paulo II, olhando com as pupilas abertas a uma grande compreensão, que parecia abranger a humanidade inteira, disse-me pausadamente, deixando cair mansamente as suas palavras, uma a uma, nos meus ouvidos surpreendidos: “Diga-lhes que a Igreja está do lado da vida e não da morte - da contracepção, da esterilidade voluntária, do aborto... Mais ainda, diga-lhes que o futuro da humanidade passa pela família. Quando eu era capelão de estudantes dizia-lhes isto e algo mais: que o futuro da humanidade passa não apenas pela família, mas também pelo amor conjugal digno e fecundo. Deus os criou homem e mulher para que se tornassem uma só carne; que o homem não separe aquilo que Deus uniu. Sim, repita-lhes que o amor tem que estar revestido de toda a dignidade humana e aberto à fecundidade. Era isto o que eu dizia àqueles jovens estudantes, para que se entusiasmassem com o amor e se santificassem com o amor. Sim, fale aos jovens do amor: é importante que acreditem no amor. Eu me preocupo muito com os jovens; diga-lhes que se saibam amar...”

Quantas vezes despertei emoções adormecidas na alma; quantas vezes vi aflorar nos olhos lágrimas mal reprimidas quando tentava repetir esta mensagem transmitida pelo Papa...! Contudo, talvez a recordação mais viva que guarda a minha memória, depois da audiência com o Papa, é aquela que, por ocasião do memorável e irrepetível “II encontro mundial do Papa com as famílias”, no Rio de Janeiro, em outubro de 1987, me transporta ao Aterro do Flamengo, diante de mais de dois milhões de pessoas, enquanto escutavam a inesquecível homilia de João Paulo II. As suas palavras fortes iam ribombando pelos espaços abertos, da Cinelândia até a praia de Botafogo: “Pais e famílias do mundo inteiro, deixai que vo-lo diga: Deus vos chama à santidade! Ele mesmo escolheu-nos por ‘Jesus Cristo, antes da criação do mundo - nos diz São Paulo - para que sejamos santos na Sua presença’. Ele vos ama loucamente, Ele deseja a vossa felicidade, mas quer que saibais conjugar sempre a fidelidade com a felicidade, pois não pode haver uma sem a outra”.

Peço desculpas porque o espaço a mim destinado foi ocupado por duas lembranças pessoais, mas também penso que essas lembranças não me pertencem e de alguma maneira não podem deixar de ser comunicadas.

Outras mensagens semelhantes poderiam ter sido pronunciadas em Paris, Roma, Filipinas, Cracóvia, Compostela, Czestochowa.... Idéias paralelas, mais aprofundadas, poderíamos encontrá-las também na Familiaris Consortio de 1981, na Carta dos direitos da família de 1983, na Carta às Famílias de 1994 e em centenas de discursos e declarações sobre este tema que o Papa considera, como o disse na Conferência de Santo Domingo: “Uma prioridade básica, sentida, real e atuante”. Mas as palavras transcritas por mim tiveram que ser trazidas ao papel por alguém que as escutou pessoalmente.

Se a família é a célula básica da sociedade, o Papa sempre esteve no âmago, no coração dessa família. O seu pontificado está marcado pela prioridade que dá à família: “a Igreja considera o serviço à família humana uma de suas tarefas essenciais”, disse no Rio Centro em 1997.

No seu Jubileu de Prata Pontifical os seus milhões de filhos, dos cinco continentes, de coração poderão dizer-lhe: obrigado, Santo Padre, mil vezes obrigado, pelo que fez, como Pai e Pastor, por todas as famílias do mundo, começando pela minha própria família.

 
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