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O ENIGMA DE BROWN PDF Imprimir E-mail
Escrito por BRENO GOMES FURTADO ALVES   
28-Ago-2004


É

 pura conspiração, num jogo quase que inteiramente matemático: Jacques Saunière, curador do Museu do Louvre, em Paris, morre assassinado, dentro do mesmo, por um monge albino. Robert Langdon, professor de História da Arte da Universidade de Harvard, especialista em simbologia, torna-se o principal suspeito. E ele, com a ajuda da companheira e egiptologista francesa, Sophie Neveu, tenta se desvencilhar da polícia ao mesmo tempo em que procura fechar um complexo quebra-cabeça povoado por charadas, enigmas e outras espécies. Isso sem falar nos quase dois mil anos de história que o enredo expõe para conturbar este thriller religioso e herético, profuso e simplista, tendo como pano de fundo a fundação da Igreja Católica e a figura histórica de Jesus. E eis um prato cheio para quem se delicia com histórias rocambolescas, ainda mais temperadas com uma dose tremenda de inéditas interpretações sobre temas religiosos, bem ao gosto daqueles que se dizem céticos, bem como uma profusão de caracteres históricos para rechear a mente daqueles que adoram esta receita de entretenimento e informação.

Trata-se do mais novo ícone pop da literatura, o romance O Código Da Vinci, do americano Dan Brown, que até agora vendeu a invejável marca de 10 milhões de exemplares ao redor do mundo, lançando um olhar penetrante sobre a vida de Jesus e sobre um suposto relacionamento seu com Santa Maria Madalena, tendo, inclusive, gerado filhos nela. A santa seria a verdade oculta por trás do mistério que envolve o Santo Graal, o qual pensava-se ser o cálice da Última Ceia. Tal segredo estaria a salvo, durante todo esse tempo, nas mãos de uma sociedade secreta chamada Priorado de Sião, à qual pertencia Leonardo Da Vinci, que existiu realmente. Este último tem especial destaque no livro, tendo, sobretudo, suas pinturas sido ficcionalmente usadas na trama para descrever detalhadamente as nuances dessa estória extremamente duvidosa e potencialmente envolvente, pela carga de escândalo que traz em si.

Cético por autodefinição, Dan Brown não se intimida em jogar cores vivas sobre fatos históricos intimamente ligados à formação da fé cristã-católica, como o Concílio de Nicéia, no qual se definiu finalmente a natureza divina de Jesus, para deles discorrer sobre teorias mirabolantes que insinuam ser a Igreja fundada na ameaça e rejeição de Pedro diante da união entre Cristo e Madalena, firmando a instituição nessa tabula rasa. Isso tudo num tom espantosamente documentarista, sem se ater à nocividade que essas supostas verdades podem causar na fé e no inconsciente de milhares de leitores, embriagados pela grande carga de erudição que o livro exala.

Restaurada pela fé na misericórdia do Pai, Santa Maria Madalena é identificada como aquela que se prostra aos pés de Jesus, acusada que fora de adultério pelos escribas e fariseus, e que recebe o dom supremo do perdão por parte do Salvador: “Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar” (Jo 8, 11). Também é identificada como a pecadora pública que lava com os próprios cabelos os pés de Jesus, beijando-os e aspergindo-lhes perfume (cf. Lc 7,38). De qualquer forma, após isso torna-se perfeita discípula do Mestre, estando com Ele até Sua morte de Cruz, sendo testemunha dos grandes martírios e da hora horrenda da expiação. Ao longo dos séculos, Santa Maria Madalena mostra-se como modelo para os pecadores que, manchados e feridos pelas concupiscências, enxergam o amor gratuito e original do Messias e se inflamam no mar de misericórdia na Chaga do lado aberto, que restaura o homem agora redimido.

Também Madalena está presente na Ressurreição, tendo visto o corpo glorioso de Jesus e se inebriado com o Seu amor (cf. Jo 20,16). Um amor assim tão intenso, que prefigura a extrema experiência do amor profundo de Deus nas nossas vidas, querendo nos restaurar na sua glória, gera no coração intumescido pela negação da bondade divina, interpretações outras que não se coadunam com a Verdade e acabam por desvirtuar toda a fé calcada na intimidade esponsal com Cristo. A nitidez da graça no Ressuscitado só é entendida ao se ver Maria Madalena correndo, louca de amor, aos Onze e repassando-lhes a profunda emoção que em si se manifestara pelo amor de Jesus, que encerra todo o sofrimento e faz transbordar a alegria.

Jesus, na prática da caridade, “escandalizou porque identificou sua conduta misericordiosa para com os pecadores com a atitude do próprio Deus para com eles” (CIC 589). Em virtude da exposição maravilhosa da misericórdia do Pai aos seus discípulos, Jesus tenciona torná-los amigos Daquele que nos ama incessantemente e que dá prova disso, pela superabundância dos dons e das bênçãos. A especialidade de Santa Maria Madalena reside na lição do abandono em Deus e da adesão total à fonte de todo o bem, que permite a nós o conhecimento profundo da experiência do amor esponsal e da espera naquele que cumpre a promessa da salvação.

Brown escapou da complexidade dessas descobertas, preferindo ele reduzir-se a minúsculas discussões quanto a interpretações falsas das mensagens bíblicas, relegando a profundidade da fé que reside no exemplo de Madalena ao segundo plano. É uma abordagem que peca, é claro, pelo extremismo das heresias mas, mais profundamente, pela falta de diâmetro ao abarcar a vida de tão grande santa, que, ao contrário de tantos outros que expõem seu virtuosismo no trato com Jesus, incluindo-se aí os apóstolos, vem aos pés daquele que salva a humanidade para renunciar a toda uma vida de erros, mostrando-se na miséria o surgimento de tão puro amor. A mesquinhez do livro não alcança esses detalhes, preferindo a via fácil e cômoda da fofoca sacra à profundidade da mística do arrependimento do pecado e da restauração em Deus.

 

BRENO GOMES FURTADO ALVES
 
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