|
pura
conspiração, num jogo quase que inteiramente matemático: Jacques
Saunière, curador do Museu do Louvre, em Paris, morre assassinado,
dentro do mesmo, por um monge albino. Robert Langdon, professor de
História da Arte da Universidade de Harvard, especialista em
simbologia, torna-se o principal suspeito. E ele, com a ajuda da
companheira e egiptologista francesa, Sophie Neveu, tenta se
desvencilhar da polícia ao mesmo tempo em que procura fechar um
complexo quebra-cabeça povoado por charadas, enigmas e outras espécies.
Isso sem falar nos quase dois mil anos de história que o enredo expõe
para conturbar este thriller religioso e herético, profuso e
simplista, tendo como pano de fundo a fundação da Igreja Católica e a
figura histórica de Jesus. E eis um prato cheio para quem se delicia
com histórias rocambolescas, ainda mais temperadas com uma dose
tremenda de inéditas interpretações sobre temas religiosos, bem ao
gosto daqueles que se dizem céticos, bem como uma profusão de
caracteres históricos para rechear a mente daqueles que adoram esta
receita de entretenimento e informação. Trata-se do mais novo ícone pop da literatura, o romance O Código Da Vinci,
do americano Dan Brown, que até agora vendeu a invejável marca de 10
milhões de exemplares ao redor do mundo, lançando um olhar penetrante
sobre a vida de Jesus e sobre um suposto relacionamento seu com Santa
Maria Madalena, tendo, inclusive, gerado filhos nela. A santa seria a
verdade oculta por trás do mistério que envolve o Santo Graal, o qual
pensava-se ser o cálice da Última Ceia. Tal segredo estaria a salvo,
durante todo esse tempo, nas mãos de uma sociedade secreta chamada
Priorado de Sião, à qual pertencia Leonardo Da Vinci, que existiu
realmente. Este último tem especial destaque no livro, tendo,
sobretudo, suas pinturas sido ficcionalmente usadas na trama para
descrever detalhadamente as nuances dessa estória extremamente duvidosa
e potencialmente envolvente, pela carga de escândalo que traz em si. Cético
por autodefinição, Dan Brown não se intimida em jogar cores vivas sobre
fatos históricos intimamente ligados à formação da fé cristã-católica,
como o Concílio de Nicéia, no qual se definiu finalmente a natureza
divina de Jesus, para deles discorrer sobre teorias mirabolantes que
insinuam ser a Igreja fundada na ameaça e rejeição de Pedro diante da
união entre Cristo e Madalena, firmando a instituição nessa tabula
rasa. Isso tudo num tom espantosamente documentarista, sem se ater à
nocividade que essas supostas verdades podem causar na fé e no
inconsciente de milhares de leitores, embriagados pela grande carga de
erudição que o livro exala. Restaurada
pela fé na misericórdia do Pai, Santa Maria Madalena é identificada
como aquela que se prostra aos pés de Jesus, acusada que fora de
adultério pelos escribas e fariseus, e que recebe o dom supremo do
perdão por parte do Salvador: “Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar” (Jo
8, 11). Também é identificada como a pecadora pública que lava com os
próprios cabelos os pés de Jesus, beijando-os e aspergindo-lhes perfume
(cf. Lc 7,38). De qualquer forma, após isso torna-se perfeita discípula
do Mestre, estando com Ele até Sua morte de Cruz, sendo testemunha dos
grandes martírios e da hora horrenda da expiação. Ao longo dos séculos,
Santa Maria Madalena mostra-se como modelo para os pecadores que,
manchados e feridos pelas concupiscências, enxergam o amor gratuito e
original do Messias e se inflamam no mar de misericórdia na Chaga do
lado aberto, que restaura o homem agora redimido. Também
Madalena está presente na Ressurreição, tendo visto o corpo glorioso de
Jesus e se inebriado com o Seu amor (cf. Jo 20,16). Um amor assim tão
intenso, que prefigura a extrema experiência do amor profundo de Deus
nas nossas vidas, querendo nos restaurar na sua glória, gera no coração
intumescido pela negação da bondade divina, interpretações outras que
não se coadunam com a Verdade e acabam por desvirtuar toda a fé calcada
na intimidade esponsal com Cristo. A nitidez da graça no Ressuscitado
só é entendida ao se ver Maria Madalena correndo, louca de amor, aos
Onze e repassando-lhes a profunda emoção que em si se manifestara pelo
amor de Jesus, que encerra todo o sofrimento e faz transbordar a
alegria. Jesus, na prática da caridade, “escandalizou porque identificou sua conduta misericordiosa para com os pecadores com a atitude do próprio Deus para com eles”
(CIC 589). Em virtude da exposição maravilhosa da misericórdia do Pai
aos seus discípulos, Jesus tenciona torná-los amigos Daquele que nos
ama incessantemente e que dá prova disso, pela superabundância dos dons
e das bênçãos. A especialidade de Santa Maria Madalena reside na lição
do abandono em Deus e da adesão total à fonte de todo o bem, que
permite a nós o conhecimento profundo da experiência do amor esponsal e
da espera naquele que cumpre a promessa da salvação. Brown
escapou da complexidade dessas descobertas, preferindo ele reduzir-se a
minúsculas discussões quanto a interpretações falsas das mensagens
bíblicas, relegando a profundidade da fé que reside no exemplo de
Madalena ao segundo plano. É uma abordagem que peca, é claro, pelo
extremismo das heresias mas, mais profundamente, pela falta de diâmetro
ao abarcar a vida de tão grande santa, que, ao contrário de tantos
outros que expõem seu virtuosismo no trato com Jesus, incluindo-se aí
os apóstolos, vem aos pés daquele que salva a humanidade para renunciar
a toda uma vida de erros, mostrando-se na miséria o surgimento de tão
puro amor. A mesquinhez do livro não alcança esses detalhes, preferindo
a via fácil e cômoda da fofoca sacra à profundidade da mística do
arrependimento do pecado e da restauração em Deus. BRENO GOMES FURTADO ALVES
|