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Vítimas (ou cúmplices?) da batida fórmula artística atual de reviver as atitudes “desviantes” da juventude de outrora, com suas manias sobre a liberdade exagerada nos assuntos de sexo e outros tabus e marcadas por um verniz “modernizante” para conferir autenticidade à galera teen de hoje (plugada no mundo, mas estranhamente indiferente a ele) os Tribalistas varreram o cenário musical com a força de um tufão. Centrado na figura estranha-fria-culta dos seus membros (Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes), todos sinônimos de boa música e papo cabeça, o movimento tribalista mostrou ao mercado a possibilidade rentável de dar um sotaque amplamente popular a uma música refinada, basta que para isso haja uma pretensa discussão ideológica e um quê de marketing. Deu certo. Venderam centenas de milhares de cópias e correram mundo, ensinando à adolescência de hoje o prazer de “beijar de língua” sem os riscos e as responsabilidades e mostrando que ser feliz é curtir a “velha infância”.
Na faixa-título do CD e música central do movimento (se é que hoje se pode falar assim, passados os dramas da censura e dos ideais libertários), Tribalistas, é-nos exposta a origem de sua ideologia, que é, mais ou menos, uma tentativa de conciliar uma atmosfera “new age” a uma escalada pelo consumismo e materialismo dos adolescentes, resultando numa confusão de conceitos como não se via desde os tempos do decantado Tropicalismo. Os jovens, órfãos das idéias libertárias que se escancararam há duas décadas, compraram essa idéia, exibindo-se, eles mesmos, de “óculos escuros”, tal qual o trio de artistas, e gritando aos berros o refrão, que exclama: “fé em Deus e pé na taba”. Mas, depois de uma reflexão sobre essa nova onda, é bom perguntar o que, na verdade, é o tribalismo? Seria essa mania (este termo é mais apropriado, ao meu ver) uma marca do que é consumido pelos jovens, a lhes impor novas atitudes e comportamentos? Ou não, sendo antes uma idéia bacana compartilhada pelos artistas?
Dos vocábulos trio e tribo fez-se Tribalistas, gerando uma idéia meio vaga (mas necessariamente com um conteúdo válido) de aldeia global e sentimento de coletividade, que parece ser o centro da obra. Convida ao ouvinte e entrar nessa tribo, com sons de percussões e cítaras ao fundo, lembrando-nos aquele clima meio hippie que era moda ao tempo de nossos pais. Descobre-se então a sua veia artística, e somos levados a nos penetrar no mundo dos “sem lenço e sem documento”, libertando-nos desde já desse individualismo impregnado em nós e fazendo-nos enxergar algo mais profundo, mais humano, que é o nosso irmão do lado. Comunhão é a charada, e temos a nova ordem estabelecida, aquela cujos membros “já não querem ter razão...”.
“Os tribalistas (...) não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião”. Curiosa essa abordagem, que nos remete ao Imagine do Lennon. Já não há céu sob nós ou inferno aos nossos pés. Desvia-se de tudo o que posto, estabelecido, “opressivo”: enfim, é preciso ser libertário. Já não há barreiras ao mundo de hoje, expandido pela força de sua liberdade suprema, levando-nos a peitar dogmas, preceitos, fundamentos, tudo. Ainda bem que, curiosamente, se fala em falta de juízo, mas isso, infelizmente, é mais um ingrediente da liberdade (falsa) de que a música fala. A certeza nos prende, nos faz fracos, é preciso ter a mente aberta. Isso cheira à elevação das drogas que se fazia outrora, e que nos permitia sair de nós mesmos...
“Os tribalistas saudosistas do futuro”. A julgar pela pressa, pensam eles que o movimento salta às vistas com sua pós-pós-modernidade, e que é a receita para a crueza do tempo atual. Profético e liberal, como todo sonho juvenil. Têm eles saudades de quê? Imagine um mundo sem guerras, sem dores, sem amarras, sem nada por que se crucificar... (ah, Lennon, te imitaram de novo!). Essa coisa de “amar o sofrimento” ou sorrir “mesmo lágrimas vertendo”, como dizia Santa Terezinha de Lisieux, é coisa de gente beata ou santinha, não é mais condizente com o mundo da alegria sem fim, do sorriso largo à vontade. Imagine a nova era a surgir e nos tragar...
“Pé em Deus e Fé na Taba”. É preciso tomar pé da divindade mas manter distanciamento de tudo o que ela possa nos impor, pois o que importa é a liberdade e o senhorio de si. Além disso, frise-se que essa divindade é plural, podendo ser planta, ar, vento, fluidos, tudo (e, por isso mesmo, impessoal). Aqui não cabe a fé, haja vista que ela implica engajamento e intimidade, quando não unidade com Deus. Melhor é acreditar no homem e na revolução que ele está por realizar, na força de seus prodígios. Ele, sim, é detentor da confiança suprema dos outros, divinizado pela audácia e pela pretensão de seus feitos...
Tudo agradável e moderno. Quem não anseia, hoje, ser um tribalista, a sair por aí brincando com as imposições e limitando-se a ser somente de si mesmo? Eu não, definitivamente. Prefiro encarar a palavra revolução num sentido novo, efetivamente libertador. Ser escravo de mim mesmo? Nem pensar! Prefiro, apesar das chagas que ela me proporciona, carregar essa Cruz que é loucura para nossas estreitas cabeças mas que é Salvação para Aquele no qual deposito a minha fé. Pé em Deus? Não quero negá-lO nem suavizá-lO em meu coração, mas sim depositá-lo dentro de mim como Vida. Alegria na dor, humilhação e desprezo? Aceitar minha miséria? Sim, com a convicção que a era da Paz se iniciou não com o meu sim mais o Daquele Nazareno que, de braços abertos, nos fez apaziguados no Pai num abraço de Amor. Quanto a ser pós-moderno, acredito que a modernidade reside em reconhecer Jesus, alojado dentro de nós pelo presente da Eucaristia, e não em negá-lO. E exorto todos a fazer parte dessa “tribo”, chamada Igreja, que nos faz ter certeza, juízo e religião. Pela força da nossa contra-adesão, acredito que o tribalismo (como tudo o que nasce da arrogância do homem) vai, efetivamente, “se desintegrar no próximo momento”.
BRENO GOMES FURTADO ALVES
SETEMBRO DE 2004
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