|
Cabelos
revoltos no ar, roupa de couro apertada no corpo esbelto, o cantor de
heavy metal atira o microfone no chão e grita a plenos pulmões um
refrão impronunciável. As mãos, elétricas, repetem o chifre do diabo
rumo à platéia frenética. Depois, munido de uma imensa mangueira de
bombeiro, simula urinar em pleno palco, os olhos vidrados em transe. O
show termina e uma sucessão interminável de fãs se espreme à saída,
tentando tocar, mesmo que de leve, o corpo dos integrantes da banda.
Mulheres insandecidas, seios à mostra, comprimem seus corpos à limusine
que avança devagar no desvario da multidão. O mesmo cantor abraça a
namorada de microvestido transparente, exageradamente maquiada. Chegam
a uma boate onde, na ferveção da pista de dança, várias pessoas de
cruzam e se tocam com extrema sensualidade. Uma mulher de olhos
salientes se aproxima do roqueiro e de sua namorada e os convida, não
sem um olhar de malícia, a experimentar novas formas de prazer...
O
filme na TV me fez espantar o sono com uma explosão de reflexões
inesperadas, vindas numa mescla de surpresa e desapontamento. Da
experiência como jovem católico numa época em que sexo, bebedeiras e
orgias são palavras fáceis na boca dos adolescentes, veio-me à mente,
de pronto, a constatação da dificuldade de se encontrar diversão sadia
e evangelização profunda em meio à enxurrada de emoções fáceis e
curtições superficiais em voga nos lugares da moda. Ou ainda, imagino a
que limite chegará a juventude da qual faço parte, nessa voltagem cada
vez mais crescente de rebeldia e libertinagem tão comum nessa nossa
época. Nesse caminho sem volta onde se misturam mensagens de morte e
desilução, solidão e decadência, penso na cegueira que nos toma a nós,
jovens, nesse momento de tantas penumbras e pouca luz. Penso, também,
em quantas situações de sexo, nas mais ousadas variações eróticas
existentes, os jovens de hoje experimentam sob a desculpa inaceitável
de autodescoberta. Penso, ainda, no sem-número de substâncias tóxicas
que meus contemporâneos tomam, do baseado ao esterco de cavalo,
iludidos pela promessa de liberdade sem fim que se acaba nos sintomas
de depressão e angústia. Tão desorientados, desnorteados, cada vez
menos preparados a enfrentar a vida tão abertamente e que, por isso, se
fazem esconder na escuridão do pecado. Imagino-me (por que não?) sob o
contato visceral com tantas e tão sutis situações de erro que me fazem,
pelo silêncio e pelo comodismo, ser uma espécie de cúmplice dessas
deturpações. Imagino e me assusto, os olhos fixos na TV, a mostrar, de
forma nua e crua, no que nos transformamos e no que vamos nos
transformar nessa loucura crescente. Um gosto amargo de
responsabilidade me corta a boca...
Saber
de tantas e tão degradantes situações de pecado me faz perceber a
importância de dar vazão ao Cristo que já me conquistou e que me intima
a se fazer conhecer no meio dos jovens. Indago, olhando para minha
história, quantas vezes saí de mim, da minha redoma de falsa piedade e
santidade, e fui ao drogado, ao homossexual, à adolescente que aborta,
ao preso, ao jovem que, sutilmente, abusa da liberdade e se enforca com
ela. E vejo que foram bem poucas, insuficientes para tirar de mim essa
nódoa de timidez e egoísmo. Como numa imensa arena, vejo a juventude
cristã se digladiar, hoje, com a centralização em si mesmos e se
esquecer da imensa platéia de excluídos da Graça, jovens como nós, a se
afundar no vazio em que mergulham suas vidas e a assistir à nossa
confusão, impedidos de se voltarem para nós pelo imenso vidro fosco da
nossa covardia. A distância que nos separa é a que deveria nos juntar,
a fim de fazer concreta a Verdade que é Cristo no coração daqueles que
precisam.
Não
me resta outra opção a não ser rogar a Cristo que use de Sua
Misericórdia, de Seu Corpo e Sangue, para nos erguer da nossa falta de
caridade e sairmos ao encontro daquele que anseia por ver a luz. Que
ele reforce em nós uma voz como a saída de um alto-faltante, a fim de
propagar o Evangelho, sob inspiração do Espírito Santo, aonde Cristo
não chegou: baladas, praias, lan-houses, shows de
rock, redutos de homossexuais ou onde quer que a vista de Deus aviste
um necessitado de amor. Quero, pois, fazer valer a condição de cristão
e reafirmar as promessas por mim a Jesus e as feitas por Ele, a nosso
favor, para que sejamos jovens com os jovens e para os jovens, sem
desculpas, preconceitos ou medos mas, antes de tudo, inspirados pelo
amor que nos é dado de graça.
Inflamado
por Jesus que me ama e quer ser amado, vejo não mais um show de rock,
mas uma imensa legião de jovens a se descobrirem numa comunhão de paz.
Não mais a escuridão de uma casa de shows, mas a luz que emana dos
vitrais da igreja. Tampouco, não mais o cabeludo a gritar e injuriar,
mas a pequenina Hóstia no centro de um sacrário dourado, a irradiar a
paz sem a necessidade de refrões com duplo sentido nem de situações de
luxúria e, sim, a derramar a Graça no silêncio e na mansidão. Jesus,
escondido no Pão, no meio dos jovens que cantam, louvam e se alegram,
tão jovem quanto eles. Esses jovens todos, imagino (e creio!),
condicionados e formados no amor, a se anularem tendo em vista o
transbordamento de amor ao próximo, àquele que sofre, que se destrói.
Sonho que se torna realidade pelo meu "sim", como o foram o de Abraão,
Moisés, Maria Santíssima e dos santos...
... entusiasmado, desligo a TV e vou rezar o terço. Mais tarde talvez eu evangelize alguns jovens num chat de namoro...
BRENO GOMES FURTADO ALVES
Formação Jovem | Novembro de 2004
Quero partilhar com você! Mande um e-mail para
Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
e conte suas experiências de vida.
|