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Advento - vigilância
Dom Geraldo M. Agnelo
Cardeal Arcebispo de Salvador
Com o tempo do
Advento iniciamos o novo Ano Litúrgico. Durante esse ano, o Evangelho
de São Mateus será a fonte da Palavra de Deus referência para nossa
meditação e contemplação do mistério de nossa salvação realizado por
Cristo Jesus.
O Evangelho de
Mateus é mais completo e isso explica o lugar privilegiado que ocupa no
uso da Igreja. São amplas as narrações dos ensinamentos de Jesus,
famosos os discursos, como o sermão da montanha; a atenção à relação
Lei-Evangelho: o evangelho é a nova-lei. É considerado o evangelho mais
eclesiástico pelo relato do primado de Pedro e pelo uso do termo
Ecclesia que significa Igreja, que não se encontra nos outros três
evangelhos.
A palavra mais
destacada no evangelho de hoje é: “Vigiai pois não sabeis em que dia
vosso senhor virá”, Cada ano litúrgico é como um círculo, uma órbita
completa que revive a história da salvação. Somos convidados a
participar como se fosse o único da nossa vida, portanto não como
comemoração de um aniversário, mas a própria vivência do acontecimento.
Um ano não repete simplesmente o que passou, mas apela para continuada
conversão, novo aprofundamento, novo encontro sacramental com o
Salvador. Somos convidados a percorrer em nossa vida uma espiral de
crescimento espiritual.
O tempo
litúrgico nos convida a refletir sobre o tempo que passa. “O homem não
é senão um sopro, seus dias como sombra que passa”, diz a Escritura. Ao
momento mesmo do nascimento, começa a contagem regressiva que não pára
um só instante, nem de dia nem de noite. Havia em alguns conventos,
junto ao relógio principal que bate as horas, inscrição onde se lê:
“Todas as horas ferem, a última mata”.
A experiência
obrigatória da transitoriedade da vida nos coloca diante da
possibilidade de algumas atitudes. Uma primeira, antiga e recordada
pela bíblia que diz: “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”
(Isaias 22,13). Jesus, no evangelho de hoje, falando dos dias que
precederam ao dilúvio, diz: “Comiam e bebiam, casavam-se e não tomavam
conhecimento de nada, até quando veio o dilúvio e os arrastou a todos”
(Lucas 24, 37-44).
Outra atitude é
a sugerida pelo apóstolo Paulo: “enquanto temos tempo, procuremos fazer
o bem” (Gálatas 6,10). Há pessoas honestas e de boa vontade que não têm
fé mas procuram realizar o programa de empregar a vida para fazer o
bem. Merecem admiração e respeito, porque para eles ainda é mais
difícil.
“O mundo passa,
mas quem faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1 João 2, 17).
Só Deus não passa. Existe um modo para também nós não passarmos para
sempre: fazer a vontade de Deus, isto é crer, aderir a Deus. “Ele é a
rocha, perfeita é a sua obra’ (Deuteronômio 32, 4). É pois a proposta
da fé: passar àquele que não passa! Passar do mundo, para não passar
com o mundo. Se Deus é a rocha, devemos estar aderentes à rocha. Quem
está apegado à rocha não terá medo dos ventos nem das tempestades. Está
firme na fé. Dizia Santa Teresa de Ávila: “Nada te perturbe, nada te
apavore. Tudo passa, Deus somente permanece”. Há um imperativo que
brota de tudo isso, e está no evangelho deste domingo: “Vigiai, porque
não sabeis em que dia o Senhor vosso virá... Estai prontos, porque na
hora que não imaginais, o Filho do homem voltará”.
Por que Deus nos
esconde uma coisa assim importante, como será a hora da sua vinda, isto
é da nossa morte? A resposta tradicional é: “Para estarmos vigilantes,
sabendo cada um que o fato pode acontecer em nossos dias” (Santo
Efrém). Mas o motivo principal é que Deus nos conhece; sabe que
terrível angústia seria para nós conhecer antecipadamente a hora exata
e assistir a seu lento e inexorável aproximar-se. É o que mais
espaventa em certas pessoas. Mais numerosos são aqueles que morrem hoje
de enfermidades improvisas do coração, de desastres chocantes, do que
de males apavorantes. Causa mais temor, preocupa mais do que outras
enfermidades. Por que? Porque nos parece tirar-nos aquela incerteza que
nos permite esperar.
A advertência
“tudo passa” è dirigida mais aos jovens que aos anciãos. Existe a este
propósito uma palavra da Bíblia: “A juventude é como um sopro.
Recorda-te de teu criador, antes que venham os dias tristes em que
dirás: Não provo mais nenhum gosto” (Quoelet 12, 1).
A velhice é
evocada com uma série de imagens delicadas: o barulho que atormenta e
causa surdez, as cores que embranquecem, o passo que se faz incerto, o
medo do caminho e da subida. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.
Não se trata de desencantar-se da vida, mas de viver melhor, com mais
serenidade, menos agitação, menos stress. Tudo passa!
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