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PRA ONDE VAMOS? PDF Imprimir E-mail
Escrito por Breno Alves   
06-Jan-2005
Quando o fim de ano chega, o grande anseio de todo mundo é que o próximo seja mais maneiro em desgraças e dificuldades financeiras e mais pródigo em fartura e saúde. Vira a data do reveillon e existe aquela famosa esperança dos tempos melhores, de momentos alegres que desejamos e de pessoas especiais que esperamos conhecer. Embriagamo-nos com a festa e deixamos, como sempre, o manjado porém necessário momento de reflexão de escanteio, a esperar que as nossas desilusões e eterna incredulidade nos combatam a nocaute. Importante pensar a nossa vida por ora, parar para analisar o quanto ela está sendo cultivada em afeto e caridade, pela inspiração de Cristo. Ou, ainda, olhar para a Vida, assim mesmo com V maiúsculo, a fim de observar sua marcha segura sobre nós, sobre os nossos semelhantes. Encarar com fé o dom supremo que o Pai derrama em abundância e descobrir em que pontos a Vida vem sendo desrespeitada no nosso meio e no nosso coração. Nos últimos dias do ano que se foi, dois fatos me tomaram a atenção e me levaram a berrar com toda a força em proteção à vida e em revolta diante da nossa (a minha também!) negligência e indiferença perante a Graça sempre presente de Deus. Após a votação a favor dada no Congresso sobre o assunto das células-tronco embrionárias, tomei contato com a história de uma pequena criança, de nome Maria Teresa, que, nascida anencéfala, viveu três meses contra a enxurrada de negativos prognósticos dos médicos e dos conhecidos, cercada de afeto e amor. Não foi difícil juntar as duas coisas e penso que sobre elas deveríamos parar, nem que seja por um instante, antes de esperar um novo ano cheio de paz e vida a quem quer que seja.

No terceiro mês de gravidez, soube-se que Maria Teresa teria essa má-formação conhecida como anencefalia, que é como uma ausência do cérebro. Como tudo o que guardamos sob a nossa superficialidade, optou-se pela facílima opção do aborto, caminho seguro para o que julgamos descartável e inútil pelo nosso triste código de moral. A mãe, cristã consagrada, resolveu seguir adiante com a gestação, não sem um monte de críticas e sermões da parte de várias pessoas, parentes e amigos. Ninguém acha "razoável" ou "compensador", imagino eu, levar adiante uma gravidez fadada ao fim, ao fracasso. Como se, ironia suprema, nossa matemática vital olhasse somente para o nosso belo umbigo. Uma profecia, no entanto, veio dar à mãe o sopro do amor de Deus: uma amiga, em oração, revelou Nossa Senhora depositando em seu seio Jesus que nasce. Amém! Deus vive na coerência em Seu amor por nós, não se verga diante da dor e do sofrimento, nem muito menos diante da morte (como se a Cruz ainda não nos tivesse revelado isso...). Maria Teresa, teimosa como todos os filhos da Luz, rompeu com a sombra estreita do nosso coração para dar vazão à vida que Deus lhe soprou em plenitude. E viveu, inesperadamente, dias e semanas, provando que vence a força da Caridade e da aceitação da graça de Deus!

Da mesma forma, procura-se desesperadamente dar a Luz àqueles que, mesmo não tendo um corpinho inteiramente formado, necessitam dar vazão à sua pequenina vida. No entanto, votou-se, como hoje acontece, a favor da morte. Acredita-se que as células-tronco embrionárias podem ser a porta de salvação à cura dos males encefálicos e possibilidade de vida àqueles que vegetam em leitos e cadeiras de rodas. Então, pelo mesmo incorreto e falso código de moral, opta-se pela destruição daquilo que está em "desuso" sob a desculpa de melhorar a vida do semelhante. Opiniões contrárias, como a do Papa João Paulo II, traem uma visão "medieval" e "obscurantista" que embaça os avanços da ciência e da bioética, mesmo que traga a defesa Daquele que deu a Vida. Vivemos o consenso da destruição, do fratricídio, da mentira em detrimento de uma verdade que para nós é escudo, embora formado da areia mais fina e do pó mais ralo. Sem o sustento de Deus, vivemos a desorientação de quem se julga superior à Sua Decisão, sem nos apegarmos à Sua Misericórdia. Matamos o Cristo que está dentro de nós para colocar em seu lugar a superficialidade dos nossos sentimentos, a falsidade de nossas intenções. Dormimos o falso sono daqueles que se acham promotores da justiça, embora a defendamos sem nos voltamos à sua Raiz.

Maria Tereza viveu e deu seu testemunho de vida, de maneira inocente e silenciosa, em defesa de seus irmãos que nem um corpo formado dispuseram à guisa de proteção. Formam, assim, um exército de excluídos por não aceitarem o nosso errado jeito de encarar a vida, pela ausência de Deus em nós. No entanto, teimosos, se agarram á perspectiva de serem respeitados, nem que seja no fundo de um tubo de ensaio ou de uma geladeira. E não adianta levantar-se em defesa daqueles que sofrem sob o peso de suas dificuldades neuromotoras porque Deus dá sua Graça a cada um de maneira singular e nós não podemos, em Seu lugar, tomarmos do poder de decidir sobre a vida de ninguém. Aí reside a nossa cegueira e a nossa miséria, em nós não aceitarmos que Deus não preenche os nossos requisitos e não atende às nossas expectativas quando deposita em nós a Vida que é sua essência. Isso nos serve de respaldo a tomar de assalto a existência daquele que não pode se defender...

Pois é, estamos em um período carregado de expectativas e de boas intenções. Falar desse assunto talvez seja, para nós, um tanto indigesto, embora a nossa vontade seja a de ansiar esse ano de 2005 com a esperança de futuros novos anos pela frente. Ou seja, de viver indefinidamente, sem aguardar que nos destruam ou nos prejudiquem. Fica a pergunta: para onde vamos, então? Viver sem a vida em plenitude, existir enquanto milhares ou milhões de pessoas iguais a nós morrem para nos tranqüilizar ou salvar? Continuar em defesa da nossa vida em detrimento da do outro?

São João nos diz: "Nele (Jesus) havia a vida, e a vida era a luz dos homens" (Jo 1, 4). Deixemos, pois, que a Luz de Jesus nos inspire a descoberta da Sua Vida, que se espalha sobre nós na abrangência de Seu Amor supremo. Saibamos seguir a trilha estreita e gratificante da Sua Misericórdia, para evitar que a morte e a cegueira sejam nossa herança aos que vêm e para que esse ano reflita a esperança concreta e visível de que Deus repouse sobre nós para nos a dar a Sua plenitude, de Vida e de Paz.

BRENO GOMES FURTADO ALVES

Formação Jovem | Dezembro de 2004

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BRENO GOMES FURTADO ALVES

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