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Quando
o fim de ano chega, o grande anseio de todo mundo é que o próximo seja
mais maneiro em desgraças e dificuldades financeiras e mais pródigo em
fartura e saúde. Vira a data do reveillon e existe aquela famosa
esperança dos tempos melhores, de momentos alegres que desejamos e de
pessoas especiais que esperamos conhecer. Embriagamo-nos com a festa e
deixamos, como sempre, o manjado porém necessário momento de reflexão
de escanteio, a esperar que as nossas desilusões e eterna incredulidade
nos combatam a nocaute. Importante pensar a nossa vida por ora, parar
para analisar o quanto ela está sendo cultivada em afeto e caridade,
pela inspiração de Cristo. Ou, ainda, olhar para a Vida, assim mesmo
com V maiúsculo, a fim de observar sua marcha segura sobre nós, sobre
os nossos semelhantes. Encarar com fé o dom supremo que o Pai derrama
em abundância e descobrir em que pontos a Vida vem sendo desrespeitada
no nosso meio e no nosso coração. Nos últimos dias do ano que se foi,
dois fatos me tomaram a atenção e me levaram a berrar com toda a força
em proteção à vida e em revolta diante da nossa (a minha também!)
negligência e indiferença perante a Graça sempre presente de Deus. Após
a votação a favor dada no Congresso sobre o assunto das células-tronco
embrionárias, tomei contato com a história de uma pequena criança, de
nome Maria Teresa, que, nascida anencéfala, viveu três meses contra a
enxurrada de negativos prognósticos dos médicos e dos conhecidos,
cercada de afeto e amor. Não foi difícil juntar as duas coisas e penso
que sobre elas deveríamos parar, nem que seja por um instante, antes de
esperar um novo ano cheio de paz e vida a quem quer que seja.
No terceiro mês de gravidez, soube-se que Maria Teresa teria essa
má-formação conhecida como anencefalia, que é como uma ausência do
cérebro. Como tudo o que guardamos sob a nossa superficialidade,
optou-se pela facílima opção do aborto, caminho seguro para o que
julgamos descartável e inútil pelo nosso triste código de moral. A mãe,
cristã consagrada, resolveu seguir adiante com a gestação, não sem um
monte de críticas e sermões da parte de várias pessoas, parentes e
amigos. Ninguém acha "razoável" ou "compensador", imagino eu, levar
adiante uma gravidez fadada ao fim, ao fracasso. Como se, ironia
suprema, nossa matemática vital olhasse somente para o nosso belo
umbigo. Uma profecia, no entanto, veio dar à mãe o sopro do amor de
Deus: uma amiga, em oração, revelou Nossa Senhora depositando em seu
seio Jesus que nasce. Amém! Deus vive na coerência em Seu amor por nós,
não se verga diante da dor e do sofrimento, nem muito menos diante da
morte (como se a Cruz ainda não nos tivesse revelado isso...). Maria
Teresa, teimosa como todos os filhos da Luz, rompeu com a sombra
estreita do nosso coração para dar vazão à vida que Deus lhe soprou em
plenitude. E viveu, inesperadamente, dias e semanas, provando que vence
a força da Caridade e da aceitação da graça de Deus!
Da mesma forma, procura-se desesperadamente dar a Luz àqueles que,
mesmo não tendo um corpinho inteiramente formado, necessitam dar vazão
à sua pequenina vida. No entanto, votou-se, como hoje acontece, a favor
da morte. Acredita-se que as células-tronco embrionárias podem ser a
porta de salvação à cura dos males encefálicos e possibilidade de vida
àqueles que vegetam em leitos e cadeiras de rodas. Então, pelo mesmo
incorreto e falso código de moral, opta-se pela destruição daquilo que
está em "desuso" sob a desculpa de melhorar a vida do semelhante.
Opiniões contrárias, como a do Papa João Paulo II, traem uma visão
"medieval" e "obscurantista" que embaça os avanços da ciência e da
bioética, mesmo que traga a defesa Daquele que deu a Vida. Vivemos o
consenso da destruição, do fratricídio, da mentira em detrimento de uma
verdade que para nós é escudo, embora formado da areia mais fina e do
pó mais ralo. Sem o sustento de Deus, vivemos a desorientação de quem
se julga superior à Sua Decisão, sem nos apegarmos à Sua Misericórdia.
Matamos o Cristo que está dentro de nós para colocar em seu lugar a
superficialidade dos nossos sentimentos, a falsidade de nossas
intenções. Dormimos o falso sono daqueles que se acham promotores da
justiça, embora a defendamos sem nos voltamos à sua Raiz.
Maria Tereza viveu e deu seu testemunho de vida, de maneira inocente e
silenciosa, em defesa de seus irmãos que nem um corpo formado
dispuseram à guisa de proteção. Formam, assim, um exército de excluídos
por não aceitarem o nosso errado jeito de encarar a vida, pela ausência
de Deus em nós. No entanto, teimosos, se agarram á perspectiva de serem
respeitados, nem que seja no fundo de um tubo de ensaio ou de uma
geladeira. E não adianta levantar-se em defesa daqueles que sofrem sob
o peso de suas dificuldades neuromotoras porque Deus dá sua Graça a
cada um de maneira singular e nós não podemos, em Seu lugar, tomarmos
do poder de decidir sobre a vida de ninguém. Aí reside a nossa cegueira
e a nossa miséria, em nós não aceitarmos que Deus não preenche os
nossos requisitos e não atende às nossas expectativas quando deposita
em nós a Vida que é sua essência. Isso nos serve de respaldo a tomar de
assalto a existência daquele que não pode se defender...
Pois é, estamos em um período carregado de expectativas e de boas
intenções. Falar desse assunto talvez seja, para nós, um tanto
indigesto, embora a nossa vontade seja a de ansiar esse ano de 2005 com
a esperança de futuros novos anos pela frente. Ou seja, de viver
indefinidamente, sem aguardar que nos destruam ou nos prejudiquem. Fica
a pergunta: para onde vamos, então? Viver sem a vida em plenitude,
existir enquanto milhares ou milhões de pessoas iguais a nós morrem
para nos tranqüilizar ou salvar? Continuar em defesa da nossa vida em
detrimento da do outro?
São João nos diz: "Nele (Jesus) havia a vida, e a vida era a luz dos
homens" (Jo 1, 4). Deixemos, pois, que a Luz de Jesus nos inspire a
descoberta da Sua Vida, que se espalha sobre nós na abrangência de Seu
Amor supremo. Saibamos seguir a trilha estreita e gratificante da Sua
Misericórdia, para evitar que a morte e a cegueira sejam nossa herança
aos que vêm e para que esse ano reflita a esperança concreta e visível
de que Deus repouse sobre nós para nos a dar a Sua plenitude, de Vida e
de Paz.
BRENO GOMES FURTADO ALVES
Formação Jovem | Dezembro de 2004
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BRENO GOMES FURTADO ALVES
Formação Jovem | Dezembro de 2004
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