Numa
recente entrevista o pe. Antônio Maria alegou que foi ao casamento como
amigo, e deu sua bênção "como daria a qualquer pessoa que lhe pedisse".
E disse ainda: "No livro do ritual de bênçãos da Igreja há bênção para
casa, carro, fábrica, quadras de esporte, instrumentos musicais, bênção
de animais, de pastagens, de cemitério e muitas mais. Não vejo nenhuma
'desgraça' abençoar dois jovens que pretendem direcionar seus passos no
caminho de Deus".
Essas
alegações infelizmente não são suficientes a explicar o óbvio: A Igreja
não reconhece como válida a união de duas pessoas ainda unidas a outras
pelo casamento civil - que é o caso de Ronaldo e sua noiva – mesmo que
não tenham se casado anteriormente na Igreja, e um sacerdote ao dar uma
bênção ou qualquer outro gesto ritual não o faz em seu próprio nome,
ninguém é padre para si mesmo. Como complicador, abençoôu publicamente
uma cerimônia que não tem valor sequer segundo a lei, e muito menos
diante da Igreja.
Ou
seja, uma bênção inócua, mas que teve sérias conseqüências, já que
nessas horas, vêem a Igreja e não o gesto isolado de um de seus
membros, e a imprensa parece conhecer bastante a nossa doutrina nessas
horas. Como disse o próprio padre, há no Livro Ritual de Bênçãos
diversas aplicações às mesmas, de casas a pastos, mas não há nenhuma
bênção que se aplique àquele tipo de cerimônia, pelo contrário, há a
clara manifestação contrária da Igreja.
É
bem sabido pelo mesmo padre que abençoar uma união matrimonial só é
cabível no rito do matrimônio, quando os noivos preenchem as exigências
prescritas, e a essas exigências ninguém está excluído, nem mesmo as
tão cultuadas "celebridades". Todas as sociedades e todas as grandes
religiões do mundo – catolicismo, judaísmo e islamismo – possuem seus
ritos e exigências para o matrimônio, e em todas elas o matrimônio é um
sacramento, é um ato sagrado, e não uma banalidade submissa a uma
estética carnavalesca ou exibicionista.
O
propósito e motivação da referida bênção é amplamente duvidoso, haja
vista qualquer fiel comum está obrigado a cumprir todas as exigências
do sacramento matrimonial para receber a bênção de Deus e da Igreja em
sua união. Que será então doravante de todos aqueles que estão
impedidos de casar-se ou de casar-se novamente? Chamarão igualmente
algum padre amigo que lhes dê uma "bênção especial"? Bom, então estará
inaugurado o rito LIGHT do matrimônio, uma versão bizarra e pós-moderna
do rito santo e santificante da casamento, se for uma "celebridade",
fica ainda mais fácil.
Num
momento onde a Igreja é tão duramente atacada pelas verdades que
defende; em que o casamento e a família são alvos freqüentes desses
ataques e objeto permanente das abordagens do papa João Paulo II, e
estando a Igreja prestes a publicar um novo documento sobre
indissolubilidade do matrimônio, a atitude do pe. Antônio Maria se
constitui num desserviço à Igreja e por conseguinte a todo o povo de
Deus. Isto deve ser objeto de nosso protesto. A questão é agravada pelo
alcance justificado e merecido da figura pública do pe. Antonio Maria.
E, dentro da Igreja, Antônio Maria é maior que Ronaldo.
Se
era desejo do casal receber a bênção de Deus - e isso é louvável - mais
útil seria o pe Antônio Maria ter-lhes orientado da forma correta, e
que celebrassem uma união válida sob a ótica da lei e da Igreja, ao
invés de um espetáculo de ostentação e luxo.
Infelizmente,
esse triste fato municiou os críticos da Igreja e entristeceu aos fieis
e religiosos católicos que laboriosamente trabalham na formação de
casais e famílias edificadas sob a santidade do matrimônio. Aos
críticos, não há explicação ou justificativa que baste, a não ser
assumir a verdade dos fatos: o pe. Antônio Maria errou, e seu gesto não
encontra suporte na doutrina da Igreja e nem na aprovação dos católicos
conscientes. Além de contar com a reprovação já manifesta das
autoridades da Igreja.
Esse
fato sem dúvida não diminui o valor do trabalho do pe Antônio Maria.
Não diminui o valor de sua música, de seu belo e amplo trabalho
caritativo, de seu empenho na divulgação e difusão da devoção à Virgem
de Schoensttat no Brasil. Por tudo isso o pe. Antônio Maria é e
continuará sendo merecedor de todo o nosso respeito e admiração,
entretanto isso não arrefece a nossa decepção e nem a nossa crítica
ante os fatos noticiados na imprensa, e confirmados pelo próprio padre
com explicações que não se servem a uma justificativa.
Não
somos afetos a um exacerbado rigor à ortodoxia, mas a Igreja não se
manteve depositária das verdades da fé graças à sua capacidade de
absorver os modismos e relativizações impostas pelas gerações, mas
justamente por ser heróica em conservar essas mesmas verdades.
O
que nos mantém unidos é uma Igreja que a todos abraça, que a todos
acolhe, que a todos respeita, mas que não é leniente com nenhum dos
seus filhos, independentemente de cor, raça ou posição social; que não
relativiza seus dogmas e nem as verdades que defende e ensina, mesmo ao
custo do sangue de seus mártires. Todo esse esforço e graça deve ser
honrado pelos seus fieis, mas principalmente por seus clérigos, que não
devem ser permissivos, mesmo diante do cintilante, mas passageiro
brilho das estrelas da mídia.