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Células-tronco, mais uma tragédia brasileira PDF Imprimir E-mail
Escrito por Elbson do Carmo   
07-Mar-2005
Foi desanimadora a ação da Igreja e dos fiéis em relação à batalha política em torno da aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias. A discussão foi mínima em relação à gravidade do tema, a pressão sobre os parlamentares, menor ainda, pois cartas a cada parlamentar, ou manifestos na imprensa não deveriam ter sido as únicas formas de manifestação utilizadas. O resultado da votação foi arrasador e vergonhoso, apenas 59 votos contrários contra 352 a favor.

Não importa se o debate foi ínfimo por parte do parlamento, pois se a Igreja, que é uma das instituições declaramente contrárias a essa pesquisa, não ampliou ou provocou esse debate, não era de se esperar que os partidários dessas pesquisas o fizessem sem que fossem obrigados a dizer a verdade: Não há qualquer garantia de que a pesquisa produza os frutos almejados, e que nenhuma pesquisa com células-tronco embrionárias deu qualquer resultado positivo, ao contrário do já constatado com células-tronco adultas.

Numa discussão que perdeu completamente o seu direcionamento ético e ganhou contrornos políticos, a arena política deveria ter sido o teatro adequado a ações de agravo. Por quê quando o assunto é a terra, por exemplo, a postura adotada por aqueles que ainda postulam um socialismo transvestido de religião é outra? A discussão em torno de pesquisas com embriões humanos deveria ter resultado nas mesmas passeatas, caminhadas, eventos de vulto nacional. A discussão em torno da aprovação dessas pesquisas deveria ter ganho as ruas, deveria ter ganho todos os templos católicos do Brasil, as escolas e etc.

Triste foi perceber que "notáveis" e pensadores da religião manifestaram sua concordância da mais covarde das formas, o silêncio. Preferiram manter-se ao largo de discussão tão "desgastante". Afinal, para esses, a cada vez que a Igreja lança-se em demandas em prol da vida, como a condenação de todas as formas de aborto, a questão da contraceptividade e etc., a Igreja torna-se pouco simpática à opinião pública, deixa patente que está obsoleta em relação aos costumes. E esquecem de um fundamento basilar: Nem sempre a opinião da maioria reflete a verdade.

Triste ainda foi tomar conhecimento de que recentes pesquisas de opnião apontam que maioria dos católicos aprova essa pesquisa, muito em função de sua mais absoluta ignorância a respeito do tema e seus desdobramentos, ou pior, desconhecimento mesmo acerca da fé que professa. Uma ignorância que chega a ser voluntariosa em manifestar-se.

Mesmo neste site, quando de nossas publicações a respeito do assunto ao longo de todos os meses que precederam essa fatídica aprovação, não notamos o mínimo interesse no debate do assunto. Estávamos todos encantados com nossa própria capacidade de criação e superação diante dos desafios da ciência. A ilusão de um "bem maior" foi mais forte que nossa obediência à fé que professamos.

Mais uma vez todos se iludiram pela "propaganda" (por sinal, termo usado para identificar a publicidade nazista) de um futuro brilhante como fruto dessas pesquisas e esqueceram o preço moral e ético daquilo que fora aprovado. Ainda que haja uma única cura (coisa improvável até o momento) proveniente dessas pesquisas, o assassínio permitido pela via da lei, de vidas humanas, não se justifica. E pior, o que impede que doravante não sejam "fabricados" embriões com esse fim? A lei no momento proíbe, mas até quando?

Mesmo o presidente da câmara, Severino Cavalcante, que prometeu dificultar ao máximo a aprovação da Lei de Biosegurança, tendo em vista suas "fortes convicções católicas" mudou de idéia, procurou "escutar a ciência" - segundo suas palavras - e não deu ouvidos à Igreja que pertinazmente diz respeitar. E mais uma vez decepcionou, aliás, não fez outra coisa até agora.

Não é preciso repetir que um embrião humano é uma vida humana, não uma vida animal. Não é um amontoado de células, não é parte do corpo da mãe, é uma vida humana, como você ou eu.

A ciência é capaz de fecundar o óvulo in-vitro, mas para isso é necessário que concorra a semente humana. A ciência não conseguiu produzir nem um óvulo e nem um espermatozóide sintéticos, portanto não é detentora da vida, não pode fabrica-la, e por conta disso não pode legislar sobre ela, não pode definir sua utilidade como se a mesma fosse um artefato, um meio. A vida humana não é produto da ciência humana, e por conta disso não pode ser submissa a suas demandas e interesses, não é um produto, não é um objeto, não é uma coisa.

O embrião não pode ser uma coisa ou um objeto porque a sua natureza material e biológica o coloca entre os seres pertencentes à espécie humana. Um embrião é tão humano quanto nós porque todos os seres humanos passam pelo estágio embrionário, que é tão somente um dos vários estágios do desenvolvimento biológico humano, como o estado fetal por exemplo. Ou seja, nos tornamos uma vida humana desde o momento da concepção, haja vista a concepção só acontece com um propósito: perpetuar a VIDA humana. Ora, se o embrião não é nem uma coisa e nem um objeto, no plano jurídico e ético, o embrião só pode ser um sujeito aos olhos da justiça, e portanto, submisso e protegido pelas mesmas normas legais, morais e éticas que todos nós.

Infelizmente foi aberto um triste precendente. Foi sopesada a utilidade de uma vida ao invés de seu valor. Relativizado o direito à vida em função de propósitos que não levam esse direito em conta.

Que ninguém duvide dos frutos que advirão desse assassinato legalizado (de mais esse). recordemo-nos da sociedade alemã perfeita idealizada pelos nazistas. Sem doentes mentais, sem cegos de nascença, sem coxos, sem pessoas dependentes vitaliciamente do auxílio de outrem. Primeiro mataram os doentes mentais, depois os inválidos e depois passaram aos recém-nascidos. Se um povo com uma tradição milenar, com um alto nível educacional, uma cultura diversificada e reconhecida por sua excelência foi capaz disso tudo, o que impede que nações teceiromundistas como a nossa alcancem o mesmo grau de desprezo pela vida em nome de um "bem maior"? Pior, o que garante que nações como a nossa não se transformem em laboratórios da morte, já que em países ricos as leis são mais rígidas (e aplicadas), e temas desse vulto são mais demoradamente discutidos? Ou seja, as nações em desenvolvimento ou subdesenvolvidas testam e assumem o ônus moral desses testes, e se houver algum fruto, os beneficiários imediatos não serão essas nações, mas aqueles que empenharam tão somente o capital necessário a essas pesquisas e por conseguinte irão deter os direitos sobre a tecnologia. Num exemplo aproximado: é como a Holanda, que detém a tecnologia do café solúvel, e é seu seu maior exportador mundial, mas não planta um único pé de café.

Infelizmente não perdemos apenas a batalha política em torno das células-tronco embrionárias, perdemos várias outras que advirão desta, pois havendo um precendente legal, pouco há que se fazer em questões futuras que tenham ligação com pesquisas utilizando seres humanos e isso não é alarmismo, já que os partidários de causas semelhantes já sabem exatamente como agir doravante. Para ilustrar essa verdade, veja o que disse André Petry, colunista da Revista Veja, em sua coluna, na edição 1895, de 09/03/2005, pag. 93 - o grifo é nosso:

"O importante a ressaltar é que permanece proibida a clonagem terapêutica, que vem a ser a produção de um embrião geneticamente idêntico ao paciente para fornecer-lhe células - um caminho sensacional de pesquisa que já está sendo trilhado cientificamente na Inglaterra, por exemplo. Mais cedo ou mais tarde, o Brasil voltará a discutir o tema para decidir sobre a clonagem terapeutica. Aí reside a importância de ter derrotado o lobby religioso. Se, quando o país discutir clonagem terapêutica, o lobby religioso tiver recuperado forças, cairemos na treva. Se, ao contrário, o lobby religioso ainda estiver fraco, quando esse dia chegar, aí então, com a graça de Deus, podemos ter esperança de mais luz."

É interessante notar que o Brasil não foi aplaudido no resto do mundo por conta dessa aprovação, e nem fomos colocados como exemplo a ser seguido. Pelo contrário, os EUA já manifestaram claramente que não irão financiar pesquisas envolvendo embriões humanos, e alguns Estados norte-americanos querem transformar essas pesquisas em crime.

Mais uma vez o Brasil foi na contramão... da vida e da razão.

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