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Foi
desanimadora a ação da Igreja e dos fiéis em relação à batalha política
em torno da aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias. A
discussão foi mínima em relação à gravidade do tema, a pressão sobre os
parlamentares, menor ainda, pois cartas a cada parlamentar, ou
manifestos na imprensa não deveriam ter sido as únicas formas de
manifestação utilizadas. O resultado da votação foi arrasador e
vergonhoso, apenas 59 votos contrários contra 352 a favor.
Não
importa se o debate foi ínfimo por parte do parlamento, pois se a
Igreja, que é uma das instituições declaramente contrárias a essa
pesquisa, não ampliou ou provocou esse debate, não era de se esperar
que os partidários dessas pesquisas o fizessem sem que fossem obrigados
a dizer a verdade: Não há qualquer garantia de que a pesquisa produza
os frutos almejados, e que nenhuma pesquisa com células-tronco
embrionárias deu qualquer resultado positivo, ao contrário do já
constatado com células-tronco adultas.
Numa discussão que perdeu
completamente o seu direcionamento ético e ganhou contrornos políticos,
a arena política deveria ter sido o teatro adequado a ações de agravo.
Por quê quando o assunto é a terra, por exemplo, a postura adotada por
aqueles que ainda postulam um socialismo transvestido de religião é
outra? A discussão em torno de pesquisas com embriões humanos deveria
ter resultado nas mesmas passeatas, caminhadas, eventos de vulto
nacional. A discussão em torno da aprovação dessas pesquisas deveria
ter ganho as ruas, deveria ter ganho todos os templos católicos do
Brasil, as escolas e etc.
Triste foi perceber que "notáveis" e
pensadores da religião manifestaram sua concordância da mais covarde
das formas, o silêncio. Preferiram manter-se ao largo de discussão tão
"desgastante". Afinal, para esses, a cada vez que a Igreja lança-se em
demandas em prol da vida, como a condenação de todas as formas de
aborto, a questão da contraceptividade e etc., a Igreja torna-se pouco
simpática à opinião pública, deixa patente que está obsoleta em relação
aos costumes. E esquecem de um fundamento basilar: Nem sempre a opinião
da maioria reflete a verdade.
Triste ainda foi tomar
conhecimento de que recentes pesquisas de opnião apontam que maioria
dos católicos aprova essa pesquisa, muito em função de sua mais
absoluta ignorância a respeito do tema e seus desdobramentos, ou pior,
desconhecimento mesmo acerca da fé que professa. Uma ignorância que
chega a ser voluntariosa em manifestar-se.
Mesmo neste site,
quando de nossas publicações a respeito do assunto ao longo de todos os
meses que precederam essa fatídica aprovação, não notamos o mínimo
interesse no debate do assunto. Estávamos todos encantados com nossa
própria capacidade de criação e superação diante dos desafios da
ciência. A ilusão de um "bem maior" foi mais forte que nossa obediência
à fé que professamos.
Mais uma vez todos se iludiram pela
"propaganda" (por sinal, termo usado para identificar a publicidade
nazista) de um futuro brilhante como fruto dessas pesquisas e
esqueceram o preço moral e ético daquilo que fora aprovado. Ainda que
haja uma única cura (coisa improvável até o momento) proveniente dessas
pesquisas, o assassínio permitido pela via da lei, de vidas humanas,
não se justifica. E pior, o que impede que doravante não sejam
"fabricados" embriões com esse fim? A lei no momento proíbe, mas até
quando?
Mesmo o presidente da câmara, Severino Cavalcante, que
prometeu dificultar ao máximo a aprovação da Lei de Biosegurança, tendo
em vista suas "fortes convicções católicas" mudou de idéia, procurou
"escutar a ciência" - segundo suas palavras - e não deu ouvidos à
Igreja que pertinazmente diz respeitar. E mais uma vez decepcionou,
aliás, não fez outra coisa até agora.
Não é preciso repetir que
um embrião humano é uma vida humana, não uma vida animal. Não é um
amontoado de células, não é parte do corpo da mãe, é uma vida humana,
como você ou eu.
A ciência é capaz de fecundar o óvulo
in-vitro, mas para isso é necessário que concorra a semente humana. A
ciência não conseguiu produzir nem um óvulo e nem um espermatozóide
sintéticos, portanto não é detentora da vida, não pode fabrica-la, e
por conta disso não pode legislar sobre ela, não pode definir sua
utilidade como se a mesma fosse um artefato, um meio. A vida humana não
é produto da ciência humana, e por conta disso não pode ser submissa a
suas demandas e interesses, não é um produto, não é um objeto, não é
uma coisa.
O embrião não pode ser uma coisa ou um objeto
porque a sua natureza material e biológica o coloca entre os seres
pertencentes à espécie humana. Um embrião é tão humano quanto nós
porque todos os seres humanos passam pelo estágio embrionário, que é
tão somente um dos vários estágios do desenvolvimento biológico humano,
como o estado fetal por exemplo. Ou seja, nos tornamos uma vida humana
desde o momento da concepção, haja vista a concepção só acontece com um
propósito: perpetuar a VIDA humana. Ora, se o embrião não é nem uma
coisa e nem um objeto, no plano jurídico e ético, o embrião só pode ser
um sujeito aos olhos da justiça, e portanto, submisso e protegido pelas
mesmas normas legais, morais e éticas que todos nós.
Infelizmente
foi aberto um triste precendente. Foi sopesada a utilidade de uma vida
ao invés de seu valor. Relativizado o direito à vida em função de
propósitos que não levam esse direito em conta.
Que ninguém
duvide dos frutos que advirão desse assassinato legalizado (de mais
esse). recordemo-nos da sociedade alemã perfeita idealizada pelos
nazistas. Sem doentes mentais, sem cegos de nascença, sem coxos, sem
pessoas dependentes vitaliciamente do auxílio de outrem. Primeiro
mataram os doentes mentais, depois os inválidos e depois passaram aos
recém-nascidos. Se um povo com uma tradição milenar, com um alto nível
educacional, uma cultura diversificada e reconhecida por sua excelência
foi capaz disso tudo, o que impede que nações teceiromundistas como a
nossa alcancem o mesmo grau de desprezo pela vida em nome de um "bem
maior"? Pior, o que garante que nações como a nossa não se transformem
em laboratórios da morte, já que em países ricos as leis são mais
rígidas (e aplicadas), e temas desse vulto são mais demoradamente
discutidos? Ou seja, as nações em desenvolvimento ou subdesenvolvidas
testam e assumem o ônus moral desses testes, e se houver algum fruto,
os beneficiários imediatos não serão essas nações, mas aqueles que
empenharam tão somente o capital necessário a essas pesquisas e por
conseguinte irão deter os direitos sobre a tecnologia. Num exemplo
aproximado: é como a Holanda, que detém a tecnologia do café solúvel, e
é seu seu maior exportador mundial, mas não planta um único pé de café.
Infelizmente
não perdemos apenas a batalha política em torno das células-tronco
embrionárias, perdemos várias outras que advirão desta, pois havendo um
precendente legal, pouco há que se fazer em questões futuras que tenham
ligação com pesquisas utilizando seres humanos e isso não é alarmismo,
já que os partidários de causas semelhantes já sabem exatamente como
agir doravante. Para ilustrar essa verdade, veja o que disse André
Petry, colunista da Revista Veja, em sua coluna, na edição 1895, de
09/03/2005, pag. 93 - o grifo é nosso: "O importante a
ressaltar é que permanece proibida a clonagem terapêutica, que vem a
ser a produção de um embrião geneticamente idêntico ao paciente para
fornecer-lhe células - um caminho
sensacional de pesquisa que já está sendo trilhado cientificamente na
Inglaterra, por exemplo. Mais cedo ou mais tarde, o Brasil voltará a
discutir o tema para decidir sobre a clonagem terapeutica. Aí reside a
importância de ter derrotado o lobby religioso. Se, quando o país
discutir clonagem terapêutica, o lobby religioso tiver recuperado
forças, cairemos na treva. Se, ao contrário, o lobby religioso ainda
estiver fraco, quando esse dia chegar, aí então, com a graça de Deus,
podemos ter esperança de mais luz."
É interessante notar
que o Brasil não foi aplaudido no resto do mundo por conta dessa
aprovação, e nem fomos colocados como exemplo a ser seguido. Pelo
contrário, os EUA já manifestaram claramente que não irão financiar
pesquisas envolvendo embriões humanos, e alguns Estados
norte-americanos querem transformar essas pesquisas em crime.
Mais uma vez o Brasil foi na contramão... da vida e da razão.
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