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Quis entitular este artigo com o nome de um livro do Cardeal Suenens, para abordar alguns aspectos da problemática da aceitação da RCC (Renovação Carismática Católica) por parte de alguns dentro da Igreja.
Primeiramente, gostaria de observar que, a despeito de ser rotulada como um movimento da Igreja, a RCC se distingue de todos os outros movimentos por não ter um fundador, mas ter-se iniciado com uma manifestação do Espírito Santo a alguns jovens católicos desejosos de uma experiência profunda de Deus, e que se achavam reunidos em uma universidade dos Estados Unidos, no final dos anos 60. Portanto, creio que seria mais cabível a definição que foi dada pelo Pe. Raniero Cantalamessa (de quem vamos falar mais abaixo), onde ele diz que "mais que um movimento da Igreja, a RCC é o Espírito Santo em movimento na Igreja".
Feita esta premissa, passemos a uma análise mais amiúde daquilo que tem ocorrido na Igreja em nossos tempos. Para sermos coerentes, precisamos admitir que a história da Igreja conheceu o florescimento de diversos movimentos que tiveram seus "altos e baixos" e até de outros que surgiram e que depois de algum tempo desapareceram ...
A RCC teve seus inícios por volta do ano de 1967, nos Estados Unidos e chegou ao Brasil por volta dos anos de 1970/71, com figuras como o Pe Haroldo Hamn, Pe Jonas Abib, Dom Cipriano Chagas e outros tantos leigos ... Passando pelas dificuldades que caracterizam os inícios de tudo aquilo que é novo, a RCC foi-se firmando e demonstrando que é uma obra de Deus na sua Igreja. É, como alguns ousam dizer, a resposta à oração do Santo Padre João XXIII, que no alvorecer do Concílio Vaticano II, pediu a Deus que soprasse novamente o seu Espírito sobre toda a Igreja.
O nascer da RCC, coincide, no Brasil, com aquilo que se conheceu como Teologia da Libertação (TL). Um movimento que teve suas origens na Alemanha e que chegou aqui na América Latina no início da década de 70. Levando em conta o que havia de bom nesta "filosofia", podemos sentir ainda a devastação por ela causada na Igreja no Brasil, mais latentemente o esvaziamento sofrido em nossas igrejas.
Ouve, desde o início uma como que oposição entre ambos, em virtude de seus fundamentos basilares. Um que se baseava na ação direta de Deus na sua Igreja, através dos carismas do Espírito Santo (RCC) e outra que se fundamentava no agir do homem, que deve ser o sujeito de sua própria libertação, segundo a interpretação tirada das Sagradas Escrituras, por seus mentores . Tudo isso reforçado pelos sínodos ocorridos na América Latina nos anos 60/70, conhecidos como Medellin e Puebla, onde a Igreja reafirmou a "evangélica opção preferencial pelos pobres (e pelos jovens)" esta segunda deixada de lado.
Como tudo o que é humano está sujeito a erros, o desvirtuamento ocasionado por uma interpretação excludente e exclusivista deste princípio (evangélica opção preferencial pelos pobres), redundou em maior prejuízo para esses mesmos pobres. Explico: na interpretação e na prática deste princípio citado acima, deixou-se de lado o termo "evangélica" (e também o "preferencial"), entendendo-se que esta opção consistia prevalentemente em libertar (daí Teologia da Libertação) os pobres exclusivamente das situações de miséria e pobreza humanas, materiais.
Isto funcionou como uma bomba de efeito retardado, detonada dentro do próprio movimento, uma vez que com o passar do tempo, estas promessas humanas feitas aos pobres, não se cumprem e os pobres se vêem cada vez mais na sua pobreza e miséria. Com isto, deixou-se de lado o autêntico e poderoso anúncio da mensagem da salvação, que tem, esta sim, o poder de libertar o homem do pecado. Para citar novamente o Pe Raniero Cantalamessa, "enquanto a Igreja fez a opção preferencial pelos pobres, os pobres fizeram opção pelos evangélicos". Esta interpretação e sua consequente prática equivocada da opção da Igreja, levou a um vazio interior nos fiéis, que não encontravam mais na Igreja a viva Palavra de Deus, mas discursos humanos, que falavam de uma realidade utópica, porque dificilmente se transforma sem uma conversão da sociedade ao Evangelho de Nosso Senhor. Com efeito "Jesus é a luz que vindo a este mundo ilumina todo homem". Nesta filosofia, trocou-se a pessoa de Jesus pelos valores de Jesus, que longe de sua pessoa, são meros valores. Como no tempo de São Paulo, aqui também, rapidamente se passou a "um outro evangelho", distorcendo o conteúdo da Palavra do Senhor em orientações humanas e terrenas, como se a Palavra de Deus não mirasse realidades eternas, mas exclusivamente temporais.
Some-se a tudo isso, o desprezo pela mística, pela vida interior, pela intimidade com Deus (que é chamada por eles de intimismo), a contemplação, a transcendência, a liturgia, a oração intensa e espontânea e mesmo a alegria interior, que é fruto do Espírito. Em tudo isso foi colocado o rótulo de alienação, como um mal que deve ser combatido a ferro e fogo. As consequências disso, nós as vemos nos lugares onde ainda subsistem focos da TL: uma igreja sem vida, formada de católicos sem comprometimento com a santidade (que por eles é entendida como engajamento social), que não valorizam o encontro pessoal com Deus.
Por tudo isso que até aqui abordei, podemos constatar o motivo da polarização que há entre a RCC e a TL e como a primeira veio restaurar aquilo que se havia perdido com a difusão da segunda.
A par de todos os pronunciamentos feitos pelo Vaticano, inclusive de documentos emanados daquela Sé Apostólica, buscando corrigir distorções, sobretudo com a recente publicação de "Algumas considerações sobre a Teologia da Libertação", assinada pelo Cardeal Ratzinger e com o aval do Santo Padre, quero citar a frase lapidar do Cardeal Dom Eugênio de Araujo Sales, que soube sintetizar o conceito de Teologia da Libertação de maneira objetiva e sábia: "A verdadeira teologia da libertação é aquela que, libertando o homem do pecado, liberta-o das conseqüências do pecado".
Este ar fresco trazido pela RCC, que foi buscar na Tradição da própria Igreja aquilo que se havia deixado para trás, fez com que muitos encontrassem novamente o oxigênio que estava começando a faltar. Uma prova disso é que o pregador da Casa Pontifícia (aquele que faz as pregações do Santo Padre e da Cúria Romana por ocasião do Advento e da Quaresma) é o Pe Raniero Cantalamessa ( www.cantalamessa.org ), membro da RCC e um de seus maiores escritores.
É hora de reconhecer os frutos da RCC! Que existam exageros e distorções, não podemos negar, já que isso é comum aos homens. Que um e outro não compartilhem da espiritualidade ali vivida, tudo bem. Mas a boa árvore nós a conhecemos pelos seus frutos. Para quem já teve a graça de participar de um encontro de oração num grupo da RCC (chamados grupos de oração) e despiu-se de preconceitos e estigmas, facilmente pode constatar a alegria interior que alimenta a vida. Novamente podemos ouvir a pregação do Evangelho com poder e autoridade, a autoridade vinda do Espírito Santo e que estava em Jesus ("nunca vimos ninguém falar como este homem!").
Quantos foram aqueles que conhecendo a Renovação, tiveram sua vida e sua fé transformadas!!! Eu mesmo, posso testemunhar, sou um desses. O batismo no Espírito (que não é um novo sacramento), a oração intensa e livre, a oração em línguas, a liberdade para expressar-se com o coração, o conhecimento e o amor à Palavra de Deus, a valorização dos ensinamentos que nos foram deixados por tantos místicos da Igreja, tudo são graças que o Senhor tem derramado sobre a sua Igreja.
Que Deus continue a derramar fogo sobre a Terra e a renovar os prodígios operados no dia de Pentecostes, naquele Cenáculo em Jerusalém. Com efeito, também nós precisamos, no poder do Espírito, testemunhar para o mundo que o Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a nós!!!
Paz e Bem!!!
Aurélio. ()
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