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Na noite de 16 de outubro de 1978, um vasta multidão impaciente que
tomava a Praça de São Pedro saudou entusiasticamente quando a fumaça
branca apareceu na chaminé no alto da Capela Sistina, sinalizando a
eleição de um novo papa.
O
cardeal Pericle Felici apareceu minutos depois para apresentar o
cardeal Karol Wojtyla da Polônia, o primeiro papa não-italiano desde
1523. Mas até mesmo ele teve dificuldade para pronunciar o nome
(voitila). Aparentemente, poucas pessoas sabiam quem ele era. Murmúrios
e perguntas começaram a circular entre a multidão predominantemente
romana.
Então um homem de corpo vigoroso, ombros levemente
caídos e um pequeno sorriso em seu rosto angular apareceu na sacada
central da Basílica de São Pedro. Os vivas deram lugar ao silêncio. A
multidão aguardava.
Ele permaneceu na sacada, olhando além, um
polonês desconhecido no manto branco do papa. E havia lágrimas em seus
olhos assim que começou a falar.
"Eu vim de um país distante", disse ele em um italiano com ligeiro sotaque, "distante, mas sempre perto na comunhão da fé".
"Eu não sei se posso me expressar em sua -nossa- língua italiana", disse ele, fazendo uma pausa.
A multidão manifestou seu apreço, e o riso se transformou em uma barulhenta saudação.
"Se eu cometer erros", ele acrescentou, repentinamente radiante, "vocês me corrijam".
Irrompeu o tumulto.
Os
vivas prosseguiram, e então se transformaram em ondas rítmicas que
rebentavam na fachada da basílica e ecoavam pela praça em um crescendo
trovejante:
"Viva il Papa!
"Viva il Papa!
"Viva il Papa!"
Um papa diferente
Foi
um começo extraordinário. Mas quase desde o início, ficou evidente para
muitos dos católicos romanos do mundo, assim como para muitos dos
não-católicos, que aquele seria um pontificado extraordinário, que
cativaria grande parte da humanidade pela força da personalidade e
remodelaria a Igreja com uma visão heróica de um catolicismo combativo,
disciplinado.
Aquele seria o pontificado mais longo e luminoso
do século 20, e (dependendo da inclusão de São Pedro) o segundo ou
terceiro mais longo da história -uma era de 26 anos que testemunhou
enormes mudanças ao redor do mundo, o crescimento da Igreja Católica
Romana de 750 milhões para mais de 1 bilhão de membros batizados, e o
início do Terceiro Milênio do Cristianismo.
O homem que chamaria
a si mesmo de João Paulo 2º não foi uma figura papal tradicional,
compassiva e amorosa, mas ascética e distante atrás dos altos muros e
do cerimonial elaborado do Vaticano. Ali estava um tipo diferente de
papa: complexo, escolado na confrontação, teologicamente intransigente
mas habilmente político, cheio de sagacidade, coragem, energia e amor
expressado fisicamente.
Mais que expansivo, ele era envolvente
-um homem de ação maior que a vida, que escalou montanhas, atuou em
peças teatrais, escreveu livros e viu a guerra, e que estava
determinado desde o início a tornar o mundo sua paróquia, e buscar
cuidar de seus problemas e atender suas necessidades espirituais.
Em
comparação a outros papas, ele não criou muitos novos programas, e
buscou esclarecer e reforçar as idéias católicas em vez de remodelá-las
ou expandi-las. Ele foi mais tradicional do que seus predecessores,
João 23 e Paulo 6º.
Mas ele via a si mesmo principalmente como
uma figura espiritual que transcendia as fronteiras geográficas e
ideológicas, e viu como sua missão apresentar um conjunto claro de
idéias católicas e promover a paz e a dignidade humana por meio do
poder da fé e esforços práticos de nações bem intencionadas.
No
amanhecer do novo milênio e no crepúsculo de seu pontificado, ele
também viu como seu dever emitir um audacioso pedido de desculpas sem
precedentes para os erros de sua Igreja e indivíduos católicos ao longo
dos últimos 2 mil anos, um catálogo de pecados que incluía episódios de
intolerância cultural e injustiças históricas contra judeus, mulheres,
povos indígenas, imigrantes e pobres.
Apesar de não ter citado
más ações específicas, os teólogos disseram que seu pedido de desculpas
pareceu englobar as Cruzadas, a Inquisição, a queima de hereges e as
conversões forçadas dos indígenas americanos, africanos e outros. O
Holocausto não foi especificado, mas o pedido de desculpas foi dedicado
a "uma confissão de pecados contra o povo de Israel".
E houve
outros reconhecimentos -notadamente em 1998, pelo fracasso de muitos
católicos em ajudar os judeus no Holocausto, e outro em 2002, das
vítimas de abuso sexual por padres em um escândalo que cobriu a Igreja
nos Estados Unidos com casos de pedofilia e acusações de acobertamento
por bispos e outros membros da hierarquia eclesiástica.
O
esforço extraordinário de João Paulo para limpar a consciência de sua
Igreja, juntamente com suas viagens pelo mundo, sua luta contra as
violações dos direitos humanos em toda parte, seus ataques contra as
injustiças econômicas do capitalismo e sua firme resistência a mudanças
nos ensinamentos da Igreja sobre controle da natalidade, celibato dos
padres, ordenação de mulheres e outras questões, foram marcas
fundamentais de seu pontificado.
Ele teve um importante papel no
colapso do comunismo soviético e europeu, dando aos adversários dos
governos comunistas na Polônia e de outras partes da Europa Oriental a
confiança de que a causa deles sobreviveria à repressão de seus
governantes.
Sua própria escolha estimulou o espírito dos fiéis
na Europa Oriental, para os quais o apelo "Não tenham medo!" -repetido
três vezes durante o sermão feito pelo papa quando assumiu em 22 de
outubro de 1978- teve significado especial.
Milhões compareceram
à primeira visita do papa à Polônia, massas de pessoas agindo
independentemente do governo comunista e ganhando um senso libertador
de autonomia. Em retrospecto, a visita foi amplamente vista como o
detonador do movimento trabalhista Solidariedade, que enfrentou o
governo comunista da Polônia em 1980, e eventualmente das mudanças que
varreram a União Soviética e a Europa Oriental uma década depois.
Viajando
amplamente -pela Europa, África, Américas e Ásia- o papa energizou
vastas multidões com uma mistura de populismo e teatralidade,
evangelismo e apelos apaixonados pelos direitos humanos, paz,
desarmamento e justiça para os pobres e oprimidos.
Ao longo de
um quarto de século de pontificado, João Paulo 2º visitou 129 países em
104 viagens ao exterior. Ele visitou e revisitou a Polônia e fez
viagens a outros países europeus. Ele viajou várias vezes para a Ásia,
América do Sul, América Central e África. Ele fez cinco visitas papais
aos Estados Unidos, viagens triunfais por várias cidades, em 1979 e
1987, um encontro com o presidente Bill Clinton em Denver, em 1993, uma
viagem em outubro de 1995 na qual visitou Nova York, Nova Jersey e
Baltimore, e a visita final, em 1999, a Saint Louis.
Em março de
2000, ele fez uma de suas viagens mais dramáticas, uma jornada de
despedida de seis dias à Jordânia, Israel e territórios palestinos, que
viu o papa de 79 anos, já fragilizado pelas enfermidades, caminhar
habilmente em meio aos campos minados políticos e religiosos do Oriente
Médio, o clímax de suas viagens papais.
Muitas autoridades do
Vaticano e líderes católicos, que a princípio se mostraram céticos em
relação às suas viagens, logo as viram como sendo valiosas e
bem-sucedidas.
Mas à medida que as jornadas se acumulavam, ficou
claro para muitos pensadores católicos que as viagens não eram meras
visitas a um vasto rebanho, mas sim uma característica central de seu
pontificado: uma forte reafirmação global da ortodoxia católica romana
por meio de um novo exercício sacramental, usando aviões, televisão e
uma notável presença de palco.
Carisma, conservadorismo e controle
O
papa também afirmou sua missão de formas tradicionais, ao nomear
cardeais e bispos de pensamento semelhante por todo o mundo e por meio
de ensinamentos papais que sustentavam a condenação da Igreja ao
controle da natalidade, à exclusão das mulheres do sacerdócio, sua
exigência do celibato para os padres no rito latino e sua suspeita para
com os movimentos sociais revolucionários.
Ao longo de seu
pontificado - e servindo de muitas formas para defini-lo - João Paulo
emitiu 14 encíclicas, ou instruções papais, lidando com uma ampla
variedade de assuntos: questões econômicas e sociais, guerra, o
significado da mortalidade, questões doutrinárias, fé, razão e outros
assuntos.
Em 1979, sua primeira encíclica, "Redemptor Hominis",
ou "Redentor do Homem", expressou a essência de sua convicção -que o
cuidado pela vida humana deriva do amor de Cristo. Em 1981, "Laborem
Exercens" ("Sobre o Trabalho Humano") destacava o caráter social do
trabalho e o papel ativo do trabalhador no complemento da tarefa da
criação divina.
"Sollicitudo Rei Socialis" ("Sobre Preocupações
Sociais"), em 1988, traçava um forte quadro do desespero nos países
pobres e bolsões de privação nas sociedades ricas. "Centesimus Annus"
("O Centésimo Ano"), emitido em 1991 para marcar o centenário da
primeira grande declaração papal sobre conflitos econômicos e sociais,
disse que o fracasso do comunismo não deveria cegar as sociedades
capitalistas à "quase servidão" nos países pobres ou à "idolatria ao
mercado" nos países ricos.
Em 1995, "Evangelium Vitae"
("Evangelho da Vida"), condenou o aborto e a eutanásia como "crimes que
nenhuma lei humana pode querer legitimizar". O papa também pediu aos
católicos que se opusessem às leis seculares que violem o que chamou de
direito fundamental à vida, e ele reafirmou a condenação da Igreja ao
controle da natalidade, experiências com embriões humanos e pena de
morte.
A 13ª encíclica de João Paulo, "Fides et Ratio" ("Fé e
Razão"), marcou seu 20º aniversário como papa em 1998. Cristalizando
uma vida de pensamento filosófico e teológico, ela expandiu a posição
histórica da Igreja de que fé e razão são ambos requisitos na busca
pela verdade, e rejeitou várias tendências filosóficas modernas,
incluindo o racionalismo pós-Iluminismo, marxismo e niilismo.
Sua
14ª e última encíclica, em 2003, foi um duro lembrete de que os
católicos divorciados que se casavam novamente não podiam receber a
comunhão.
As posições conservadoras do papa não eram difíceis de
rastrear. Vindo de um país onde a Igreja estava sitiada por um governo
totalitarista, ele percebeu que era necessária a reafirmação dos
princípios de sua fé e o enfrentamento agressivo dos credos seculares
que disputavam com a Igreja a lealdade das pessoas.
Para muitos
líderes católicos, particularmente no Vaticano, a Igreja em geral
estava sob sítio semelhante quando João Paulo se tornou papa em 1978.
As reformas do Concílio Vaticano 2º, nos anos 60, que revolucionaram a
Igreja ao adotar uma postura mais inclusiva em relação à modernização
após séculos de isolamento, e até mesmo hostilidade para com o
pensamento contemporâneo, não deteve a onda de secularização no coração
da Igreja, a Europa Ocidental.
O tumulto cultural dos anos 60
apenas reforçou o apelo do marxismo revolucionário, a revolução sexual
e outros confrontamentos à tradição católica. Muitos teólogos, que
viram o papado de Paulo 6º como um período de incerteza, consideraram a
autoridade moral da Igreja, e do papado, como estando em declínio.
João
Paulo concordava que grande parte da Igreja estava em desordem, sua
longa estabilidade abalada pela secularização e permissividade. A
princípio, ele apoiou as reformas do Vaticano 2º, e freqüentemente
enfatizava o princípio "colegial" sob o qual a Igreja é governada
conjuntamente pelo papa e seus bispos. Mas ele estava convencido de que
sua autoridade papal era a chave, que por meio de sua liderança
altamente visível, internacional, ele poderia esclarecer os princípios
e invocar a disciplina que considerava necessários para unificar e
revigorar a Igreja.
Para afastar o que considerou dúvidas
persistentes, João Paulo reafirmou em 1994 a doutrina da Igreja de que
as mulheres não podiam ser ordenadas como padres e disse que o assunto
nem mesmo estava aberto a debate. A Congregação para a Doutrina da Fé
do Vaticano, que supervisiona os ensinamentos da Igreja, foi ainda mais
longe em 1995 ao declarar que a doutrina de ordenar apenas homens como
padres foi ensinada "infalivelmente" - uma designação reservada a
ensinamentos considerados irreversíveis, livres de erro e que exigem
plena aceitação por parte dos fiéis.
E o papa levou estas
posições da Igreja para o palco mundial. Em 1994, enquanto 180 países
planejavam uma conferência da ONU no Cairo, Egito, sobre a explosão
populacional potencialmente catastrófica projetada para o século 21,
João Paulo orquestrou uma campanha contra as propostas esboçadas que
defendiam direitos de aborto, controle da natalidade e outras medidas
endossadas por feministas e especialistas em população.
A
campanha - a mais elaborada pelo Vaticano em anos sobre política
internacional e a mais sentida por parte do papa desde sua cruzada
contra o comunismo - provocou uma forte tensão em seu relacionamento
com Clinton, que defendia a legalização do aborto.
Teólogos
católicos dissidentes foram desprezados ou excomungados. Cardeais e
bispos liberais foram substituídos. E em 1998 o papa mudou a lei
canônica para colocar muitas questões passionalmente discutidas,
incluindo a eutanásia e a ordenação de mulheres, fora da esfera de
debate para os fiéis. Ele também tornou quase impossível para grupos
como a Conferência Nacional dos Bispos Católicos dos Estados Unidos
fazer declarações de doutrina ou políticas públicas que divirjam do
Vaticano. Na mesma linha, em 2003, sob ordens do papa, o Vaticano
admoestou todos os legisladores católicos a se oporem à legalização do
casamento entre pessoas do mesmo sexo e adoções por gays e lésbicas. Em
janeiro deste ano, o papa condenou de maneira inequívoca o casamento
gay.
Ninguém duvidava do poder da voz de João Paulo ou da
profundidade dos sentimentos que evocava. De fato, a intensidade do
sentimento era tamanha que muitos passaram a pensar nele não
simplesmente como o representante chefe de sua Igreja, mas como um
porta-voz humanitário e moral para todos os povos, independente de sua
religião.
Mas fora sua popularidade pessoal, muitos católicos -
especialmente nos Estados Unidos e na Europa Ocidental - ficaram
incomodados com sua oposição inflexível à mudança, mesmo diante de uma
crise. A tensão nunca foi maior do que durante os escândalos de
pedofilia por parte de padres nos Estados Unidos, que vieram à tona em
2002 após décadas de abuso predatório e sofrimento escondido por
acordos fora dos tribunais para as vítimas e tratamento e novas
designações para os padres ofensores.
Por meses o papa e o
Vaticano permaneceram distantes. Mas em abril de 2002, após os bispos
americanos pedirem orientação, o papa convocou os cardeais americanos
até Roma para uma conferência sobre os escândalos. Ela não produziu
amplas mudanças. Mas o papa reconheceu o sofrimento e ofereceu uma
expressão de preocupação que foi entendida por muitos como sendo um
pedido de desculpas. Chamando o abuso de criminoso e "um pecado
estarrecedor aos olhos de Deus", ele disse: "Para as vítimas e suas
famílias onde quer que estejam, eu expresso meu profundo senso de
solidariedade e preocupação".
Muitos católicos americanos
disseram que a Igreja e o papa estavam fora de sintonia. Mulheres,
negros, hispânicos, homossexuais e até mesmo padres e freiras pediram
ao papa que fosse mais sensível às suas necessidades. O papa geralmente
expressava simpatia, mas pedia aos suplicantes que permanecessem fiéis
aos ensinamentos da Igreja, que não seriam alterados.
O
resultado foi uma restauração da forte autoridade centralizada no papa.
E apesar de tal força ter tornado ele e a Igreja benquistos por muitos,
ela repeliu outros que acreditavam que o futuro do catolicismo romano
estava em uma maior diversidade e flexibilidade, descentralização de
poder e adaptabilidade em um mundo que muda rapidamente.
Judeus e palestinos
As
relações do papa com os judeus foram tanto turbulentas quanto
pioneiras. Mais do que qualquer outro papa moderno, João Paulo buscou
audaciosamente colocar um fim às desavenças entre católicos e judeus.
Ele foi o primeiro papa a rezar em uma sinagoga, o primeiro a
reconhecer o fracasso de indivíduos católicos em agir contra o
Holocausto, o primeiro a chamar o anti-semitismo de pecado "contra Deus
e o homem", e o primeiro a fazer uma visita papal oficial à Terra Santa.
Os
judeus freqüentemente ficavam desanimados com suas decisões e
pronunciamentos. Mas ele estabeleceu relações diplomáticas entre o
Vaticano e Israel, e estabeleceu o curso das relações entre católicos e
judeus em um plano elevado de envolvimento e cordialidade, diferente do
distanciamento e frieza de eras anteriores.
Mesmo depois de João
Paulo ter feito o mais amplo pedido de desculpas já feito por um papa -
um ato público de penitência pelos erros e más ações dos católicos ao
longo dos últimos 2000 anos, que foi inserido na liturgia da missa de
domingo na Basílica de São Pedro em 12 de março de 2000 - críticos
judeus foram rápidos em notar que ele não mencionou especificamente o
fracasso da Igreja em tentar salvar os judeus durante o Holocausto.
Os
líderes judeus constantemente analisavam as declarações papais e
freqüentemente condenavam frases nas quais detectavam censuras aos
judeus por rejeitarem o cristianismo ou sugestões de que a validade do
judaísmo se esgotou com a vinda de Jesus.
O Vaticano e Israel
reconheceram formalmente um ao outro em acordos diplomáticos em
dezembro de 1993, e seis meses depois, em junho de 1994, a Santa Sé e
Jerusalém estabeleceram relações diplomáticas plenas com uma troca de
embaixadores.
Política e religião
João Paulo
freqüentemente se via em choque com os italianos. Muitos o criticaram
duramente por liderar uma campanha em 1981 para derrubar a liberal lei
de aborto da Itália. Os eleitores mantiveram os direitos de aborto, mas
muitos se ressentiram pelo que consideraram uma interferência. Em 1985,
o governo italiano e o Vaticano assinaram um acordo colocando um fim ao
catolicismo romano como religião do Estado; o papa disse que ele
mostrava que a Igreja respeitava a independência da Itália, apesar de
ter se reservado o direito de se manifestar sobre questões nacionais.
Ele
também foi criticado dentro e fora da Igreja por sua oposição à
"teologia da libertação", uma escola de pensamento originada na América
Latina, mas também influente em outras partes. Misturando temas
bíblicos com marxismo e às vezes análises econômicas leninistas, ela
servia como justificativa para o envolvimento do clero católico nas
lutas políticas por justiça para os pobres na América Latina e em
outras partes do Terceiro Mundo.
Por anos, João Paulo tentou
traçar a fronteira delicada entre envolvimento político e religioso,
dizendo que a preocupação por justiça social era uma função legítima do
clero católico, mas que a ação política franca violava a vocação de
freiras e padres. A luta de classes, disse ele, não podia ser a solução
da Igreja para a injustiça social.
Os críticos disseram que ele
dedicou atenção demais à Polônia e à Europa Oriental, e não o
suficiente à Europa Ocidental no início de seu pontificado. Mas sua
recusa em aceitar a Cortina de Ferro contribuiu para a queda do
comunismo, e em anos posteriores ele apoiou em geral a unificação
política e cultural européia. Ele também transformou a reconciliação
religiosa em uma importante preocupação e promoveu vários diálogos
inter-religiosos. Em 1983 ele participou de um serviço luterano e
elogiou Martinho Lutero no 500º aniversário do líder da Reforma. Mas
nenhum grande acordo ou mudança eclesiástica surgiu de tais contatos.
O primeiro papa eslavo
João
Paulo foi um poeta, um dramaturgo, o autor de muitos livros e centenas
de artigos, um filósofo, um debatedor formidável, um ator, um atleta
com uma paixão por esquiar, nadar e escalar montanhas, um professor de
ética social e um lingüista fluente em sete idiomas e hábil em uma
dúzia. Mas na época de sua escolha como 264º bispo de Roma, João Paulo
era quase desconhecido fora da hierarquia da Igreja e na sua nativa
Polônia, onde foi padre desde 1946, arcebispo de Cracóvia desde 1964 e
um cardeal desde 1967.
Nunca houve um papa eslavo até então. O
último pontificado de um não italiano -o de Adriano 6º, um holandês de
Utrecht- terminou 455 anos antes, na era da rebelião de Lutero na
Alemanha. Foram 45 italianos no trono de São Pedro desde então.
Após
a morte do papa Paulo 6º em 6 de agosto de 1978, a maioria no Colégio
dos Cardeais concordou que seu sucessor deveria ser um italiano, mas
não ligado à Cúria, a administração central da Igreja. Em 26 de agosto,
o colégio elegeu o cardeal Albino Luciani, patriarca de Veneza, que
assumiu o nome de João Paulo 1º, combinando os de seus predecessores
imediatos, João 23 e Paulo 6º, uma expressão da continuidade que ele
pretendia preservar.
Mas João Paulo 1º morreu um mês depois, em
28 de setembro, e os cardeais retornaram para um novo conclave que teve
início em 14 de outubro. As previsões eram a de que o sucessor seria
novamente um italiano. Mas um racha se desenvolveu entre os cardeais
italianos, o maior grupo nacional no colégio.
O cardeal Karol
Wojtyla da Polônia era um candidato atraente, teologicamente ortodoxo,
mas um homem de dinamismo pessoal e habilidade política comprovada, que
poderia ter apelo junto à Europa Oriental e aos povos dos países
comunistas e do Terceiro Mundo, um que poderia ser um porta-voz da paz,
desarmamento e justiça no mundo.
Ele era um forte oponente dos
comunistas na Polônia e estava despontando como uma voz ousada dentro
da Igreja. Ele também era fisicamente vigoroso e tinha apenas 58 anos -
10 anos mais jovem do que a maioria dos papas eleitos no século 20 - e
podia-se esperar que teria um longo pontificado.
Sua eleição, na
oitava votação, foi recebida por um assombro quase universal do lado de
fora da Capela Sistina. Mas entre os 31 milhões de católicos da
Polônia, 92% da população, e entre milhões de americanos de
descendência polonesa, foi uma ocasião de orgulho e celebração que
prosseguiu por dias.
Uma marca pessoal
O novo papa
trabalhou rapidamente para imprimir sua marca em seu papado. Havia
indícios de seu caráter em seus primeiros pronunciamentos. Ao se
dirigir às multidões na noite de sua escolha, ele invocou duas vezes o
nome da Virgem Maria e jurou total confiança nela, um sinal do
conservadorismo doutrinário que seria a marca de seu pontificado.
Ele
abandonou o pronome papal "nós" em prol de "eu" e descartou a pompa da
investidura tradicional da tripla coroação por uma missa de posse ao ar
livre, na Praça de São Pedro, que foi atendida por 100 mil fiéis e
vista pela televisão ao redor do mundo.
Nas audiências de
quarta-feira, às vezes realizadas na Praça de São Pedro, onde ele
circulava no veículo que passou a ser conhecido como papamóvel, ele
freqüentemente buscava contato com os visitantes. Ele participou
ativamente dos problemas pastorais e sociais de Roma, saindo aos
domingos para visitar os pobres, ou convidando padres das paróquias
para jantar no Vaticano. Suas saídas freqüentemente provocavam enormes
congestionamentos.
O novo papa era um atleta e uma pessoa que
saía com constância por toda sua vida, um jogador de futebol,
mochileiro, campista, remador e corredor de longa distância, e exibia
isto. Ele tinha um corpo robusto e vigoroso, com um pescoço largo e
forte, ombros levemente caídos que indicavam sua juventude como
trabalhador braçal e de fábrica. Ele se movia com passo confiante, um
homem gracioso para seu tamanho.
Ele tinha 1,77 metro de altura
e pesava 79 quilos. Seus cabelos grisalhos, antes loiros, apresentavam
um corte curto, e seus olhos eram escuros e profundamente expressivos,
às vezes bem abertos e cheios de jovialidade, às vezes semicerrados e
concentrados. Suas mãos eram fascinantes: grandes, marcadas, mãos de
trabalhador que balançavam no ar em gestos de brandura, ou unidas,
prestes a orar.
A sagacidade, a personalidade exuberante, o carisma amigável pareciam extraordinários em um papa.
Viagens e um quase assassinato
Ele
viajou amplamente como cardeal, visitando os Estados Unidos em 1969 e
1976, Austrália e Polinésia em 1973, e a maioria dos países da Europa,
e decidiu desde cedo continuar suas visitas como papa. Seu domínio das
línguas -incluindo polonês, latim, italiano, francês, alemão, espanhol
e inglês- foi um trunfo enorme, permitindo que falasse diretamente às
pessoas em quase toda parte.
Havia intensa atenção da mídia onde
quer que fosse, e transmissão por satélite e câmeras portáteis de TV
lhe davam uma audiência de milhões ao redor do mundo. Mas sua principal
vantagem não foi lingüística ou técnica. Foi, como ele deixou claro,
seu desejo de ver uma extensa congregação.
Em janeiro de 1979,
sua primeira viagem para fora da Itália como papa foi à República
Dominicana e México, onde milhões o ouviram expressar sua preocupação
com os oprimidos.
Ele rejeitou as noções de Cristo como uma
figura política ou revolucionária, chamou a missão da Igreja de
religiosa e não social ou política, e acrescentou: "A Igreja deseja se
manter isenta em relação aos sistemas concorrentes".
Sua
primeira viagem à Polônia, em junho de 1979, provou ser uma de suas
mais importantes. A visita triunfal de nove dias expôs as fraquezas do
governo comunista polonês, que por muito tempo buscou extinguir o
catolicismo.
A vida de João Paulo como um papa-professor
robusto, viajante, pareceu ter sido alterada em 13 de maio de 1981,
quando um turco de 23 anos, Mehmet Ali Agca, atirou nele enquanto ele
circulava em um carro aberto perante 10 mil pessoas na Praça de São
Pedro. Transeuntes renderam o atirador enquanto o carro do papa partia
às pressas. Baleado no abdômem, braço direito e mão esquerda, ele
passou por cinco horas de cirurgia, e parte de seu intestino foi
removida.
A investigação do passado de Agca revelou que ele era
um assassino que escapou de uma prisão turca em 1979, e que tinha
ligações com um grupo neonazista, os Lobos Cinzentos. Mas nenhuma
evidência de conspiração para matar o papa foi encontrada. Agca foi
julgado pelas autoridades italianas e sentenciado à prisão perpétua.
O
agressor disse posteriormente que o atentado foi uma trama soviética
envolvendo agentes búlgaros e turcos, e os investigadores encobriram os
detalhes que pareciam apoiar parte de suas afirmações. Mas um tribunal
italiano considerou em 1986 as evidências ambíguas e absolveu os três
búlgaros e três turcos da acusação de conspiração.
A ligação
entre o ataque e o governo búlgaro foi freqüentemente afirmada, mas
nunca provada. O papa perdoou publicamente Agca, e em 1999 o Vaticano
endossou a clemência. Em 2000, Agca, perdoado pelo governo italiano,
foi extraditado para a Turquia e passou a servir uma pena de 10 anos
pelo assassinato de um editor de jornal, em 1979.
Em 13 de maio
de 2000, exatamente 19 anos depois do atentado, o Vaticano revelou que
a tentativa de assassinato do papa era o chamado terceiro segredo de
Fátima, a última das três profecias reveladas a três crianças por uma
aparição da Virgem em 13 de maio de 1917, em Fátima, Portugal.
O
papa se recuperou da tentativa de assassinato, e nos anos que se
seguiram seu antigo vigor retornou, sua saúde era notavelmente boa e
não foi afetado por nada pior do que uma gripe até julho de 1992,
quando foi hospitalizado por um problema no estômago. O problema
revelou ser sério. Os médicos removeram um grande tumor de seu cólon e
removeram sua vesícula biliar. O tumor estava em estágios iniciais de
malignidade, mas nenhuma quimioterapia ou tratamento foram considerados
necessário e o papa retomou suas viagens três meses depois.
Fisicamente em declínio, mentalmente ativo
Mas
por várias vezes durante os anos 90 ele se machucou seriamente em
quedas. Em 1999, ele se tornou frágil e apresentava dificuldade para
andar, mesmo com uma bengala. Havia outros sintomas: um tremor em sua
mão esquerda e dificuldade na fala, o que prejudicava o entendimento de
suas palavras. De maneira privada, as autoridades disseram que ele
tinha mal de Parkinson e artrite debilitante; o Vaticano não confirmou
o diagnóstico, mas não havia dúvida sobre isto.
Em 2002, os
sintomas pioraram acentuadamente: ele não conseguia caminhar sem ajuda,
suas mãos balançavam tanto que ele não conseguia segurar seus discursos
e falava com tamanha dificuldade que era quase impossível de ser
entendido. Falou-se não apenas em reduzir suas viagens, mas também em
uma possível renúncia. O Vaticano insistiu que o papa estava
mentalmente alerta e que prosseguiria.
Nas questões éticas, João
Paulo alertou para os riscos representados pelos transplantes de
órgãos, experiências genéticas, inseminação artificial, controles de
natalidade e fertilidade e novas drogas. Em outro assunto, ele
reconheceu - 350 anos após o fato - que a Igreja errou em perseguir
Galileu por ter dito que a Terra girava em torno do Sol, e não o
contrário.
Em 1996, o papa também reconheceu que o corpo humano
pode não ter sido uma criação imediata de Deus, mas o produto da
evolução, que ele chamou de "mais do que apenas uma hipótese". A Igreja
nunca condenou Darwin, mas alertou que suas idéias favoreciam a posição
dos materialistas e ateístas.
Ele internacionalizou o Sacro
Colégio dos Cardeais, que por séculos apresentou um número
desproporcional de italianos, ao nomear muitos novos cardeais do
Terceiro Mundo.
O papa tinha um bom relacionamento com o governo
Reagan, que reatou relações diplomáticas com a Santa Sé em 1984. Mas
ele rebateu a alegação de que apoiava suas políticas para a América
Central, incluindo a ajuda aos Contras que enfrentavam o governo
Sandinista de esquerda na Nicarágua. O papa defendia que os países
centro-americanos deviam resolver seus próprios problemas.
Sua
relação com os dois governos Bush e governo Clinton foi cordial, mas
foi estremecida devido à oposição do papa à Guerra do Golfo Pérsico em
1991, ao apoio de Clinton aos direitos de aborto e à invasão liderada
pelos Estados Unidos ao Iraque em 2003.
Com o colapso do
comunismo soviético, a longa cruzada de João Paulo contra seus tiranos
políticos e econômicos pareceu encerrada. Mas ele ainda estava
incomodado com o que via como sendo sucessores inaceitáveis -um
capitalismo ocidental desenfreado e o retorno sorrateiro do comunismo
na Europa Oriental.
Promessa antes do papado
Karol
Josef Wojtyla nasceu em 18 de maio de 1920, em Wadowice, a 48
quilômetros a sudoeste de Cracóvia, o segundo de dois filhos em uma
família católica. Ele foi um bom aluno nas escolas primária e
secundária, com talento para línguas e um interesse em poesia,
dramaturgia e literatura. Ele demonstrou excelência em atletismo. Mas a
família Wojtyla não estava em boas condições.
Após o colegial,
Karol se matriculou na Universidade Jagielloniana, em Cracóvia. Mas em
1939, os invasores nazistas fecharam a universidade. Ele então arrumou
um emprego em uma pedreira e posteriormente trabalhou na indústria
química Solvay, onde ajudou a organizar a lanchonete da fábrica.
Houve
rumores, logo após ter se tornado papa, de que ele tinha se casado
durante a época em que trabalhou na Solvay. Mas os relatos nunca foram
substanciados, e as autoridades polonesas e do Vaticano os negaram.
Fora
do trabalho, ele se reunia com outros jovens intelectuais e co-fundou
um grupo de teatro underground, o Teatro Rapsódico. Suas produções eram
encenadas nos lares, com Wojtyla interpretando os papéis principais
perante pequenas platéias de estudantes e artistas. Alguns de seus
antigos amigos disseram que representar era seu maior amor e que
ficaram surpresos ao vê-lo se voltar para o sacerdócio.
Surgiram
relatos de que Wojtyla tinha sido membro da resistência polonesa na
Segunda Guerra Mundial, mas não há prova de que o futuro papa travou
combate depois de deixar o emprego na fábrica em 1942. O que se sabe é
que estudou para o sacerdócio clandestinamente.
Ele foi ordenado
padre em 1º de novembro de 1946 e enviado para estudar em Roma. Em dois
anos ele obteve um doutorado em filosofia, escrevendo sua tese sobre os
"A Doutrina da Fé em São João da Cruz". Em 1953, de volta à Cracóvia,
ele obteve um segundo doutorado, este de teologia moral, e habilitação
como professor. Ele primeiro lecionou ética social no Seminário
Espiritual de Cracóvia; um ano depois ele obteve a cadeira de ética
social na Universidade Católica em Lublin, no leste da Polônia. Foi o
posto que manteve até se tornar papa.
Sua reputação como
intelectual da Igreja cresceu rapidamente, e em 1958 ele foi consagrado
bispo auxiliar de Cracóvia. Aos 38 anos, ele era o membro mais jovem da
hierarquia da Igreja na Polônia. Em 1964, o papa Paulo 6º o nomeou
arcebispo de Cracóvia e em 1967 o elevou ao Colégio dos Cardeais.
Naquela época, o regime comunista polonês o considerava moderado e
flexível, diferente do cardeal Stefan Wyszynski, o patriarca de
Varsóvia de longa data, um anticomunista linha-dura.
Nos anos
que se seguiram tal percepção mudou. Apesar de Wyszynski ter
permanecido visceralmente antimarxista, ele começou a cooperar com o
governo em programas sociais e econômicos não ideológicos vantajosos
para a Igreja e para o povo polonês. Enquanto isso, Wojtyla se tornou
um duro oponente eloqüente do regime, exigindo maiores liberdades no
ensino, na mídia de massa e direitos humanos, além de pregar
alternativas cristãs ao marxismo.
A produção literária de João
Paulo foi prodigiosa. Além de suas encíclicas papais, ele foi autor de
pelo menos seis livros -algumas bibliografias, contando seus
comentários publicados, listam até 10- e mais de 300 artigos e ensaios,
a maioria deles para revistas eruditas.
No estúdio de sua
residência arquidiocesana na rua Franciszkanska, em Cracóvia, um
visitante em 1978 encontrou 1.500 livros nas prateleiras, incluindo
obras de filósofos antigos e modernos, líderes da Igreja em grego e
latim, teólogos vanguardistas do século 20, assim como volumes sobre
muitos assuntos em várias línguas. Um dos poucos romances era "As
Sandálias do Pescador", a história de 1963 de Morris West de um papa da
União Soviética.
Os livros de João Paulo incluem "Amor e
Responsabilidade", originalmente aulas sobre sexo, casamento e controle
da natalidade, que foi publicado em 1962; "Pessoa e Ato", um tratado
fenomenológico de 1969; "Fonte de Renovação", uma obra de 1957 sobre
assuntos filosóficos e morais; "Sinal de Contradição", um testamento
espiritual de 1979 e "O Futuro da Igreja", um estudo das diretrizes do
Vaticano 2º, que foi publicado em inglês em 1979.
Seu último
livro, uma coleção de ensaios, "Cruzando o Limiar da Esperança", foi
publicado em outubro de 1994 em 21 línguas em 35 países.
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