 Publicamos a íntegra do "testamento espiritual" de João Paulo II. Chamamos de "testamente espiritual" este conjunto de reflexões íntimas do papa, escritas ao longo de seus 26 anos de pontificado, já que o papa não deixou um testamento formal. Algumas partes sugerem rápidas anotações, algumas inacabadas, nada próximo de um diário, mas revelam a simplicidade de João Paulo II no seu contínuo encontro com Deus a partir das situações e crises que vivenciou como sucessor de Pedro. Um documento único e histórico, que merece a sua leitura.
"O testamento de 6 de março de 1979 (e acréscimos sucessivos)"
"Totus Tuus ego sum
Em nome da Santíssima Trindade. Amém.
'Velai,
porque não sabeis qual dia vosso Senhor virá' (cf. Mt 24, 42) - essas
palavras me lembram o último apelo que será feito quando o Senhor
quiser. Desejo segui-Lo e desejo que tudo o que faz parte de minha vida
sobre a terra me prepare para este momento. Não sei quando isto
acontecerá, mas coloco este momento, como todo o resto, nas mãos da Mãe
de meu Mestre: Totus Tuus. Deixo entre as mesmas mãos maternais tudo e
todos aos quais minha vida e minha vocação estão ligados. Deixo
principalmente a Igreja em essas mãos, assim como minha Nação e a
humanidade inteira. Agradeço a todo o mundo. Peço perdão a todos. Peço
também a prece para que a Misericórdia de Deus se mostre maior que
minha fraqueza e minha indignidade.
Durante esses exercícios
espirituais, reli o testamento do Santo Padre Paulo VI. Esta leitura
levou-me a escrever o presente testamento.
Não deixo nenhuma
propriedade da qual deveria dispor. Quanto aos objetos que me serviam
diariamente, peço que sejam distribuídos da maneira que parecer mais
oportuna. As notas pessoais deverão ser queimadas. Peço que dom
Stanislaw (NDR, dom Stanislaw Dziwisz, secretário particular de Karol
Wojtyla) zele por isso e eu o agradeço por sua colaboração e sua ajuda
prolongada e compreensiva. Todos os outros agradecimentos estão no
coração, diante de Deus Ele Mesmo, porque é difícil exprimi-los.
No
que diz respeito aos funeirais, repito as disposições dadas pelo Santo
Padre Paulo VI. (NDR, os serviços do Vaticano precisam que, nesta parte
do texto, João Paulo II fez, em 13 de março 1992 uma observação à
margem, precisando: "a sepultura na terra, não num sarcófago")
'apud Dominum misericordia et copiosa apud Eum redemptio'
Roma, 6 de março de 1979
João Pauloean II" "Após a morte, peço Santas Missas e preces. 5 de março de 1990"
Folha sem data (NDR, observação do Vaticano)
"Exprimo
a mais profunda confiança que, apesar de toda minha fraqueza, o Senhor
me concederá toda a graça necessária para enfrentar segundo Sua Vontade
toda a tarefa, prova e sofrimento que Ele quiser pedir a Seu servidor
durante a vida. Tenho também confiança que não permitirá jamais trair
minhas obrigações nesta Santa Sé de Pedro por minhas atitudes:
palavras, atos ou omissões".
"24 de fevereiro-1º março de 1980
Durante
esses exercícios espirituais, também refleti sobre a verdade do
Sacerdócio de Cristo na perspectiva desta passagem que, para cada um de
nós, é o momento de sua própria morte. Da partida deste mundo - para
nascer para o outro, o mundo futuro, do qual a ressurreição de Cristo é
um sinal eloqüente. (NDR, o Vaticano precisa que abaixo dessa última
palavra, João Paulo II a em seguida acrescentou: "decisivo") Li a
transcrição de meu testamento do ano passado, feito ele também durante
os exercícios espirituais, eu o comparei ao testamento de meu grande
Predecessor e pai, Paulo VI, com este sublime testemunho sobre a morte
de um cristão e de um papa - e renovei em mim a consciência das
questões às quais se referem a transcrição de 6 de março de 1979 que
preparei (de forma provisória).
Hoje, desejo acrescentar apenas
iso, que cada um deve manter presente a perspectiva da morte. E estar
preparado para se apresentar diante do Senhor e Juiz - e ao mesmo tempo
Redentor e Pai. Então, levo isso continuamente em consideração,
confiando neste momento decisivo à Mãe de Cristo e da Igreja, à Mãe de
minha esperança.
Os tempos nos quais vivemos são
indubitavelmente difíceis e turbulentos. O caminho da Igreja torna-se,
também ele, difícil e tenso, característica esses tempos, tanto para os
fiéis como para os pastores. Em alguns países (como por exemplo aquele
sobre o qual li durante os exercícios espirituais) a Igreja atravessa
um período de perseguição em nada inferior à dos primeiros séculos, ela
os supera mesmo em grau de desumanidade e de ódio. 'Sanguis martyrum
semen christianorum'. E no mais, tantas pessoas desapareceram enquanto
inocentes. mesmo neste país no qual vivemos.
Desejo ainda uma
vez mais colocar-me totalmente sob as graças do Senhor. Ele Próprio
decidirá quando e como devo acabar minha vida terrestre e meu
ministério pastoral. Na vida e na morte 'Totus Tuus' através da
Imaculada. Aceitando desde já esta morte, espero que o Cristo me dará a
graça para a última passagem, isto é, à (minha) Páscoa. Espero também
que tornará útil a esta outra causa mais importante, à qual procuro
servir: a salvação dos homens, a salvaguarda da família humana e, nela,
todas as nações e povos (entre os quais eu me dirijo em particular à
minha Pátria na terra), útil para as pessoas que me confiou de maneira
particular, para as questões da Igreja e para a glória de Deus mesmo.
Não
desejo acrescentar o que quer que seja ao que já escrevi há um ano -
exprimir apenas esta disponibilidade e, então, paralelamente, esta
confiança, à qual os exercícios espirituais presentes me levaram
novamente.
João Paulo II"
"'Totus Tuus ego sum' 5 março de 1982
Durante
os exercícios espirituais deste ano, li (várias vezes) o texto do
testamento de 6 de março de 1979. Apesar de agora eu ainda considerá-lo
provisório, vou deixá-lo assim. Não vou mudar nada (por enquanto) e não
vou acrescentar nada também no que se refere às disposições que ele
contém.
O atentado contra minha vida em 13 de maio de 1981
confirmou, de certo modo, a exatidão das palavras escritas no período
dos exercícios espirituais de 1980 (de 24 de fevereiro a 1º de março).
Sinto
muito profundamente que estou totalmente nas mãos de Deus - e continuo
constantemente à disposição do meu Senhor e me confio a Ele através de
sua Mãe Imaculada (Totus Tuus) João Paulo II
"5 de março de 1982
Sobre
a última frase de meu testamento de 6 de março de 1979 ("No local, quer
dizer dos funerais, decidido pelo Colégio Cardinalício e os
compatriotas") esclareço o que tenho no espírito: a Cracóvia ou o
Conselho Geral do Episcopado da Polônia. Eu peço então ao Colégio dos
cardeais que satisfaça na medida do possível os eventuais pedidos
mencionados acima.
1º de março de 1985 (durante exercícios espirituais)
Ainda
- no que se refere à expressão "Colégio dos cardeais e os
compatriotas": o colégio cardinalício não tem nenhuma obrigação de
interrogar sobre esta questão "os compatriotas"; Ele poderá no entanto
fazê-lo se, por qualquer razão que seja, possa justificar.
"Os exercícios espirituais do ano do Jubileu 2000 (12 a 18 de março)
1.
Quando no dia 16 de outubro de 1978, o conclave dos cardeais me
escolheu como Papa, João Paulo II, o Primaz da Polônia, o cardeal
polonês Stefan Wyszynski me disse: 'o dever do novo papa é introduzir a
Igreja no Terceiro Milênio'. Eu não sei se estou repetindo a frase com
fidelidade mas foi pelo menos esse o sentido que entendi naquela hora.
Foi o homem que entrou para a história como o Prelado do Milênio que
pronunciou estas palavras. Um grande prelado. Fui testemunha de sua
missão, de sua confiança total. De suas lutas: de sua vitória. 'A
vitória, quando ela acontecer, será uma vitória devida à Maria' - o
prelado do Milênio tinha o costume de repetir estas palavras de seu
antecessor, o cardeal August Hlond.
Desta forma eu fui de,
alguma maneira, preparado para a tarefa que me foi apresentada em 16 de
outubro de 1978. No momento em que escrevi estas palavras, o Ano do
Jubileu 2000 já é uma realidade em curso. A porta simbólica do Grande
Jubileu da Basílica de São Pedro foi aberta na noite de 24 de dezembro
de 1999, depois a de São João de Latrão, depois a de Santa Maria Maior,
para o Ano Novo; e em 19 de janeiro a porta da Basílica de São Paulo
Extra-Muros. Este último evento, por seu caráter ecumênico, marcou a
memória de maneira particular.
2. "À medida que o Ano do Jubileu
2000 avança, dia a dia o século XX fica para trás e o século XXI se
abre. Como quis a Providência, vivi neste século difícil que desaparece
no passado, e agora, quando me aproximo dos 80 anos ("octogesima
adveniens"), tenho de me perguntar se não chegou a hora de repetir com
o Simeão bíblico 'Nunc dimittis'.
"No dia 13 de maio de 1981 (o
atentado contra o Papa cometido durante a audiência geral na praça São
Pedro), a Divina Providência me salvou milagrosamente da morte. O que é
o único Senhor da vida e da morte prolongou minha vida e, de alguma
forma, me fez nascer de novo. A partir deste momento, minha vida Lhe
pertence ainda mais. Espero que Ele me ajudará a perceber até quando
devo continuar a missão que Ele me atribuiu no dia 16 de outubro de
1978. Peço a Ele que me chame de volta quando achar melhor. 'Na vida e
na morte, pertencemos ao Senhor...somos parte do Senhor' (cf. Rm 14,
8). Também espero que, enquanto tiver que cumprir o serviço de Pedro na
Igreja, a Misericórdia de Deus me dará as forças necessárias.
3.
Como a cada ano durante os exercícios espirituais, li meu testamento do
dia 6 de março de 1979. Mantenho as disposições que nele estão
contidas. O que foi acrescentado, na época e também durante os
exercícios espirituais sucessivos, retrata a difícil e tensa situação
geral que marcou os anos 80. A partir de 1989, esta situação mudou. A
última década do século passado foi isenta das tensões anteriores, o
que não significa que ela não trouxe novos problemas e dificuldades.
Quero louvar particularmente a Divina Providência por este motivo, que
o período chamado 'guerra fria' tenha sido encerrado sem o violento
conflito nuclear que pesava sobre o mundo durante o precedente período.
4.
Estando perto do início do terceiro milênio 'in medio Ecclesiae',
desejo mais uma vez expressar minha gratidão ao Espírito Santo pelo
grande dom do Concílio Vaticano II. Estou convencido de que as novas
gerações poderão por muito tempo ainda aproveitar as riquezas que este
Concílio do século XX nos deu. Como bispo tendo participado do Concílio
do primeiro ao último dia, desejo confiar este grande patrimônio a
todos os que devem, e os que deverão, concretizá-lo no futuro. Quanto a
mim, agradeço o eterno Pastor por ter me permitido servir esta
grandíssima causa durante todos os anos de meu pontificado.
'In
medio Ecclesiae'... logo nos primeiros anos de serviços episcopais - e
justamente graças ao Concílio - pude experimentar a comunhão fraterna
do episcopado. Como bispo do arquidiocese de Cracóvia, havia
experimentado a comunhão fraterna do presbitério - o Concílio deu uma
nova dimensão a esta experiência.
5. Quantas pessoas deveria
mencionar aqui! O Senhor provavelmente já chamou de volta para ele a
maioria dentre elas. Para as que ainda se encontram entre nós, as
palavras deste testamento são dirigidas a elas, para todas e em todos
os lugares, onde quer que estejam.
Há mais de vinte anos que
exerço o serviço de Pedro 'in medio Ecclesiae', e pude contar com a
colaboração bondosa e fecunda de tantos cardeais, arcebispos e bispos,
tantos padres, tantas pessoas consagradas, Irmãos e Irmãs, e também
tantas pessoas leigas, no ambiente da Cúria, no Vicariato da diocese de
Roma e em outros lugares.
Como não abraçar com uma memória cheia
de gratidão todos os Episcopados do mundo que encontrei durante as
visitas 'ad limina Apostolorum'! Como não recordar tantos Irmãos
cristãos - não católicos! E o rabino de Roma e tantos representantes
das religiões não-cristãs! E quantos representantes do mundo da
cultura, da ciência, da política, dos meios de comunicação social!
6.
À medida que o limite de minha vida na terra se aproxima, meu espírito
volta ao início, a meus pais, ao irmão e à irmã (que eu não conheci
porque ela morreu antes de nascer), à paróquia de Wadowice, onde fui
batizado, a esta cidade de meu amor, a meus contemporâneos, colegas do
primário, do colégio, da universidade até o tempo da ocupação quando eu
trabalhava como operário e, depois, à paróquia de Niegowice, a de
Saint-Florian na Cracóvia, à pastoral universitária, ao lugar.... a
vários lugares ... na Cracóvia e em Roma ... às pessoas que de modo
especial me foram confiadas pelo Senhor.
A todos eu digo uma única coisa: 'Deus vos recompense'
'In manus Tuas, Domine, commendo spiritum meum'
A.D. |