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Eu gostava desse Papa PDF Imprimir E-mail
Escrito por Ana Cecília de Campos Sampaio   
25-Abr-2005
Gilberto de Mello Kujawski
 
Uma personalidade que arrasta multidões do mundo inteiro, um personagem como João Paulo II, que por ocasião de sua morte mobilizou milhões de fiéis em transe rumo ao Vaticano, não pode ser visto desde logo pela ótica sofisticada de intelectuais e teólogos, escritores, jornalistas e ideólogos. Que é que viam no papa as multidões que foram dele se despedir na Basílica de São Pedro, especialmente os jovens e as crianças aos quais ele dedicava o melhor de sua atenção? Seria o defensor férreo do dogma católico, o homem de convicções intransigentes, o intelectual enciclopédico, talvez o apóstolo da união dos povos e das confissões, ou o campeão da fé estreitamente unida à razão? Nada disso. Talvez uma minoria o visse assim. Mas para a grande maioria espremida naquela praça e presa ao vídeo, o fator que a magnetizava na figura branca do pontífice era a expressão jovial de vitalidade que emanava de sua pessoa. O papa falecido aparece aos olhos do espectador qualquer – aquele que mora em cada um de nós – como uma torrente irresistível de vitalidade que se espraiou pelo mundo inteiro. Sim, o tesouro da vitalidade, era isso que resplandecia em seu rosto e em toda sua pessoa. Vitalidade física (o atleta, nadador e esquiador), vitalidade intelectual (14 encíclicas dedicadas a todos problemas da sociedade contemporânea), vitalidade social (à vontade no meio do povo, em especial com a juventude e a infância), vitalidade comunicativa (presença constante na mídia, gosto pelo canto e pela performance teatral), vitalidade apostolar incansável e generosa.
 
 
Correndo o risco de heresia, eu diria que na presença irradiante e generosa do saudoso João Paulo II brilhava uma centelha dionisíaca. Como a divindade grega Diônisos, ele queria dançar (se pudesse), ele cantava, e se embriagava publicamente do amor a Deus e ao semelhante. Os que discutem tolamente sobre as posições ideológicas do papa perdem de vista o principal: aquele homem não era e não queria ser uma tese escolástica ambulante, a encarnação de uma doutrina já constituída, e sim um jogral de Deus, que extraía de sua abissal e contagiosa alegria de viver o enredo de uma religião que fosse a celebração da vida em toda plenitude e em seu âmbito total. Não obstante a brutalidade do atentado que fragilizou para sempre sua robusta constituição física, sem embargo da lenta decadência física e das catástrofes e desgraças que ecoavam pelo Vaticano, às quais o chefe da Igreja emprestava pronta solidariedade, mais do que qualquer outro anterior, seu pontificado foi uma festa. Festa de passagem do individualismo egoísta para a solidariedade, e da dimensão temporal para a ordem eterna. Festa messiânica, renovando cotidianamente a esperança no cumprimento das promessas divinas.
 
 
Com João Paulo II a religião troca a face sombria pela fisionomia jubilosa de quem está de bem com a vida, dom divino que nos une para sempre ao Criador. A verdade da religião não está na renúncia nem na pobreza, mas na arte de ser feliz não pelo que se "tem", mas pelo que se "é" na dimensão total do humano. A religião – foi essa a principal lição desse pontífice eslavo, de cabeça tão bem torneada por fora e por dentro – constitui a celebração festiva da vida na plenitude do seu sentido, que envolve a esperança da vida eterna.
 
 
Etimologicamente, "encíclica" significa circular. É o nome que se dá ao documento pontifício que "circula" para conhecimento dos bispos e dos fiéis do mundo inteiro. Só que por trás do significado etimológico, uma encíclica guarda outro significado mais profundo, o pensamento circular envolvendo o objeto por todos os ângulos, e não só neste ou naquele aspecto isolado.
 
 
Vitalidade é a pulsão da vida, e quanto mais ligado à vida estiver alguém, maior será seu nível de vitalidade. A propósito, João Paulo II dedica ao valor e à inviolabilidade da vida humana uma de suas mais importantes encíclicas, "Evangelium Vitae", o Evangelho da Vida. O papa recorda as ameaças atuais à vida humana, a luta dramática de nossos dias entre a "cultura da vida" e a "cultura da morte". Após tecer várias considerações sobre o nexo entre a vida, o amor e a dignidade humana, recorda o sacrifício de Cristo na cruz, concluindo: "Deste modo, Cristo proclama que a vida atinge o seu centro, sentido e plenitude quando é doada." E confirmando sua devoção mariana, lembra que "o consentimento de Maria, na Anunciação, e a sua maternidade situam-se na própria fonte do mistério daquela vida, que Cristo veio dar aos homens". A maternidade da Igreja está associada e deriva da maternidade de Maria.
 
 
No terreno pantanoso da História contemporânea, minada pelo ceticismo, pelo relativismo moral, pela perda de sentido da vida, o espírito de Karol Wojtyla, iluminado pela alegria de viver e de servir a Deus e ao próximo, arde e arderá por muito tempo como o farol para guiar e impedir o naufrágio final de nossa desorientada e atormentada humanidade.
 
 
Em tempo: Leonardo Boff, em artigo recente, sai-se com essa pérola: "Em João Paulo II prevalecia a missão religiosa da Igreja e não sua missão social". Mas como poderia ser diferente, meu caro Prof. Leonardo? Do social se encarregam os leigos, mas quem se encarrega da religião a não ser a Igreja? João Paulo II cuida do social em profundidade em várias encíclicas ("Laborens Exercens", "Sollicitudo Rei Socialis", principalmente). Mas sabe que o social não é tudo. Pelo contrário, subordina-se ao humano, à pessoa humana única e insubstituível, em sua intimidade inviolável, em sua liberdade interior e em sua vocação personalíssima. "O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado" (S.Marcos, 2,27).
 
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