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Gilberto de Mello Kujawski
Uma
personalidade que arrasta multidões do mundo inteiro, um personagem
como João Paulo II, que por ocasião de sua morte mobilizou milhões de
fiéis em transe rumo ao Vaticano, não pode ser visto desde logo pela
ótica sofisticada de intelectuais e teólogos, escritores, jornalistas e
ideólogos. Que é que viam no papa as multidões que foram dele se
despedir na Basílica de São Pedro, especialmente os jovens e as
crianças aos quais ele dedicava o melhor de sua atenção? Seria o
defensor férreo do dogma católico, o homem de convicções
intransigentes, o intelectual enciclopédico, talvez o apóstolo da união
dos povos e das confissões, ou o campeão da fé estreitamente unida à
razão? Nada disso. Talvez uma minoria o visse assim. Mas para a grande
maioria espremida naquela praça e presa ao vídeo, o fator que a
magnetizava na figura branca do pontífice era a expressão jovial de
vitalidade que emanava de sua pessoa. O papa falecido aparece aos olhos
do espectador qualquer – aquele que mora em cada um de nós – como uma
torrente irresistível de vitalidade que se espraiou pelo mundo inteiro.
Sim, o tesouro da vitalidade, era isso que resplandecia em seu rosto e
em toda sua pessoa. Vitalidade física (o atleta, nadador e esquiador),
vitalidade intelectual (14 encíclicas dedicadas a todos problemas da
sociedade contemporânea), vitalidade social (à vontade no meio do povo,
em especial com a juventude e a infância), vitalidade comunicativa
(presença constante na mídia, gosto pelo canto e pela performance
teatral), vitalidade apostolar incansável e generosa.
Correndo
o risco de heresia, eu diria que na presença irradiante e generosa do
saudoso João Paulo II brilhava uma centelha dionisíaca. Como a
divindade grega Diônisos, ele queria dançar (se pudesse), ele cantava,
e se embriagava publicamente do amor a Deus e ao semelhante. Os que
discutem tolamente sobre as posições ideológicas do papa perdem de
vista o principal: aquele homem não era e não queria ser uma tese
escolástica ambulante, a encarnação de uma doutrina já constituída, e
sim um jogral de Deus, que extraía de sua abissal e contagiosa alegria
de viver o enredo de uma religião que fosse a celebração da vida em
toda plenitude e em seu âmbito total. Não obstante a brutalidade do
atentado que fragilizou para sempre sua robusta constituição física,
sem embargo da lenta decadência física e das catástrofes e desgraças
que ecoavam pelo Vaticano, às quais o chefe da Igreja emprestava pronta
solidariedade, mais do que qualquer outro anterior, seu pontificado foi
uma festa. Festa de passagem do individualismo egoísta para a
solidariedade, e da dimensão temporal para a ordem eterna. Festa
messiânica, renovando cotidianamente a esperança no cumprimento das
promessas divinas.
Com
João Paulo II a religião troca a face sombria pela fisionomia jubilosa
de quem está de bem com a vida, dom divino que nos une para sempre ao
Criador. A verdade da religião não está na renúncia nem na pobreza, mas
na arte de ser feliz não pelo que se "tem", mas pelo que se "é" na
dimensão total do humano. A religião – foi essa a principal lição desse
pontífice eslavo, de cabeça tão bem torneada por fora e por dentro –
constitui a celebração festiva da vida na plenitude do seu sentido, que
envolve a esperança da vida eterna.
Etimologicamente,
"encíclica" significa circular. É o nome que se dá ao documento
pontifício que "circula" para conhecimento dos bispos e dos fiéis do
mundo inteiro. Só que por trás do significado etimológico, uma
encíclica guarda outro significado mais profundo, o pensamento circular
envolvendo o objeto por todos os ângulos, e não só neste ou naquele
aspecto isolado.
Vitalidade
é a pulsão da vida, e quanto mais ligado à vida estiver alguém, maior
será seu nível de vitalidade. A propósito, João Paulo II dedica ao
valor e à inviolabilidade da vida humana uma de suas mais importantes
encíclicas, "Evangelium Vitae", o Evangelho da Vida. O papa recorda as
ameaças atuais à vida humana, a luta dramática de nossos dias entre a
"cultura da vida" e a "cultura da morte". Após tecer várias
considerações sobre o nexo entre a vida, o amor e a dignidade humana,
recorda o sacrifício de Cristo na cruz, concluindo: "Deste modo, Cristo
proclama que a vida atinge o seu centro, sentido e plenitude quando é
doada." E confirmando sua devoção mariana, lembra que "o consentimento
de Maria, na Anunciação, e a sua maternidade situam-se na própria fonte
do mistério daquela vida, que Cristo veio dar aos homens". A
maternidade da Igreja está associada e deriva da maternidade de Maria.
No
terreno pantanoso da História contemporânea, minada pelo ceticismo,
pelo relativismo moral, pela perda de sentido da vida, o espírito de
Karol Wojtyla, iluminado pela alegria de viver e de servir a Deus e ao
próximo, arde e arderá por muito tempo como o farol para guiar e
impedir o naufrágio final de nossa desorientada e atormentada
humanidade.
Em
tempo: Leonardo Boff, em artigo recente, sai-se com essa pérola: "Em
João Paulo II prevalecia a missão religiosa da Igreja e não sua missão
social". Mas como poderia ser diferente, meu caro Prof. Leonardo? Do
social se encarregam os leigos, mas quem se encarrega da religião a não
ser a Igreja? João Paulo II cuida do social em profundidade em várias
encíclicas ("Laborens Exercens", "Sollicitudo Rei Socialis",
principalmente). Mas sabe que o social não é tudo. Pelo contrário,
subordina-se ao humano, à pessoa humana única e insubstituível, em sua
intimidade inviolável, em sua liberdade interior e em sua vocação
personalíssima. "O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o
sábado" (S.Marcos, 2,27).
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