Hoje
se fala muito da porcaria que se tornou a música popular brasileira,
com suas letras horrendas e seus refrões monossilábicos. Conheço muita
gente lamentando ter de ligar o rádio e escutar pela milésima vez
aquela música chiclete-de-ouvido boboca, cantada por bambas da
indústria fonográfica que se contentam em fazer dinheiro e não arte. No
entanto, ciente do problema, acho interessante saber porque essas
músicas vão às rádios e porque fazem tanto sucesso nas rodas e nas
festas. Essa é a chave: não há show sem um público que o assista. Se
existem pessoas que gostam, é porque se identificam com a
superficialidade desse som. Ou se identificam com a mentalidade que há
detrás da música que rola. O novo sucesso da praça é a famosa e
dançante Festa no Apê, febre de dez entre dez boates e hit
absoluto nas rádios. Cantada pelo manjado cantor Latino, a música fala
de uma estrondosa festa ocorrida dentro de apartamento, onde rola de
tudo. Tudo mesmo. Todo mundo canta e todo mundo curte. Logo, todo mundo
se identifica.
A preocupação reside na
trinca bundalelê-tesão-orgia, de uma qualidade poética muito
discutível. Tudo bem que numa boate o som se sobrepõe à letra, mas,
como chiclete é sempre chiclete e muita gente espera a onda para entrar
nela e se afogar, é interessante conhecer a intimidade dessa “letra”
para saber que tipo de coisa interessa à juventude atual.
Primeiramente, é importante lembrar que ao cantor Latino estão ligados
outros sucessos de gosto duvidoso e moral despudorada, como bem
exemplificam o Bonde do Tigrão (aquele do pegajoso “cerol na mão”) e a
Kelly Key (sim, a do “Baba Baby”). Aqui, a qualidade musical passa
longe, quase que inexiste, e o hit se basta se a letra tiver três
versos repetitivos nos quais se fale de sexo ou de qualquer outro tipo
de “sacanagem”. Não falo como sociólogo, mas me assusta a maneira como
costumam amarrar os jovens no cabresto da ignorância e da burrice, com
esses melôs que não duram um verão e deixam um rastro de sujeira moral
tremendo.
A garotada curte porque está
na moda e de acordo com o novo jeito de pensar a adolescência, com sua
ausência de regras ou convenções. Por causa disso, amordaçam os
coitados e o circo se arma: milhares e milhares de jovens que estragam
a própria liberdade sob um lixo da pior espécie. A festa no apê pode
acontecer na cama do meu quarto (com camisinha, é claro), em algum
motelzinho barato ou (por que não?) na boate mesmo. É tudo pegação,
não importa a responsabilidade ou a inteligência para diluir o que está
sendo ouvido ou assimilado. Poderiam protestar: mas o que a música tem
a ver com isso? Tem muito, porque é ao mesmo tempo fruto e semente do
vicioso círculo da permissividade oriunda de um errado jeito de encarar
a própria autonomia. Permissividade sim (apesar de acharem que eu falo
como padre de paróquia), porque a liberdade implica no bom uso que eu
faço da possibilidade de escolha entre as várias opções que o mundo me
oferece...
O que é permissividade? É
achar lícito ou tolerável todo e qualquer tipo de atitude ou
comportamento, com a enganação de que não há, aparentemente,
conseqüências ruins para aqueles não-condizentes com a nossa condição
de jovens. Se tem birita até amanhecer ou se a noite é nossa,
não há porque se preocupar com o depois (se é que há a perspectiva do
depois na vida deles). Mentira deslavada! O depois se desenrola no
descartável, no passageiro, no transitório, e essa mentalidade corrói a
sadia idéia que temos das coisas e das pessoas e a maturidade que
devemos (e não “podemos” ou “queremos”) ter com relação àquilo que
praticamos.
A noite (hum) é nossa.
Ah, lá se vem eles com essa idéia de curtição desenfreada e desregulada
que diz respeito à sadia vivência dos valores vitais da juventude. Para
ser jovem hoje, infelizmente, e necessário meter o pé na jaca todo
final de semana. Não há uma matriz clara que permita a ele discernir o
que é apropriado para a sua própria integridade e para a correta
descoberta dos valores. Acredita-se que as experiências, sejam elas
quais forem, levam à consciência e à responsabilidade exata de suas
implicações. Trocando em miúdos, eu descubro a minha sexualidade e a
exuberância afetiva do outro, meu parceiro, no momento em que, curtição
total, a gente se descobre no sexo e no prazer sem limites. Ou, eu
descubro o valor da verdadeira liberdade, tão caro a mim, que sou
jovem, experimentando a loucura do crack misturada a uma dosesinha de
vodka...
Acostumamo-nos, a cada dia,
a perceber as coisas de maneira vazia e superficial. Nunca nos damos
conta de que nos afundamos no exato momento em que buscamos a estreita
consciência da diversão e da alegria de sermos jovens na orgia ou no bundalelê,
sem saber que eles é que nos arrastam a uma verdadeira solidão e uma
horrível escravidão. Escravidão de nós mesmos ao desejo (desenfreado,
porque mal-discernido) que sentimos. Isso explica porque só buscamos o tesão, a sedução e a libido no ar. É porque nos acostumamos a chamar isso de verdadeira liberdade e autêntica sexualidade...
Enquanto
nos apegamos ao chiclete-de-ouvido, e vamos, como bestas amestradas,
repetindo e espalhando essa consciência pervertida da juventude, o
nosso amigo Latino fica famoso, vende milhares de discos e enche os
bolsos de dinheiro...
BRENO GOMES FURTADO ALVES
Formação Jovem | Abril de 2005
Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email