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BUNDALELÊ NO APÊ PDF Imprimir E-mail
Escrito por Breno Alves   
25-Abr-2005

Hoje se fala muito da porcaria que se tornou a música popular brasileira, com suas letras horrendas e seus refrões monossilábicos. Conheço muita gente lamentando ter de ligar o rádio e escutar pela milésima vez aquela música chiclete-de-ouvido boboca, cantada por bambas da indústria fonográfica que se contentam em fazer dinheiro e não arte. No entanto, ciente do problema, acho interessante saber porque essas músicas vão às rádios e porque fazem tanto sucesso nas rodas e nas festas. Essa é a chave: não há show sem um público que o assista. Se existem pessoas que gostam, é porque se identificam com a superficialidade desse som. Ou se identificam com a mentalidade que há detrás da música que rola. O novo sucesso da praça é a famosa e dançante Festa no Apê, febre de dez entre dez boates e hit absoluto nas rádios. Cantada pelo manjado cantor Latino, a música fala de uma estrondosa festa ocorrida dentro de apartamento, onde rola de tudo. Tudo mesmo. Todo mundo canta e todo mundo curte. Logo, todo mundo se identifica.


A preocupação reside na trinca bundalelê-tesão-orgia, de uma qualidade poética muito discutível. Tudo bem que numa boate o som se sobrepõe à letra, mas, como chiclete é sempre chiclete e muita gente espera a onda para entrar nela e se afogar, é interessante conhecer a intimidade dessa “letra” para saber que tipo de coisa interessa à juventude atual. Primeiramente, é importante lembrar que ao cantor Latino estão ligados outros sucessos de gosto duvidoso e moral despudorada, como bem exemplificam o Bonde do Tigrão (aquele do pegajoso “cerol na mão”) e a Kelly Key (sim, a do “Baba Baby”). Aqui, a qualidade musical passa longe, quase que inexiste, e o hit se basta se a letra tiver três versos repetitivos nos quais se fale de sexo ou de qualquer outro tipo de “sacanagem”. Não falo como sociólogo, mas me assusta a maneira como costumam amarrar os jovens no cabresto da ignorância e da burrice, com esses melôs que não duram um verão e deixam um rastro de sujeira moral tremendo.


A garotada curte porque está na moda e de acordo com o novo jeito de pensar a adolescência, com sua ausência de regras ou convenções. Por causa disso, amordaçam os coitados e o circo se arma: milhares e milhares de jovens que estragam a própria liberdade sob um lixo da pior espécie. A festa no apê pode acontecer na cama do meu quarto (com camisinha, é claro), em algum motelzinho barato ou (por que não?) na boate mesmo. É tudo pegação, não importa a responsabilidade ou a inteligência para diluir o que está sendo ouvido ou assimilado. Poderiam protestar: mas o que a música tem a ver com isso? Tem muito, porque é ao mesmo tempo fruto e semente do vicioso círculo da permissividade oriunda de um errado jeito de encarar a própria autonomia. Permissividade sim (apesar de acharem que eu falo como padre de paróquia), porque a liberdade implica no bom uso que eu faço da possibilidade de escolha entre as várias opções que o mundo me oferece...


O que é permissividade? É achar lícito ou tolerável todo e qualquer tipo de atitude ou comportamento, com a enganação de que não há, aparentemente, conseqüências ruins para aqueles não-condizentes com a nossa condição de jovens. Se tem birita até amanhecer ou se a noite é nossa, não há porque se preocupar com o depois (se é que há a perspectiva do depois na vida deles). Mentira deslavada! O depois se desenrola no descartável, no passageiro, no transitório, e essa mentalidade corrói a sadia idéia que temos das coisas e das pessoas e a maturidade que devemos (e não “podemos” ou “queremos”) ter com relação àquilo que praticamos.


A noite (hum) é nossa. Ah, lá se vem eles com essa idéia de curtição desenfreada e desregulada que diz respeito à sadia vivência dos valores vitais da juventude. Para ser jovem hoje, infelizmente, e necessário meter o pé na jaca todo final de semana. Não há uma matriz clara que permita a ele discernir o que é apropriado para a sua própria integridade e para a correta descoberta dos valores. Acredita-se que as experiências, sejam elas quais forem, levam à consciência e à responsabilidade exata de suas implicações. Trocando em miúdos, eu descubro a minha sexualidade e a exuberância afetiva do outro, meu parceiro, no momento em que, curtição total, a gente se descobre no sexo e no prazer sem limites. Ou, eu descubro o valor da verdadeira liberdade, tão caro a mim, que sou jovem, experimentando a loucura do crack misturada a uma dosesinha de vodka...


Acostumamo-nos, a cada dia, a perceber as coisas de maneira vazia e superficial. Nunca nos damos conta de que nos afundamos no exato momento em que buscamos a estreita consciência da diversão e da alegria de sermos jovens na orgia ou no bundalelê, sem saber que eles é que nos arrastam a uma verdadeira solidão e uma horrível escravidão. Escravidão de nós mesmos ao desejo (desenfreado, porque mal-discernido) que sentimos. Isso explica porque só buscamos o tesão, a sedução e a libido no ar. É porque nos acostumamos a chamar isso de verdadeira liberdade e autêntica sexualidade...


Enquanto nos apegamos ao chiclete-de-ouvido, e vamos, como bestas amestradas, repetindo e espalhando essa consciência pervertida da juventude, o nosso amigo Latino fica famoso, vende milhares de discos e enche os bolsos de dinheiro...

 

BRENO GOMES FURTADO ALVES
Formação Jovem | Abril de 2005
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