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Rio, 25 de abril de 2005 Bento XVI, o Papa da continuidade
CARLOS ALBERTO DI FRANCO
A formidável
cobertura da imprensa à eleição do Papa BEnto XVI revela alguns sinais
importantes. O primeiro deles, sem dúvida, é a notável unidade dos
cardeais. A surpreendente rapidez do processo eleitoral foi um
testemunho inequívoco de que João Paulo II, ao longo dos seus quase 27
anos de pontificado, investiu generosamente na construção da unidade da
Igreja. A eleição meteórica do então cardeal Ratzinger foi, no fundo,
um forte chamado à unidade e à continuidade.
O
Papa Bento XVI foi descrito por seu antecessor como "íntimo
colaborador" e "estimado irmão". Durante a celebração das bodas de
prata episcopais do cardeal Ratzinger, em 20 de abril de 2002, João
Paulo II elogiou o serviço prestado por seu fiel colaborador com o seu
"incansável compromisso em benefício da verdade, que conduz os filhos
de Deus para a liberdade autêntica". As palavras do falecido Papa,
afetuosas e agradecidas, definem bem o perfil do novo Papa: um defensor
da verdade que conduz à autêntica liberdade.
Bento
XVI, à semelhança de João Paulo II, é um brilhante intelectual que
aposta na força libertadora da verdade. Na segunda-feira passada,
o então cardeal Joseph Ratzinger, ao celebrar a missa de abertura do
conclave, foi claríssimo a respeito do que espera dos católicos: "Ter
uma fé clara, segundo o credo da Igreja, é freqüentemente catalogado
como fundamentalismo, ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se
levar 'ao sabor de qualquer vento de doutrina', aparece como a única
atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo uma ditadura do
relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como
critério último apenas o próprio 'eu' e as suas vontades. Nós, pelo contrário,
temos um outro critério: o filho de Deus, o verdadeiro homem. É ele a
medida do verdadeiro humanismo. Não é 'adulta' uma fé que segue as
ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é antes uma fé
profundamente enraizada na amizade com Cristo. É esta amizade que se
abre a tudo aquilo que é bom e que nos dá o critério para discernir
entre o que é verdadeiro e o que é falso, entre engano e verdade."
Alguns,
equivocadamente, vislumbram fervores conservadores no pensamento e na
ação do novo Papa. Desejariam, como escrevi recentemente, um Papa
que deixasse de ser cristão para ser mais bem aceito? Pretenderiam que,
perante o deslizamento do mundo para baixo, com a glorificação de
aberrações ideológicas e morais, o Papa exercesse a sua missão
acompanhando a descida, cedendo a tudo e limitando-se a belos discursos
de paz e amor, e a um ecumenismo em que todos os equívocos se pudessem
congraçar, porque ninguém acreditaria mais em coisa alguma, a não ser
em "viver bem"?
Os críticos, poucos, embora inflados por certas orquestras
midiáticas, estão na contramão do sentimento da sociedade. Certa vez,
Hans Küng, ex-teólogo católico e expoente da minoria contestatária ao
papado, foi curiosamente interpelado por um pastor protestante: "Tudo o
que o senhor pede para o catolicismo - abolição do celibato, ordenação
de mulheres etc.", sublinhou o pastor - "nós já temos". "Como é
possível, então, que os nossos templos estejam muito mais vazios do que
as igrejas católicas?" Küng não conseguiu esboçar nenhuma
resposta. A realidade dos fatos desnudou a inconsistência das suas
teorias teológicas. A onda impressionante de devoção popular em que se
transformou o funeral de João Paulo II e a eleição de Bento XVI, um
espetáculo multicolorido e com forte presença jovem que tomou conta do
Vaticano, mostram de que lado o povo está.
O pontificado de Bento XVI será, estou certo, um testemunho
de fé, convicção e coragem. Ao contrário dos que dentro da Igreja
Católica cederam aos apelos da secularização, o novo Papa sempre
acreditou que a firmeza na fé e a fidelidade doutrinal acabarão por
galvanizar a nostalgia de Deus que domina o mundo contemporâneo.
Acredita que o esgotamento do materialismo histórico e a frustração do
consumismo hedonista prenunciam um novo perfil existencial. Na visão do
novo Papa, o Terceiro Milênio trará o resgate do verdadeiro humanismo. CARLOS ALBERTO DI FRANCO é diretor do Master em Jornalismo.
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