07-Jan-2009  
 
Principal
Início
Artigos
Notícias
Cartões
Santo do dia
Links
Liturgia Diária
Busca Google

Na Web Neste site  

Livros On-line
Estudando nos Passos de Maria
Pequeno Catecismo
Livro Oriente
Interativos
Biblia On-line
Faq
Links Católicos
Liturgia Diária
Especiais
A Paixão de Cristo de Mel Gibson
Institucional
Publicidade
Contato
Intranet - Uso interno





Esqueçeu a senha?


   arrow Artigos arrow Igreja Católica       
O nervo oculto de Roma PDF Imprimir E-mail
Escrito por LUIZ PAULO HORTA   
26-Abr-2005

Vai ser difícil esquecer João Paulo II. Substituí-lo, é impossível — e deveríamos ter uma certa pena do alemão da Baviera que agora carrega, em seus 78 anos, esse peso colossal sobre os ombros. Ele registrou esse fardo na primeira homilia que pronunciou já eleito Papa: “É enorme o peso da responsabilidade que se coloca sobre os meus ombros.”

Mas o cristianismo tem um modo especial de lidar com a fraqueza humana, em que vê muitas vezes a oportunidade para que se faça sentir a ação do Divino. E no mesmo fôlego em que se queixou de fraqueza, o novo Papa lembrou a frase do Cristo que é a fundação do papado: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.”

É a certidão de nascimento da instituição mais antiga do Ocidente (ou do mundo inteiro); e nessa durabilidade do papado está um mistério que não se parece com nenhum outro — o que explica um pouco do fascínio de tudo o que andamos presenciando nessas últimas semanas.

Tenho um amigo que gosta de citar a “História dos Papas”, do famoso Von Pastor, como argumento para não levar a sério a Igreja de Roma. É verdade, há ali histórias incríveis .

Mas também se pode inverter o argumento: se o papado sobreviveu a tudo isso, a Papas sem cor, aos Papas italianos da Renascença — príncipes e políticos bem pouco interessados em coisas do espírito — não será porque, ali, há alguma coisa que já não é exclusivamente humana?

A sucessão dos Papas — o que chamamos de “sucessão apostólica” — é muito mais interessante do que qualquer Papa tomado individualmente. Lendo essa história, encontramos longos períodos de mediocridade, como o século XVIII. Há Papas que não foram dignos do cargo. Mas (o que importa) quando falavam em nome da Igreja, falavam como Papas.

Esse talvez seja o nervo oculto do cristianismo, e da Igreja de Roma. Veja bem, há muitos caminhos para se chegar a Deus. Não posso acreditar que um budista sincero, ou um bom muçulmano, tenham qualquer dificuldade especial para atravessar as portas do Paraíso. Na literatura judaica você se defronta, às vezes, com uma profusão de luzes. E nunca me esquecerei da emoção que foi encontrar, entre os chamados protestantes, figuras com a transparência e a luminosidade de um Thomas Kelly .

E, no entanto, existe alguma coisa especial no papado. Há uma história exemplar neste sentido: a do cardeal Newman. Antes de se tornar católico, na Inglaterra de 1840, ele foi o farol do movimento de renovação anglicana que tomou impulso em Oxford. Newman era um gênio religioso, e os sermões que, antes dos 30 anos, ele já pronunciava em Oxford atraíam para aquela pequena igreja a elite do cristianismo anglicano. Ninguém tinha dúvidas de que ali estava alguém que sabia extrair coisas novas e profundas das velhas pipas evangélicas.

Mas, num certo momento, Newman resolveu mergulhar nas origens do cristianismo. Foi ler os padres gregos, foi estudar a história da Igreja; e, não sem um dificílimo processo de transformação anterior, chegou à conclusão de que a “sucessão apostólica” — aquele fiozinho dourado que vem do fundo dos tempos — passava (ou melhor, continuava a passar) pelo Vaticano.

Naquele tempo, numa Inglaterra que dominava o mundo, trocar o anglicanismo pelo “papismo” era fazer papel de traidor da pátria. Newman se dispôs a isso, com uma coragem quase suicida. Abriu mão de todo prestígio mundano, e também era olhado com desconfiança pelos católicos: não estaria ali um “quinta coluna”? Décadas se passaram, até que, quando ele escreveu a “Apologia pro vita sua” (“Uma defesa da minha vida”), finalmente o mundo ficou sabendo quem era o verdadeiro Newman. São histórias assim que estão por trás do que, para alguns, são apenas as pompas vaticanas.

E o que significa, afinal, o papado? Significa a “casa comum” — casa ampla, antiga, com lugar para todos. Mas também significa que a doutrina ali ensinada e preservada não é propriedade de ninguém — muito menos deste ou daquele Papa.

Essa doutrina fica imóvel? Claro que não. Ela não muda nos seus fundamentos; mas para perceber o movimento da teologia, basta ver o que se ensina hoje na Igreja, pelas suas melhores cabeças, a respeito da velha história do Gênesis e do “pecado original”.

A teologia católica evolui; mas ela não é um romance a ser reescrito a cada dez anos de acordo com a fantasia deste ou daquele teólogo. Ela está em contato com as origens; e esse fio de vida passa pela mão dos Papas. Ele é mais importante do que os Papas; e nenhum Papa se permite rompê-lo. Aceitar esse antigo mistério é o que significa ser católico.


LUIZ PAULO HORTA é jornalista.
 

Fonte: O Globo
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >