Vai ser difícil esquecer João Paulo II.
Substituí-lo, é impossível — e deveríamos ter uma certa pena do alemão
da Baviera que agora carrega, em seus 78 anos, esse peso colossal sobre
os ombros. Ele registrou esse fardo na primeira homilia que pronunciou
já eleito Papa: “É enorme o peso da responsabilidade que se coloca
sobre os meus ombros.”
Mas o cristianismo tem um modo especial de lidar com a fraqueza humana,
em que vê muitas vezes a oportunidade para que se faça sentir a ação do
Divino. E no mesmo fôlego em que se queixou de fraqueza, o novo Papa
lembrou a frase do Cristo que é a fundação do papado: “Tu és Pedro, e
sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.”
É a certidão de nascimento da instituição mais antiga do Ocidente (ou
do mundo inteiro); e nessa durabilidade do papado está um mistério que
não se parece com nenhum outro — o que explica um pouco do fascínio de
tudo o que andamos presenciando nessas últimas semanas.
Tenho um amigo que gosta de citar a “História dos Papas”, do famoso Von
Pastor, como argumento para não levar a sério a Igreja de Roma. É
verdade, há ali histórias incríveis .
Mas também se pode inverter o argumento: se o papado sobreviveu a tudo
isso, a Papas sem cor, aos Papas italianos da Renascença — príncipes e
políticos bem pouco interessados em coisas do espírito — não será
porque, ali, há alguma coisa que já não é exclusivamente humana?
A sucessão dos Papas — o que chamamos de “sucessão apostólica” — é
muito mais interessante do que qualquer Papa tomado individualmente.
Lendo essa história, encontramos longos períodos de mediocridade, como
o século XVIII. Há Papas que não foram dignos do cargo. Mas (o que
importa) quando falavam em nome da Igreja, falavam como Papas.
Esse talvez seja o nervo oculto do cristianismo, e da Igreja de Roma.
Veja bem, há muitos caminhos para se chegar a Deus. Não posso acreditar
que um budista sincero, ou um bom muçulmano, tenham qualquer
dificuldade especial para atravessar as portas do Paraíso. Na
literatura judaica você se defronta, às vezes, com uma profusão de
luzes. E nunca me esquecerei da emoção que foi encontrar, entre os
chamados protestantes, figuras com a transparência e a luminosidade de
um Thomas Kelly .
E, no entanto, existe alguma coisa especial no papado. Há uma história
exemplar neste sentido: a do cardeal Newman. Antes de se tornar
católico, na Inglaterra de 1840, ele foi o farol do movimento de
renovação anglicana que tomou impulso em Oxford. Newman era um gênio
religioso, e os sermões que, antes dos 30 anos, ele já pronunciava em
Oxford atraíam para aquela pequena igreja a elite do cristianismo
anglicano. Ninguém tinha dúvidas de que ali estava alguém que sabia
extrair coisas novas e profundas das velhas pipas evangélicas.
Mas, num certo momento, Newman resolveu mergulhar nas origens do
cristianismo. Foi ler os padres gregos, foi estudar a história da
Igreja; e, não sem um dificílimo processo de transformação anterior,
chegou à conclusão de que a “sucessão apostólica” — aquele fiozinho
dourado que vem do fundo dos tempos — passava (ou melhor, continuava a
passar) pelo Vaticano.
Naquele tempo, numa Inglaterra que dominava o mundo, trocar o
anglicanismo pelo “papismo” era fazer papel de traidor da pátria.
Newman se dispôs a isso, com uma coragem quase suicida. Abriu mão de
todo prestígio mundano, e também era olhado com desconfiança pelos
católicos: não estaria ali um “quinta coluna”? Décadas se passaram, até
que, quando ele escreveu a “Apologia pro vita sua” (“Uma defesa da
minha vida”), finalmente o mundo ficou sabendo quem era o verdadeiro
Newman. São histórias assim que estão por trás do que, para alguns, são
apenas as pompas vaticanas.
E o que significa, afinal, o papado? Significa a “casa comum” — casa
ampla, antiga, com lugar para todos. Mas também significa que a
doutrina ali ensinada e preservada não é propriedade de ninguém — muito
menos deste ou daquele Papa.
Essa doutrina fica imóvel? Claro que não. Ela não muda nos seus
fundamentos; mas para perceber o movimento da teologia, basta ver o que
se ensina hoje na Igreja, pelas suas melhores cabeças, a respeito da
velha história do Gênesis e do “pecado original”.
A teologia católica evolui; mas ela não é um romance a ser reescrito a
cada dez anos de acordo com a fantasia deste ou daquele teólogo. Ela
está em contato com as origens; e esse fio de vida passa pela mão dos
Papas. Ele é mais importante do que os Papas; e nenhum Papa se permite
rompê-lo. Aceitar esse antigo mistério é o que significa ser católico.
LUIZ PAULO HORTA é jornalista.
Fonte: O Globo