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ICEBERG PDF Imprimir E-mail
Escrito por marcelo augusto   
17-Mai-2005

Em recente dossiê sobre a crise da Igreja Católica, publicado pelo jornal O ESTADO DE S. PAULO(17.4.05), o jornalista Lourival Sant’Anna compara o catolicismo no Brasil a um iceberg em fase de derretimento. Fundamenta a sua conclusão em alguns dados estatísticos, como a redução numérica dos católicos em contraposição ao crescimento, igualmente numérico, dos evangélicos. Aduz ainda alguns fenômenos de caráter discutível, como a participação de fieis em liturgias. Observa o jornalista que enquanto sobra espaço nos templos católicos falta lugar nas igrejas evangélicas. Um argumento inconsistente pela superficial generalização. Em muitas cidades, a participação de católicos nas liturgias continua numerosa e assídua. Não obstante as imprecisões, a pesquisa do jornalista tem o mérito de provocar uma séria reflexão sobre o tema da religiosidade.

As atuais turbulências e questionamentos pelos quais passa a Igreja Católica longe de serem prejudiciais são, de fato, benéficos e salutares. Em algumas situações são até purificadores e libertadores. Uma vez que não são poucos os que se dizem católicos, mas que não possuem uma noção clara do verdadeiro alcance desta identidade. Para um número bastante difuso, o ser católico se reduz à determinadas devoções e/ou à participação em alguns sacramentos, considerados indispensáveis pela religiosidade popular, como, por exemplo, receber o Batismo, fazer a Primeira Comunhão, casar na Igreja. Mesmo a participação nestes sacramentos, porém, é demasiadamente superficial, meramente ritual, sem nenhum desdobramento no cotidiano da vida. Isto não obstante os cursos de preparação exigidos antes da celebração dos mesmos.

Acontece que esses encontros de preparação não estão alcançando o objetivo. Em parte por deficiência própria – alguns desses cursos, admite-se, são realmente lamentáveis. A razão maior, porém, é a impermeabilidade da consciência dos candidatos. Numerosos freqüentadores participam desses encontros de preparação de uma maneira acintosamente desinteressada, não achando nem graça e nem utilidade nas palestras; umas exigências tolas, dizem, que só servem para afastar mais as pessoas da Igreja Católica. Esta postura preconceituosa e refratária aponta, com precisão, para o verdadeiro cerne do problema. As pessoas, no geral, não encaram a religião como opção de conversão ao projeto de Jesus, mas como rituais que servem como blindagem contra qualquer tipo de adversidade. Busca-se o Batismo, por exemplo, não como expressão de uma adesão incondicional a Jesus e ao seu projeto de salvação, mas como uma espécie de seguro espiritual para a criança. As mesmas intenções interesseiras e imediatistas fundamentam a maioria das migrações para as igrejas evangélicas e neopentecostais. Numerosas pessoas mudam de igreja porque imaginam resolver de uma forma rápida seus problemas, inclusive, ou principalmente, os financeiros. É o que se depara a partir dos ‘testemunhos’ veiculados insistentemente por estas igrejas na mídia. Na sua esmagadora maioria, os convertidos falam das vantagens materiais colhidas apos a sua ‘conversão’, particularmente depois de passar a pagar o dízimo!

Preocupa não tanto o esvaziamento da Igreja Católica, mas a perda do genuíno sentido religioso. A alienação na religião, na verdade, denuncia a desintegração do próprio ser humano. O iceberg não é a Igreja Católica, é a humanidade em geral que precisa, entre outras coisas, e com urgência, recuperar o verdadeiro sentido da religião, que é ligar-se novamente a Deus e aos irmãos. Sem Deus e sem uma autêntica fraternidade a humanidade fatalmente afundará!

 Pe. Charles Borg, Vigário geral da diocese de Araçatuba, autor do livro VER A VIDA, ed. Ave Maria.

 

 
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