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Vamos
fingir que nos interessamos por política, que sabemos seu real valor,
sua importância. Que sabemos que cada decisão política influencia a
nossa vida diretamente, ou vida de nossos compatriotas, ou mesmo, que
as decisões políticas de hoje influenciarão a vida de brasileiros
geração após geração.
Vamos
fingir que gostamos de conversar sobre política com nossos amigos, com
nossos familiares. Vamos fingir que política para nós não é um assunto
chato, desinteressante, enfadonho, e que a sociedade não cresce quando
compartilhamos nossas idéias e pontos-de-vista sobre a política de
nossa cidade, de nosso Estado e de nossa nação.
Vamos fingir que
não está nas decisões políticas de hoje e de ontem a explicação para a
falta de moradia, para a falência dos serviços de saúde, segurança,
previdência; para a existência de meninos de rua, mendigos e toda uma
miríade de desassistidos que pulula em nossas cidades. Da mesma forma,
vamos fingir que nossa indignação isolada, silenciosa e desarticulada é
suficiente a pacificar a nossa consciência enquanto cristãos, homens ou
mulheres de bem, diante de tanta injustiça.
Mas não nos
esqueçamos de fingir que já fazemos o bastante pelo nosso país. Afinal
pagamos nossos impostos, trabalhamos duro pelo pão de cada dia. Não
somos como “eles”, não matamos, não roubamos. Só queremos viver a nossa
vida em paz, em silêncio, na quietude de nosso isolamento, de nossa
indiferença diante daquilo que acontece além de nossa janela, afinal,
não somos como “eles”.
Vamos fingir que não temos esperança de
que tudo mude em nosso país, desde que não seja necessário nenhum
sacrifício de nossa parte, desde que não precisemos nos comprometer com
as mudanças que queremos, já que comprometimento denota esforço,
acompanhamento permanente e cobrança de resultados e promessas. Ora
essa! Já fazemos muito em sair de nossas casas a cada eleição e digitar
o número daquele candidato que é tio do amigo do nosso primo em
terceiro grau, que já não vemos há uns anos, mas que nos ligou um dia
antes da eleição perguntando como andavam os meninos, e ao final de um
rápido papo nos pediu o voto para o seu candidato como um favor pessoal
e mais que isso, um pedido de familiar. Ou seja, se já nos esforçamos
tanto e escolhemos nossos líderes de forma tão sábia, fizemos a nossa
parte.
Não esqueçamos de fingir que nepotismo é a prática imoral
de nosso opositor político de empregar parentes. Se somos nós a
empregar parentes, a coisa muda de figura, trata-se de bom-senso, e
justiça. Afinal, por que respeitar a igualdade de oportunidades e a
lisura de concursos públicos, se estaremos empregando pessoas que
conhecemos, dignas de nossa confiança, e mais que isso, pessoas que
levam nosso sangue em suas veias, ou o nosso imaculado sobrenome? Tudo
isso é mais que suficiente para explicar porque nossos parentes são
melhores e merecem mais oportunidades que qualquer outro brasileiro.
Finjamos
também que não é corrupto e corruptor quem guarda lugar na fila do
cinema pros amigos; quem pede ao compadre para retirar aquela multa
merecida; quem pede ao amigo para “adiantar” o trâmite de determinado
documento; quem fura fila; quem ocupa aquela vaga no estacionamento do
shopping, mesmo vendo que outro veículo espera pacientemente pela mesma
vaga; quem roda pelo acostamento; quem segue de perto a ambulância que
vai abrindo caminho no trânsito; quem dá um jeitinho. Afinal, o
jeitinho brasileiro é uma verdadeira instituição, ninguém vive no
Brasil sem ele, é quase um DNA do brasileiro.
Vamos fingir que
sabemos que a imprensa nem sempre é isenta, e que maioria dos veículos
de comunicação no Brasil são propriedade ou estão comprometidos com
algum grupo político. Que muitos jornais não noticiam (quando noticiam)
toda a verdade dos fatos, tendo em vista que precisam das verbas
publicitárias do poder público, e que o mesmo se aplica às grandes
redes de tv. Ou seja, vamos fingir que não precisamos conhecer mais de
uma versão dos mesmos fatos acerca da política e dos políticos de nosso
país, já que isso toma o tempo que dedicaríamos à novela, ao filminho,
ao namoro ou ao papo com as comadres.
Não esqueçamos de fingir
também que não temos culpa pela existência e continuidade da corrupção
na esfera pública. Afinal, é perfeitamente normal e justo numa
sociedade democrática que, por exemplo: um político acusado de fraudar
o painel do Senado ou da Câmara, renuncie a seu mandato - e com isso
escape de uma eventual punição; logo em seguida, esse mesmo político
seja acusado de grampear os telefones dos opositores políticos, e até
da amante. Mas logo depois, esse hipotético político é novamente
eleito, e para coroar o seu retorno, pouco tempo depois torna-se
presidente de uma Comissão de Constituição e Justiça no Congresso. Mas
a lei foi cumprida, já que permite o retorno desse político à vida
pública. Logo, se essa lei existe, e nós a aceitamos passivamente, sem
qualquer mobilização contrária, tanto nós, quanto o dito político, e
todos aqueles que o reelegeram, formam uma só coisa.
Continuemos
fingindo que a violência policial é aceitável, desde que não seja
conosco. Já que mesmo ao arrepio da lei, graças a essa "ação" da
polícia, realmente muitos bandidos são mortos, mesmo que muitos
inocentes também o sejam. Finjamos que nos importamos pelo fato de que
esses inocentes, em sua maioria, são negros e pobres. Mas se a polícia
está matando bandidos também, então a morte de favelados, negros e
miseráveis e algo aceitável. Dessa forma, se fingirmos aceitar que a
polícia está mesmo acima da lei a ponto de ser juiz e executor da
justiça, então a corrupção policial é um mal menor, já que os bandidos
estão sendo mortos, e é isso o que importa para nós... Desde que não
seja conosco é claro.
Vamos fingir que admiramos o judiciário
brasileiro, afinal é o único que temos. Vamos continuar fingindo que
nosso judiciário não precisa de qualquer controle por parte da
sociedade, que precisa continuar livre para agir como desejar. Vamos
fingir que nossas leis são boas, já que permitem uma infinidade de
recursos e manobras judiciais, garantindo que alguém juridicamente bem
assessorado, com recursos financeiros disponíveis, ou politicamente bem
apadrinhado, dificilmente será punido, afinal, nunca se sabe se
precisaremos dessas mesmas leis algum dia não é? Vamos
fingir também que não sabemos que é na ineficiência da justiça, e na
impunidade que reside a gênese de toda a injustiça, de todo desmando. E
tem como frutos diretos o incentivo à prática delituosa e a
sofisticação do crime e dos criminosos. Mas por outro lado, essa mesma impunidade e ineficiência da justiça, infunde a
descrença, a frustração e a indignação manifesta em atos concretos por
parte de todos aqueles homens honestos que não fazem como nós -
coitados, eles não fingem.
E por fim, para o bem de nossa
própria consciência - se é que há consciência na inconsequência; e para
justificar toda a nossa falta de patriotismo, nosso egoísmo, nossa
indiferença, nosso desprezo pelo nosso semelhante, e mais que isso,
nossa voluntária alienação, vamos continuar fingindo, mas fingindo
mesmo, que somos cidadãos.
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