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Ives Gandra Martins, Advogado
Como cidadão brasileiro e trabalhador do Direito,
preocupa-me sempre o destino do país. Não sou político, mas um professor
universitário aposentado e advogado militante, mas entendo - como gostaria que
todos os cidadãos o fizessem - que o exercício da cidadania implica a
responsabilidade de não apenas votar nas eleições, mas fiscalizar governos e
expor preocupações em artigos, cartas aos leitores, reuniões, em associações,
quaisquer que elas sejam, sempre objetivando colaborar com o país e com as
autoridades constituídas. A crítica sincera, talvez, seja a melhor contribuição
que os
governos podem receber dos cidadãos da mesma forma que os
jornais se orientam pela reação de seus leitores mais fiéis nas manifestações
epistolares.
Por esta razão - sem quase nunca fazer ataques pessoais –
critico políticas que me parecem equivocadas, mesmo correndo o risco de eu
mesmo estar equivocado. O tempo, todavia, é que julga os acertos e os erros dos
detentores do poder ou de seus críticos. Tempus regit actum. No momento, vivo a
estranha sensação de que o país está à deriva.
Em política internacional, a obsessão de um assento no
Conselho de Segurança Nacional leva o governo a transigir em tudo, sendo o mais
fácil dos alvos para aqueles que pouco se importam com o Brasil, mas apenas com
os interesses de seus países. A viagem à China foi um fracasso e abriu nossas
porteiras a invasão de produtos chineses, tendo gerado desemprego em nossa
terra, pois os produtos chineses são altamente subsidiados por uma moeda
convenientemente manipulada e por um ''dumping social'' inacreditável.
Com os juros, tributos e encargos sociais, no momento, o
Brasil não pode enfrentar no território nacional a onda amarela. Só agora o
governo resolve tomar medidas protetoras. O Mercosul está doente com os ataques
convenientes e de má-fé deste inimigo do Brasil que é Kirchner, o mesmo
acontecendo com Paraguai e Uruguai, que se aliam mais à filosofia de Kirchner
que à de Lula.
O apoio a Mesa revelou-se inútil, e os interesses da
Petrobrás foram pisoteados na Bolívia. Perdemos as eleições na OMC, brigamos
desnecessariamente com os EUA impedindo a vinda de um observador para a cúpula
das Nações Árabes e Latino-Americanas, inviabilizada pela ausência de seis países
importantes árabes aliados dos EUA. Não conseguimos nem unir os países do
continente, nem os árabes. A política externa brasileira é um fracasso mais
claro, a cada dia que passa, quando a excelência da nossa diplomacia sempre foi
reconhecida internacionalmente.
O MST, que jamais pretendeu fazer o teste das urnas porque
seria fragarosamente derrotado, tem um líder que manda mais do que o
presidente.
Quanto mais desobedece a lei, esfrangalha a Constituição,
invade propriedades e denigre a honra das autoridades, mas é prestigiado pelo
presidente, na estranha sensação de que ou Lula é aliado da desordem ou tem
medo do economista da idade da pedra, que o dirige.
O Congresso tornou-se palco de todas as espécies de acordos
e fisiologismos, buscando o partido do presidente, que sempre se notabilizou
pela exigência de CPIs moralizadoras, barrar qualquer investigação de corrupção
ou desordem de conduta, desde o célebre e não apurado caso do Waldomiro até o
presente.
O direito de defesa nunca foi tão pisoteado com legislação
tributária – não só confiscatória no nível da carga - como redutora dos
direitos e lembrando-se que a própria inviolabilidade garantida pela
Constituição e pela lei dos advogados em ter no seu escritório o templo do
sigilo profissional, na defesa dos direitos de seus constituintes, tem sido
sistematicamente violadas, com invasões cinematográficas de escritórios de
causídicos para retirada de documentos de defesa, com a complacência de meu
amigo, que no tempo que exercia o cargo de presidente da OAB, opunha-se -
como eu - a tais violências ao exercício da profissão.
Talvez preocupado em dar 15% do território nacional a alguns
índios, não tenha ainda se debruçado
sobre a violência que se faz a uma profissão da qual, no
passado, foi um dos mais admiráveis
líderes.
E as diversas tentativas, como a do Conselho Nacional de
Jornalismo, da Ancinav, de ''estatização''
das universidades privadas pela intervenção crescente do Ministro da
Educação em sua gestão e direção, estão a demonstrar que o governo é constituído
de diversos governos, estando a sua melhor parte, que é a equipe econômica
sendo, permanentemente, atacada interna corporis pelos radicais que idolatram
Chávez e o genocida Fidel Castro, como modelos de ''líderes democráticos''.
E a tudo assiste, o presidente Lula, cujo carisma admiro,
mas cujo exercício da Presidência está cada vez mais errática, muitos tendo
sérias dúvidas se realmente as decisões do governo são decisões do presidente.
Como eu gostaria que Lula assumisse as rédeas do governo e desse
rumo à rota do poder!
[02/JUN/2005 JB
in vino veritas
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