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Se
colhêssemos o verbo amar analisando-o somente gramaticalmente, veríamos
que se trata, obviamente, de um verbo transitivo direito. Quem ama, ama
alguém ou alguma coisa. É, portanto, verbo que exige um objeto, um
motivo, uma causa que lhe dê razão e lhe dê sentido de existência. Não
existe sem este complemento, pois, do contrário, estaria fadado à
inutilidade. Não somente na frase ou no discurso o verbo amar carece
desse algo mais que o justifica.
Também nas nossas vidas e no nosso coração esta verdade é plena de
significado, haja vista que, ao conjugá-lo sem essa razão que lhe dá
alicerce, o nosso aprendizado afetivo não existiria. Cristãos zelosos
que muitas vezes achamos que somos, somos levados a exercer o nosso
amor tendo em vista o objeto essencial da nossa vida: o próprio Cristo
ressuscitado, que já na sua cruz havia atestado, sob a sua dor e
sofrimento, que era a humanidade pecadora e algemada pela maldade o
objeto primordial de Sua paixão. Levando-se em conta essa conclusão, ao
colocarmos Cristo como meta de nosso amor, estaríamos selando essa obra
que, afinal de contas, é a razão de ser de toda a criação operada por
Deus. Seria perfeito e lucraríamos o Céu se atingíssemos esse objetivo.
No entanto...
Falar de amor, hoje, é uma facilidade sem tamanho. Virou rima pobre de
música, discurso barato na azaração dos jovens e desculpa para crimes e
barbaridades; enfim, perdeu quase que completamente a excelência dada
por Jesus em Sua vida. Depois de milênios quebrando a cabeça ao tentar
se abrir em direção aos outros e a Deus, o homem parece ainda infantil
ao definir o significado pleno do ato de amar na sua existência. E,
como o significado exato lhe escapa pela sua teimosia em não escutar a
Deus que mora em si, ele vai chamando de amor qualquer coisa que se
assemelhe a este sentimento, segundo seu juízo ferido e perdido.
É interessante como, na boca de Cristo, a palavra amor ganha um
significado intenso e simples. Ele ordena: “Este é o meu mandamento:
amai-vos uns aos outros como Eu vos amei! Ninguém tem mais amor do que
aquele que dá a vida por seus amigos. Vós sereis meus amigos se
fizerdes o que vos mando. O que vos mando é que vos ameis uns aos
outros!” (Jo 14, 12-17). Nota-se que é uma exortação, uma necessidade,
um pressuposto lógico para se obter a tão desejada salvação. Não há
caminhos miraculosos ou misteriosos para se chegar à Graça – o amor
consegue ser, ao mesmo tempo, causa e conseqüência, ação e reação,
contração e distensão. Para o homem, porém, o amor é o pior dos
caminhos, a mais falha, decadente e sem-graça das suas aspirações,
porque ele não busca atar esse elo com Deus (e, é claro, consigo
mesmo). Ele busca ater-se ao seu egoísmo, à sua humanidade, tentando
assim vivenciar uma mudança de vida a partir de suas próprias forças,
falhas e poucas. Amar torna-se um fardo, um peso, porque é verbo que
pede como objeto, além de próprio amante, o amado, que é sua razão de
ser...
Segundo Dom Amaury Castanho, “(...) é fácil perceber, no conjunto da
mensagem do Nazareno, que o Reino de Deus se caracteriza pelo amor e a
justiça, a pobreza e a paz, a graça divina, a verdade e a
simplicidade”. O amor é a substância do Céu. Aliás, o amor é a essência
de Deus, e ele torna-se “preso” à ela quando nos elege como objeto de
seu amor, posto que ele só sabe amar, na infinitude de si. Essa
“prisão” é, para nós, o verdadeiro significado da liberdade, mas não a
buscamos porque nos prendemos ao pecado que há em nós, trazido como
herança pela desobediência primeira da humanidade, que quebrou, no
início da criação, esse elo com Deus, que é aliança de amor e a própria
história da salvação de todos nós.
O ato de amor deve concluir-se com total perfeição, a fim de
conseguirmos a eternidade. Exige-se, pois, um sujeito, um verbo e um
seu objeto para que, unidos entre si, perfaçam o sentido da caridade
que Cristo legou em Sua Palavra. Um sujeito que, livre e
espontaneamente, almeja agir para obter o amor; um verbo que, em si, já
expressa esse desejo de buscar o outro para atingir o seu pleno
significado; e, por fim, um objeto que deseja receber esse amor para,
respeitada a aliança, devolvê-lo em maior magnitude. O verbo a escolher
é o amor. Nós, então, devemos ser este sujeito de amor e Deus deve ser
objeto da nossa ação, haja vista que Ele, na nossa vida, já conjugou,
antes e infinitamente, o verbo amar em nós e na nossa existência...
Os santos souberam escolher o objeto de seu amor e, por isso, gozam do
Céu. Entre eles, descata-se sua Rainha, Maria, Mãe Santíssima de Jesus,
que fez do seu “sim” sinal claro de sua opção pelo amor maduro e
desmedido, impulsionado pela grandeza de Deus que abraça sua pequenez
(cf. Lc 1, 38). Ninguém amou como ela o Verbo Amor de Deus, guardando-o
em seu seio e conduzindo-o com sua maternal afeição. Ela soube
descobrir o segredo e o mistério de amar, fazendo a simples escolha
pelo amor, sem grandes ambições e sem se apegar a si mesma e à sua
humanidade. De Maria, aprendemos o amar que é ação de Cristo,
substância e essência de Deus. Amar na coragem e na ousadia que quem já
se sabe objeto especial desse Amor...
BRENO GOMES FURTADO ALVES
Formação Jovem | Maio de 2005
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