Artigo de D. Javier Echevarría, prelado do Opus Dei, publicado em "La
Stampa" de Turim, por ocasião do 30 aniversário de falecimento de São
Josemaria.
La Stampa, 25 de junho de 2005 27 de Junho de 2005
Desde
a antigüidade clássica, deu-se sempre uma espécie de dicotomia entre a
grande história e a pequena história, entre o extraordinário e o
cotidiano. Por um lado, estavam os grandes feitos – reais ou
imaginários – dos reis e dos heróis; por outro, a tarefa habitual, com
freqüência fatigante, que preenchia a maior parte das horas do dia das
pessoas comuns, o trabalho com que deviam manter a família.
Também nos países cristãos, era habitual considerar o trabalho como
um castigo de Deus. Lembrava-se facilmente que Deus, quando expulsou os
nossos primeiros pais do jardim do Éden, depois do pecado original,
lhes disse: "Comerás o pão com o suor do teu rosto"; esquecia-se,
porém, o mandamento divino, dado pelo Senhor ao homem e à mulher,
criados à sua imagem e semelhança: "Crescei e multiplicai-vos, enchei a
terra e submetei-a".
Durante séculos, o trabalho – sobretudo o trabalho manual, ainda
que não apenas ele – foi considerado como uma realidade carente de
dignidade, da qual se libertavam todos os que podiam, quer por sua
fortuna, quer por seu nascimento ou a sua posição social. Hoje, o que
fere a dignidade humana não é o trabalho, mas o seu contrário, o
desemprego. Neste sentido, a mudança de perspectiva apresenta um lado
positivo. A doutrina social da Igreja, iniciada com os ensinamentos dos
Pontífices do século XIX, não ficou alheia a essa transformação.
Houve também a influência da vida e dos escritos de autores
espirituais, que encontram um interessante ponto de intersecção com a
doutrina social da Igreja. Esse tema foi abordado por vários autores do
século XX, e de modo especialmente significativo por São Josemaria
Escrivá, fundador do Opus Dei. Comentando o mandamento de cultivar a
terra, dado por Deus a Adão, afirmava que o trabalho é uma realidade
digna e santa, «um meio necessário que Deus nos confia aqui na terra,
dilatando os nossos dias e fazendo-nos participar do seu poder criador,
para que ganhemos o nosso sustento e simultaneamente colhamos "frutos
para a vida eterna" (Jn 4, 36)» (Amigos de Deus, 57).
Mercê da mudança de avaliação que foi amadurecendo no último século, as
tarefas profissionais têm sido reconhecidas como uma atividade
ordinária que não rebaixa a dignidade humana. Infelizmente, no entanto,
a dedicação a essas ocupações significa para muitos a nova dimensão do
extraordinário, aquilo que permite evadir-se da vida corrente. O
sucesso profissional a qualquer custo ocupa o centro do novo cenário,
onde a épica – os sonhos de grandes conquistas – é o que importa acima
de tudo; e a ética – o que valoriza humana e sobrenaturalmente as
circunstâncias comuns – passa freqüentemente para um segundo plano.
A vida ordinária hoje ficou reduzida, praticamente, à vida
doméstica: a família nos é apresentada, em conseqüência, como a moderna
cinderela, a grande perdedora nesta febre do trabalho. É, de fato,
evidente que uma cultura caracterizada por trabalhadores
"stajanovistas", por pais e mães ausentes do lar, repercute de modo
muito negativo sobre a família.
Infelizmente, hoje fica sendo mais fácil, às vezes, desmanchar um
casamento que desmanchar um contrato profissional. Mas não é esse o
único bem que a hipertrofia laboral põe em perigo. Perante o
crescimento acelerado da violência juvenil, por exemplo, aumenta o
número dos que suspeitam que as causas do fenômeno têm a ver com essa
inversão de valores, com o predomínio do frenesi produtivo, que leva ao
abandono da força agregadora da família.
Um pai ausente, mais interessado na sua carreira do que nos filhos,
deixa de constituir um ponto de referência firme. Da mesma forma, a
relação com a mãe ausente acaba por se tornar, na prática, uma relação
prescindível, por mais que no fundo do coração se considere sempre
necessária. E, ainda, uma escola que sacrifica a autêntica formação
humana dos alunos a critérios de eficiência, não ajuda os jovens a dar
uma orientação serena, uma forma elaborada, aos impulsos da sua
sensibilidade.
Quando João Paulo II falava do "evangelho do trabalho",
mostrava-nos que as atividades profissionais contêm um horizonte
espiritual esperançoso. Essa tarefa, realizada com sentido cristão,
converte-se numa fonte de humanização para as famílias, para as
empresas, para a sociedade inteira.
«O "negócio" mais importante são os filhos», disse certa vez São
Josemaria Escrivá a um empresário, para dissuadi-lo de uma excessiva
dedicação ao trabalho em detrimento da família.
São Josemaria Escrivá faleceu há trinta anos, em 26 de junho de
1975. Hoje a sua mensagem enche-nos novamente de esperança. No mundo
atual, que despeja sobre o homem uma bateria contínua de perguntas,
numa permanente procura de sentido, a mensagem de São Josemaria
lembra-nos essa grande verdade que Bento XVI quis pôr de novo em
relevo, ao proclamar que a Igreja está viva. A Igreja oferece um
tesouro de respostas escondidas, que podem converter-se em luzes que
guiem a nossa existência.
+Javier Echevarría
Prelado do Opus Dei
Fonte: www.opusdei.org.br
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