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João Paulo II - Dom João Bosco Oliver de Faria PDF Imprimir E-mail
14-Out-2003
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Dom João Bosco Oliver de Faria
Bispo de Patos de Minas

Segundo um estudo de um professor de História Eclesiástica, que guardo comigo desde o final da década de 50, deveria aparecer ao final do século o maior de todos os Papas da História da Igreja.

Essa afirmação, feita por volta de 1958, poderia ser vista como fruto da imaginação de um cientista. Acontece que o fundamento de sua afirmação está em uma análise da presença da Igreja no mundo, nos seus 20 séculos de história. Ela foi feita antes ainda do Concílio Vaticano II e, ainda mais, ao final do pontificado do Papa Pio XII, de quem se pensava de difícil substituição: o Pastor Angelicus(Pastor Angélico), cognome que recebeu de uma pretensa profecia que nos foi legada, há séculos.

Este historiador-cientista fez a seguinte observação: todos os momentos de opressão sobre a Igreja, ou de apogeu da presença da Igreja no mundo aconteceram na, ou próximos da passagem de século.

A Igreja nasceu sob a opressão e viveu 300 anos de perseguição, iniciando uma nova era de esperança com o Edito de Milão, do Imperador Constantino, em 313.

O último pico de opressão do poder civil sobre a Igreja aconteceu com Pio VII, que governou a Igreja de 21 de março de 1800 a 20 de agosto de 1823. Pio VII, depois de diversas humilhações que lhe foram impostas por Napoleão, na noite de 5 para 6 de julho de 1809, foi capturado e levado preso para Florença, depois Grenoble, Savona e finalmente para Fontainebleau, perto de Paris. Só voltou à Roma em 24 de maio de 1814, depois que Napoleão tendo perdido em 1812 a Campanha da Rússia na batalha de Waterloo subscreveu sua abdicação em 11 de abril de 1814. Coloco este detalhe para que o leitor perceba melhor o que significa um tempo de opressão para a vida da Igreja.

Os últimos pontos de grande presença da Igreja no mundo foram com os Papas Inocêncio III (1198-1216) e Sisto V (1585-1590).

Depois do Papa Pio XII. tivemos o Beato João XXIII que convocou e iniciou o Concílio Vaticano II dando-lhe sua orientação; foi sucedido por Paulo VI que terminou o Concílio e iniciou sua aplicação; fez a reforma do Missal, internacionalizou e reformou toda a estrutura da Cúria Romana e iniciou a reforma do Direito canônico. Tivemos, depois, João Paulo I, que teve, apenas, o tempo para fazer-se amar!

Em 16 de outubro de 1978 a Igreja recebeu o presente de Deus na pessoa do Cardeal KAROL WOJTYLA, eleito Papa aos 58 anos de idade. Na análise desse historiador, João Paulo II é o grande Papa de toda a História da Igreja. Como prova de que tal análise tem seus quase 50 anos tenho meu caderno de anotações, com as marcas do tempo e minha letra de 19 anos de idade.

Sem pretender ser exaustivo, o que os limites deste artigo não permitiriam, lembro alguns aspectos da pessoa e do Pontificado de João Paulo II.


A infância e juventude sofridas e a capacidade de lutar na resistência do povo polonês à ocupação alemã.

Perdeu a mãe aos 8 anos de idade. Perdeu, ainda, seu único irmão, médico, aos 14 (uma irmãzinha havia morrido antes que ele nascesse); aos 23 anos, na guerra, voltando do trabalho forçado, chegando em casa, encontra o pai morto. Representava teatro com um grupo de jovens, levantando o moral de seu povo para que não se deixasse dominar pelo invasor.


Uma vocação madura que segue para o Seminário aos 24 anos de idade.

Na sua homilia, em Belo Horizonte, disse que a origem de sua vocação foi a leitura de uma passagem do Evangelho de Mateus, (16, 15): “Para vocês quem sou eu?” Sua vocação é uma resposta de amor a Jesus Cristo. Quando operário na indústria química, estudava nos intervalos de trabalho e, às vezes, com o auxílio de uma luz fraca.


É o primeiro Papa Filósofo e o primeiro Filósofo Papa.

Sua tese de doutorado em filosofia foi sobre o pensamento de Max Scheller, filósofo que ultrapassou a fenomenologia, iluminado-a com novos horizontes nos grandes temas do valor, do homem, do mundo e de Deus.

Na sua Encíclica Laborem Exercens, João Paulo inova a doutrina social da Igreja, que de um posicionamento na defesa da propriedade privada, passa para a pregação do valor do trabalho: o homem se realiza pelo trabalho – o trabalho foi feito para o homem e não o homem para o trabalho!

Mais recentemente, oferece-nos duas Encíclicas: O Esplendor da Verdade(Veritatis Splendor) e Senhor Jesus (Dominus Jesus) nova pedra preciosa no pensamento filosófico.

No dia 13 de outubro corrente, é apresentada ao público, no Vaticano, por três professores de filosofia, entre eles Rocco Butiglione, a Metafísica da Pessoa, um compêndio com todas as obras filosóficas de Karol Wojtyla e outros ensaios integrantes.


Jesus Cristo é a centralidade de seu pontificado.

Sua primeira Encíclica tem a pessoa de Jesus Cristo como tema: Redentor do Homem (Redemptor hominis). Em sua homilia na abertura do seu pontificado afirma: “Irmãos e irmãs: não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder! E ajudai o Papa e todos aqueles que querem servir a Cristo, e com o poder de Cristo, servir o homem e a humanidade inteira! Não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao Seu poder servidor abri os confins dos Estados, os sistemas econômicos, assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem `o que é que está dentro do Homem’”, somente Ele o sabe!” (Os negritos são meus.)


A devoção à Nossa Senhora

No seu brasão de Papa coloca o “M” de Maria e como lema Totus Tuus. Todo Teu! Coloca, assim, de modo claro e enfático, o seu pontificado sob o manto e a proteção de Nossa Senhora.

Escreve uma Encíclica sobre a Mãe do Redentor: Redemptoris Mater e uma Carta Apostólica sobre o Rosário da Virgem Maria; acrescenta duas invocações na Ladainha de Nossa Senhora: “Mãe da Igreja” e “Rainha da Família”. Acrescenta, na devoção ao Santo Rosário, a meditação dos Mistérios da Luz. Visita os diversos santuários marianos espalhados pelo mundo e, em Lujan, na Argentinha, permanece sozinho em oração, por 40 minutos, diante da imagem ali venerada de Nossa Senhora de Lujan. No Brasil ele consagrou a Basílica de Nossa Senhora Aparecida! Proclamou um Ano Santo Mariano e este ano de 2003 como o Ano do Rosário!


A defesa da Família

Convoca um Sínodo para refletir e estudar sobre a Família e, como resultado nos oferece a Exortação Apostólica Familiaris Consortio que foi chamada: a Bíblia da Família. Ali podemos aprender todos os ensinamentos da Palavra de Deus, interpretados para iluminar o homem e a mulher na constituição de sua família neste mundo atual. Não satisfeito, escreve uma Carta às Famílias. Cria, junto de si, o Pontifício Conselho para a Família, colocando um Cardeal à sua frente, para significar-lhe a importância. Em suas inúmeras alocuções a todos os episcopados do mundo, faz sempre uma demorada referência ao acompanhamento pastoral que os Bispos devem ter para com as Famílias. Disse aos Bispos de Minas e Espírito Santo, na Visita Ad Limina de 1995: -“O Bispo que investir na Pastoral Familiar, faz o melhor investimento em sua Diocese”!


A dignidade da Mulher

Numa sociedade que reduziu a pessoa da mulher a objeto de consumo, objeto de prazer, João Paulo II envia sua Carta Apostólica sobre a dignidade e a vocação da mulher: Mulieris Dignitatem. Ensina que a mulher se realiza pelo dom de si aos outros. Deus criou a mulher virgem para ser mãe. A mulher só se realiza como virgem ou como mãe.


A defesa da vida humana, sobretudo a não nascida

São muitos e muitos os seus posicionamentos e declarações em defesa da vida humana, em todas as circunstâncias e, sobretudo, no seu estado terminal, ou quando não nascida. Todos os temas da bioética e em especial da engenharia genética foram amplamente tratados nos seus mais variados discursos e homilias. Escreve em 1995 sua belíssima Encíclica Evangelium Vitae – O Evangelho da Vida. Nela, como em outras circunstâncias, escreve palavras duríssimas contra o aborto, contra quem o pratica e contra quem dele se torna cúmplice com alguma colaboração!

Cria, em Roma a Pontifícia Academia para a Vida, com representantes de todo o mundo. Seu presidente é um leigo (hoje um médico chileno) e seu secretário: um Arcebispo residente em Roma e com tempo integral a serviço da Academia.


A defesa da liberdade religiosa

Este é outro tema permanente em sua pregação, sobretudo nos países onde essa liberdade é violada. Ele sofreu a falta dessa liberdade, quando criança e quando jovem e clama com sua autoridade de sucessor de São Pedro pelo direito de cada um de viver e praticar a sua fé.


A defesa dos países pobres, do Terceiro Mundo e de todos os pobres

Nos seus discursos na ONU, nas visitas aos Chefes de Estado dos países mais ricos, nas audiências aos Governantes e Embaixadores junto à Santa Sé, com palavras apropriadas e firmes, pediu em favor dos pobres e dos países pobres.

Escreveu a propósito duas Encíclicas: \"Centésimo Ano” – Centesimus Annus– celebrando o centenário da Encíclica de Leão XIII sobre a questão social; e “Solicitude Social” – Sollicitudo Rei Socialis, onde fala com firmeza, bem ao seu estilo, sobre a política injusta dos juros internacionais que pesam oprimindo os países em desenvolvimento, bem como sobre as barreiras comerciais que não permitem aos pequenos um lugar ao sol.


Os Sacerdotes, os Religiosos, as Vocações e a presença e atuação dos Leigos na vida da Igreja

Todas essas pessoas foram valorizadas com a celebração de um Sínodo na Igreja e tiveram, depois, uma Exortação Apostólica esclarecedora e que inspira amor e coragem a todos na sua missão de evangelizar. Criou o costume de receber os Bispos (em grupos de 10 a 14) para um almoço com ele, durante a Visita ad Limina, ocasião em que poderia conversar por hora e meia, de modo informal sobre a situação religiosa e social de cada país e das dioceses. Tal encontro permite-lhe um conhecimento melhor de seus Bispos e da realidade da vida da Igreja, possibilitando aos Bispos sentir mais de perto a presença paterna do Santo Padre.


Sua presença física no mundo
As visitas às Paróquias de Roma, às Dioceses e Santuários da Itália ( 143 viagens) e às nações do mundo inteiro (102 viagens), conversando com os chefes de Estado, os intelectuais de cada país, os episcopados e suas pregações ao clero e povo de cada região. João Paulo II é o grande Missionário do Evangelho. Não se poupa tempo nem saúde e, de modo incansável, apesar do peso dos anos se coloca a serviço de sua missão de conduzir, com mão firme, a Barca de Pedro.

Na Celebração de seus 25 anos de Pontificado elevemos a Deus as nossas preces agradecendo por esse grande dom à sua Igreja: JOÃO PAULO II. Que o Senhor o abençoe, fortaleça sua saúde combalida, multiplique-lhe as alegrias em seu ministério e o conserve entre nós. Dominus conservet eum et vivificet eum et beatum faciat eum in terra! Amém.

Fonte: CNBB

 
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