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Artigos Jesus
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A Transfiguração, um esplendor do Reino |
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Escrito por Tradução de Pe. José Artulino Besen
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07-Ago-2005 |
Os
evangelistas sinóticos – Mateus, Marcos, Lucas – narram o evento da
Transfiguração de modo quase idêntico: Jesus toma consigo Pedro, Tiago
e João – os dois últimos são irmãos -, mais vezes companheiros seus
privilegiados “porque eram mais perfeitos do que os outros”, afirma S.
João Crisóstomo; Pedro, porque amava a Jesus mais do que os outros,
João porque era amado por Jesus mais do que os outros, e Tiago porque
se unira na resposta do irmão: “Sim, podemos beber do teu cálice”(cf.
Mt 20,22).
Jesus os conduz à parte a uma
“alta montanha”, lugar por excelência das manifestações divinas; dirá a
Tradição: o monte Tabor. Ali ele aparece radiante de uma luz esplêndida
que emana “tanto de seu rosto brilhante como o sol” como de suas vestes
– obra do homem, da cultura humana – e se irradia pela natureza
circunstante, como o mostram os ícones.
Moisés – a lei – e Elias – os profetas – aparecem e
conversam com Jesus. A primeira aliança aponta para a última. Lucas
precisa que a conversa tem como tema o êxodo, a partida do Senhor.
Pedro, em êxtase, sugere construir três tendas, na esperança de poder
permanecer longamente naquele estado. Mas tudo está envolvido pela
“nuvem luminosa” do Espírito, da qual ressoa no coração dos três
discípulos agitados, prostrados com a face por terra, a voz do Pai:
“Este é o meu Filho, o amado, escutai-o!”. Depois, tudo desaparece, e
permanece Jesus, sozinho, que ordena aos três guardarem segredo a
respeito do que tinham visto, “até que o Filho do homem ressuscitasse
dos mortos”.
A partir do fim das perseguições romanas contra os
cristãos, no século IV, foram edificadas diversas igrejas no Tabor. Sua
dedicação parece estar na origem da festa que, a partir do VI século,
difundiu-se por todo o Oriente Médio. No calendário ocidental foi
estavelmente introduzida em 1457, pelo papa Calixto III, como
reconhecimento pela recente vitória contra os turcos. Os evangelhos não
permitem fixar, no ritmo anual, uma data para a Transfiguração. Com a
intuição cósmica que o caracteriza, o Oriente fixou a data de 6 de
agosto, grande meio-dia do ano, apogeu da luz do verão. Nesse dia se
abençoam os frutos da estação; muitas vezes, nos países da bacia do
Mediterrâneo, é a uva o fruto por excelência abençoado. O Ocidente,
menos sensível ao alcance espiritual do acontecimento, mesmo
conservando a festa da Transfiguração em 6 de agosto, preferiu
acrescentar uma segunda celebração antes da Páscoa, no segundo Domingo
da Quaresma, de tal modo seguindo mais de perto a cronologia da vida de
Jesus.
No Oriente, a festa põe o acento na divindade de Cristo
e no caráter trinitário de seu esplendor. “Conversando com Cristo,
Moisés e Elias revelam que ele é o Senhor dos vivos e dos mortos, o
Deus que tinha falado na lei e nos profetas; e a voz do Pai, que sai da
nuvem luminosa, “dá-lhe testemunho”, recita a liturgia bizantina.
Contudo, a Transfiguração não é um triunfo terreno, que
Jesus sempre rejeitou em sua vida – e aqui está o erro de leitura de
Calixto III; nem mesmo é uma emoção espiritual para degustar – eis o
erro de Pedro. É um lampejo, um esplendor daquele Reino que é o próprio
Cristo, uma luz que é também a da Páscoa, do Pentecostes, da parusia
quando, com o retorno glorioso de Cristo, o mundo inteiro será
transfigurado.
Moisés e Elias, já o dissemos, falam com Jesus a
respeito de sua partida, de sua paixão: apenas esta última fará
resplandecer a luz, não no cume do Tabor, a montanha que simbolicamente
representa as teofanias e os êxtases, mas no próprio coração dos
sofrimentos dos homens, de seu inferno e, enfim, de sua morte. A
liturgia ainda nos ajuda a entender: “Ouvi – diz o Pai – aquele que
através da cruz esvaziou o inferno e dá aos mortos a vida sem fim”.
Para a teologia ortodoxa, a luz da Transfiguração é a
energia divina (de acordo com o vocabulário precisado no séc. XIV por
Gregório Palamas), isto é, o resplandecer de Deus: o mesmo Deus que,
enquanto permanece inacessível na sua “supra-essência”, se torna
participável aos homens por uma loucura de amor. Daqui a compreensão da
importância desta festa para a tradição mística e iconográfica.
O resplandecer, o esplendor divino é tal que joga por
terra, na montanha, os apóstolos. Mesmo assim, no Tabor ele permanece
uma luz externa ao homem. Ora, ela nos é doada – como centelha
imperceptível ou rio de fogo – no pão e no vinho eucarísticos. Então
nossos olhos se abrem e nós compreendemos que o mundo inteiro está
impregnado dessa luz: todas as religiões, todas as intuições da arte e
do amor o sabem, mas foi necessário que viesse o Cristo e que nele
acontecesse aquela imensa metamorfose – assim os gregos denominam a
Transfiguração – para que enfim se revelasse que, à nascente dos veios
de fogo, de paz e de beleza presentes na história, existe, vencedor da
noite e da morte, um Rosto. Extraído de
«As Festas cristãs», de O. Clèment
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