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A ética e a moral não são exclusivas da religião. Devem servir de guia
para toda a sociedade, incluindo ciência e técnica Um projeto para
descriminalizar o aborto será submetido ao Congresso Nacional para
discussão e possível aprovação ou não. Sou absolutamente contra essa
proposta e fundamento meu ponto de vista não somente na fé cristã mas
também na ciência e em aspectos éticos e jurídicos. Já está comprovado
cientificamente que o feto é um ser humano completo desde a sua
concepção e, por isso, tem direito à vida, como defende o artigo quinto
da Constituição brasileira e o artigo segundo do Código Civil. Cabe ao
Estado o dever de tutelar e proteger a vida do embrião ou do feto de
qualquer ameaça, sob pena de violação dos direitos hu manos.
Como
médica pediatra e sanitarista e pela minha experiência de mais de 40
anos em saúde pública -desses, 22 anos na Pastoral da Criança, presente
em 38 mil comunidades pobres do país-, tenho a convicção de que medidas
preventivas são a única solução para problemas como a gravidez
indesejada na adolescência, a violência que causa gravidez por estupros
e os milhares de abortos clandestinos realizados a cada ano no país.
Tentar solucionar tais problemas com a legalização do aborto é
paliativo e demonstra o fracasso da sociedade e, em especial, daqueles
que são responsáveis pela legislação no país.
Não se pode consertar um crime com outro ainda maior: eliminar um ser humano indefeso.
Felizmente,
muitas pessoas comprometidas com o bem-estar das mulheres estão optando
por vestir a camisa da erradi cação da pobreza, da miséria e da
ignorância que as oprime, principalmente nos países em desenvolvimento.
Para gerar desenvolvimento e, por conseqüência, boas condições
de saúde e de vida a todas as mulheres e suas famílias, é preciso
investir em educação para a vida e em saúde de qualidade e acessível a
todos, políticas públicas de assistência materno-infantil, de
orientação aos adolescentes, às mulheres e às famílias.
A
prática de abortos seria um retrocesso da saúde pública que, em vez de
investir na qualidade de vida da população, passaria a reproduzir uma
cultura de incentivo à morte, à violência. Além disso, seria um ônus
para o SUS, que possui recursos mínimos para prestar serviços de
atenção básica, prevenção e educação para a saúde.
Espero que
nossos senadores e deputados considerem a vontade da maior parte da
sociedade, expressa também durante a 12ª Conferência Nacional de Saúde,
realizada em dezemb ro de 2003: os delegados decidiram não aprovar a
descriminalização do aborto.
A relativização do valor da vida
humana teve início no Brasil com a aprovação da Lei de Biossegurança,
que autoriza a pesquisa de células-tronco de embriões congelados.
Essa
utilização implica a destruição dos embriões, ou seja, a morte de um
ser humano vivo, distinto e indivisível. O governo brasileiro alega que
as pesquisas com células-tronco embrionárias farão uso somente dos
embriões congelados há pelo menos três anos.
Levantamento
recente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida demonstra que
existem hoje no país cerca de 3.000 embriões congelados há mais de três
anos, um número muito abaixo daquele anunciado pelos cientistas -de 30
mil embriões- durante a discussão para aprovação da lei no Congresso
Nacional.
Além disso, os embriões só podem ser utilizados após
o consentimento dos pais, o que, certamente, diminuirá a inda mais o
número de embriões disponíveis para pesquisa. Diante dessa baixa oferta
de embriões e da expectativa gerada pela aprovação da lei, como os
órgãos competentes farão a fiscalização?
Tenho a esperança de
que o Congresso Nacional possa rever o uso de células-tronco
embrionárias como está previsto na Lei de Biossegurança e promova
incentivos às pesquisas realizadas com células extraídas de tecidos
humanos, entre eles, cordão umbilical e medula óssea. Elas têm
demonstrado eficácia no tratamento de doenças como a leucemia, doenças
cardíacas e hematológicas. Acredito que essas pesquisas poderão trazer
resultados ainda mais surpreendentes e tão eficientes quanto as obtidas
a partir de embriões, como já está sendo demonstrado por estudiosos em
países como a Alemanha e os Estados Unidos.
A ética e a moral
não são exclusivas da religião. Devem servir de guia para toda a
sociedade, incluindo a ciência e a técnica. Não faltam cientistas,
juristas e legisladores que, no exercício de seus mandatos e
profissões, têm como objetivo maior a defesa e a promoção da vida, a
serviço do bem comum. A sociedade brasileira tem o direito de ser
ouvida pelos legisladores de maneira democrática sobre um assunto tão
sério como a descriminalização do aborto. Zilda Arns Neumann, 70,
médica pediatra e sanitarista, fundadora e coordenadora nacional da
Pastoral da Criança, é conselheira titular da CNBB (Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil) no Conselho Nacional de Saúde.
ZILDA ARNS NEUMANN, FOLHA DE S.PAULO EM 14/08/2005
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