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Deus
é o Senhor da vida. O mandamento “Não matarás!” (Ex 20,13) é revelação
da vontade divina e expressão de uma lei inscrita na própria natureza
humana. A Igreja Católica, consciente de sua missão evangelizadora,
jamais poderá abrir mão do empenho de valorizar, promover e defender a
vida humana. O direito à vida precede quaisquer outros direitos.
O
caráter sagrado da vida é reconhecido em todas as culturas. De modo
particular, nós, cristãos, assim compreendemos, ainda mais que a
encarnação do Verbo, Cristo Jesus, selou para o ser humano uma
dignidade superior ao se fazer um de nós (cf. Jo 1,14) e ao declarar:
“Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,
10).
Firmamos
nossa posição com o saudoso Papa João Paulo II que sempre defendeu a
vida e a dignidade da pessoa humana em qualquer fase ou condição em que
se encontre; a pessoa humana como medida central de toda a ciência; os
mais fracos e desprotegidos como opção preferencial da Igreja; o juízo
ético como referencial para a pesquisa científica. A vida humana é
sempre um dom gratuito para quem a possui e cada pessoa é um dom
valioso para a humanidade, não obstante a variedade das suas condições
sociais, de idade ou de saúde.
Embora
de fundamental importância, a ciência não pode ser considerada a única
forma válida de saber, nem detém as respostas para todos os anseios da
humanidade. A Igreja tem procurado um diálogo convergente com
cientistas, pesquisadores, médicos, juristas, legisladores e formadores
de opinião pública, a fim de articular todos os conhecimentos
referentes à defesa da vida humana, nos campos das biotecnologias, da
ecologia e da inclusão social.
A
Igreja Católica, segundo o censo de 2000, é o grupo religioso mais
numeroso do povo brasileiro. É inadmissível que, numa sociedade
pluralista como a nossa, ela seja cerceada no seu direito de participar
dos debates, comissões e outros mecanismos usados pelos Poderes
Públicos para consulta à população, sobretudo em temas que afetam a
vida e a dignidade da pessoa humana.
Quando
os Poderes Públicos, com quem a Igreja deseja contribuir, estiverem
limitados por visões reducionistas da dignidade humana e da ética, o
homem e a mulher passam a ser considerados como simples objetos de
interesses políticos e econômicos e não um fim em si mesmos.
Causa-nos
repúdio e inquietude uma série de iniciativas do Executivo
(distribuição maciça de preservativos, além de produtos abortivos como
o DIU e as assim chamadas “pílulas do dia seguinte”); de decisões do
Judiciário (como foi o caso da cautelar concedida na Argüição de
Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF 54, no Supremo Tribunal
Federal, permitindo o aborto de fetos portadores de anencefalia) e de
projetos do Legislativo tais como Lei de Biossegurança, já aprovada,
que permite a utilização de embriões para a pesquisa com células-tronco
e várias tentativas de revisão da Legislação Punitiva sobre o aborto,
propondo a sua descriminalização e ampliando os prazos e condições para
sua prática.
Nós,
bispos da Igreja Católica no Brasil, em virtude da nossa
responsabilidade na formação ética e moral do nosso povo, vimos
manifestar publicamente nossa discordância com essas posições dos
Poderes Públicos e também das ideologias, lobbies e eventual manipulação de estatísticas que desviam a própria ciência da verdade integral sobre o ser humano.
“O
desenvolvimento é o novo nome da paz” (Paulo VI). Fazemos votos de que
a pesquisa científica voltada para o bem comum e guiada por princípios
éticos seja incentivada em nosso país. Para tanto, podemos contribuir
diretamente, através das Universidades e outras instituições ligadas à
Igreja Católica.
Todos
os que têm uma responsabilidade política e, de modo especial o Estado,
à luz da ética e obedecendo à Constituição Brasileira, empenhem-se para
que todos os brasileiros, desde a sua concepção até a sua morte
natural, tenham os meios necessários para uma vida digna, saúde,
trabalho, moradia, segurança e, principalmente, todo o respeito que
merecem.
Reivindicamos
dos Poderes Constituídos em todos os níveis, que recusem quaisquer
projetos que atentem contra a dignidade da vida humana e da família,
particularmente no que diz respeito à descriminalização ou legalização
do aborto e da eutanásia.
Recordamos
a carta do Sr. Presidente da República ao Presidente da CNBB e a nós
bispos reunidos em Assembléia, na qual reafirma sua “posição em defesa da vida em todos os seus aspectos e em todo o seu alcance” e assume o compromisso de que seu Governo “não tomará nenhuma iniciativa que contradiga os princípios cristãos”.
Conseqüentemente, confiamos que tais propósitos sejam traduzidos em
gestos concretos, inclusive quando isso exigir o exercício de seu poder
de veto, seja de projetos de lei, seja de destinação de recursos
financeiros.
Pedimos
ao Congresso Nacional que reveja a referida Lei de Biossegurança.
Apoiamos a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN), contra essa
Lei, protocolada pela Procuradoria Geral da República junto ao Supremo
Tribunal Federal.
Exigimos
respeito pelos médicos, enfermeiros, cientistas, legisladores e aqueles
que em nível pessoal e organizado exercem seu direito à objeção de
consciência, recusando-se a colaborar com leis contrárias à vida. Eles
merecem nosso louvor.
Conclamamos
nossas Paróquias e Comunidades a refletirem, em profundidade, através
de cursos, encontros e seminários sobre temas de bioética, e a se
manifestarem, sempre que necessário, sobre o valor da vida em todas as
suas dimensões. Para isso, o documento intitulado “Evangelização e
Missão Profética da Igreja. Novos desafios”, aprovado nesta 43a Assembléia Geral da CNBB, bem como outros Documentos do Magistério da Igreja, oferecem subsídios preciosos.
Para que nossas reflexões levem a um compromisso concreto em favor da vida, propomo-nos a:
a) celebrar, anualmente, o Dia do Nascituro, aos oito de outubro, com a Semana de Defesa e Promoção da Vida,
enriquecida por uma intensa e criativa atividade, que inclua debates,
reflexões e propostas concretas de ações em defesa da vida desde a
concepção até a morte natural;
b) fortalecer
a Pastoral Familiar e as Pastorais Sociais, em particular, a Pastoral
da Criança, e criá-las onde não existam, para um efetivo acolhimento e
acompanhamento de gestantes e crianças e apoio a mães e famílias em
dificuldades ou situação de risco;
c) sensibilizar
as famílias para o apadrinhamento à distância, com visitas periódicas,
mantendo a criança com sua família biológica. Conforme a necessidade,
estimular para a adoção efetiva, especialmente de crianças abandonadas,
ou que morem em orfanatos e similares;
d) constituir,
onde ainda não houver, Comissões Diocesanas de Defesa da Vida e
incentivar a participação de leigos nos Conselhos de Saúde e outros
Conselhos de Direitos;
e) mobilizar
as famílias e comunidades, para que estimulem os vereadores, deputados
e senadores de sua base eleitoral, a que defendam e promovam a vida e a
família.
Que o Deus Uno e Trino, Senhor da Vida, por intercessão da Imaculada
Conceição Aparecida, Mãe de Deus e nossa Mãe, abençoe o povo
brasileiro, particularmente neste momento difícil de sua história, e
nos proteja em nossa luta pela vida.
Itaici, 16 de agosto de 2005
Fonte: CNBB
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