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Neste domingo a palavra de Deus nos propõe a necessidade de perdoar-nos
uns aos outros sem limites de vezes.
Falamos de paz e fazemos a guerra. Se fizéssemos uma pesquisa sobre o
perdão, quantos se declarariam pela vingança, também entre os cristãos?
Se observarmos um pouco nossa vida de todos os dias, quantas vezes nos
colocaríamos atrás da lei, da justiça, para vingar-nos, para fazer
valer nossos direitos, para odiar “legalmente” o outro!. Quantas vezes
usamos truques legais para atingir o parente que tem direito à herança,
o pobre que não tem permissão escrita para mendigar. Usamos a lei para
vingar-nos com mãos limpas. E quantas vezes somos intolerantes com as
pessoas que nos circundam.
Já no Antigo Testamento, o
livro do Eclesiástico 27,33-28,9 nos diz que a sabedoria provém do
Senhor: seu princípio é o temor de Deus. Quanto ao destino do homem e
ao problema das sanções, o Eclesiástico tem as mesmas incertezas de Jó.
Crê na retribuição, sente a trágica importância da morte, mas ainda não
sabe como Deus recompensará as ações do homem.
O rancor
e a ira são pecados que destroem a coexistência entre os homens. A
intervenção salvífica de Deus na história de Israel comporta a
proibição da vingança. O temor de Deus implica o perdão e quem perdoa
põe em prática a lei.
No evangelho de hoje, Mateus 18,
21-35, Pedro, coerentemente com a mentalidade casuística, quer provar
os limites do dever de perdoar: enquanto o judaísmo chegava geralmente
a admitir o perdão quatro vezes, Pedro faz um salto e diz sete. Jesus
responde subvertendo o terrível dito de Lamec (Gênesis 4, 24); como a
vingança de Lamec, assim o perdão proposto por Jesus não tem limites.
Mateus revela aqui um realismo que não sempre será mantido na
comunidade primitiva e futura: se o irmão pecar setenta vezes sete,
tantas vezes é preciso perdoá-lo. A Igreja não é um convento de
impecáveis.
A parábola do servo desapiedado trata das relações entre
colaboradores a serviço do mesmo rei e se liga ao contexto do discurso
sobre a comunidade. No todo é um verdadeiro e próprio comentário
figurado ao pedido do “Pai nosso”. A 1ª Carta de João 4, 20 expressará
no modo mais completo esta idéia: o ser agraciado pelo Pai exige
necessariamente o fazer a graça uns aos outros.
Somos
intolerantes também como cristãos, carregando um certo sentimento de
superioridade que nos dá o achar-nos depositários da verdade. A verdade
é coisa jamais atingida, que todos devemos procurar com humildade e fé.
Outrora, excomungávamos os considerados hereges; hoje deles temos
compaixão. Não há humildade, não existe coragem para o confronto e para
a procura verdadeira, não existe coragem da fé. A unidade na caridade
não é um nivelamento, mas a consciência de ser todos filhos de Deus e
de servi-lo, cada um de nós, no modo que sinceramente cremos o mais
válido..
Em nosso viver
quotidiano existe uma pavorosa falta de coerência e de fidelidade ao
nosso credo.
Como poderemos então ir à igreja no domingo e sentir-nos cristãos? Como
poderemos não ser hipócrita, não perceber a contradição entre o que
dizemos crer e o nosso modo de agir? Como poderemos rezar, se somos
também nós como o servo ingrato da parábola?
Esquecemo-nos que todos somos agraciados, todos somos amados. Se o
nosso amor não consegue superar nem mesmo as normas jurídicas, quer
dizer que não compreendemos o sentido da morte de Cristo por todos
nós. E Paulo apóstolo continuará a advertir-nos em vão, que somos todos
iguais, todos irmãos, todos do Senhor, seja na vida como na morte.
A parábola do senhor misericordioso e do servidor desapiedado encontra
o seu ponto de referência no versículo 33: “Não devias tu também ter
compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” Somente
assim, com efeito, poderá desfazer-se o fatal mecanismo do mal ou da
violência e abrir espirais de esperança e de salvação para cada pessoa.
Tomando nota da situação do homem que fez prender o companheiro por
causa de um pequeno débito, Jesus propõe e recomenda conceder ao
próprio irmão sempre novas possibilidades.
Jesus leva a
sério cada pessoa assim como é e oferece a possibilidade de recuperar o
sentido da própria vida e de abrir-se a novos promissores horizontes.
Os pensamentos de Deus não são semelhantes aos nossos. A sua lógica não
é como a nossa a exigir quando se trata de cobrar o pequeno débito do
outro. É sim a loucura do amor que toma a iniciativa de oferecer o
perdão na infinita misericórdia de seu amor.
O
evangelho tem uma característica essencial: o amor e o perdão. É
preciso perdoar sempre. Nosso coração encontrará a paz e repousará
tranqüilo e livre.
Publicado no Jornal A TARDE edição 11.09.05
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