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O bispo católico de Barra. Ba, Dom
Luiz Flávio Cappio, de 59 anos, no momento em que eu escrevo estas
linhas, está no seu décimo dia de greve de fome. Talvez tenha
interrompido quando o artigo estiver publicado. Mas, como todo o gesto
de cunho religioso e político, suscitou e suscita controvérsias e
comentários de quem procura compreender, de que não quer compreender e
de quem não se pergunta porque um cristão se arriscou a morrer para que
não tirem água do rio. Uma jovem me dizia : - "Há coisas bem mais
importantes para um bispo morrer do que por 1% da água do Rio São
Francisco". É como a notícia chegou até ela.
Faz oito dias que estou na região e até agora não tinha ousado comentar
a atitude ousada e profunda de Dom Luiz, interrompa ou não seu jejum.
Para nós, católicos, jejum e greve de fome não são novidades. Já
aconteceu em muitos lugares do mundo. Budistas e católicos conhecem bem
este instrumento.Outros cristãos também a utilizam. Novidade pode ser o
motivo claramente político da questão.
O governo quer a transposição já, depois de séculos de promessas. Fez
disso uma questão de honra. Dom Luiz, mais os movimentos de Igreja,
várias Ongs, muitas universidades, outras igrejas cristãs, vastos
segmentos do povo, estudiosos da questão e diversos políticos querem
primeiro a revitalização: a revitalização do rio e das matas ciliares e
só então a transposição. Não é que não queiram a transposição. Seriam
loucos, se não a quisessem. Mas não a querem da forma como está sendo
feita, porque não vai chegar ao pobre que tem sede. E, quando chegar,
vai custar caro demais. Além disso, garantem que o projeto é mais um
empurrão para a agro indústria do que para o pequeno agricultor e a as
famílias sem água.
Falam com clareza dos poderosos lobbies do cimento, do ferro e
das agro-indústrias. Alegram-se porque um bispo católico com 40 anos de
conhecimento da vida e do povo ao redor do rio decidiu tomar a frente
dos protestos e apostar a sua vida no projeto do povo que não é o mesmo
do governo.
Na minha turnê falei com três prefeitos, cinco deputados,
diversos vereadores, três engenheiros, secretários de obras,
professores universitários, bispos, jornalistas e cidadãos e para mim
está claro que uma é a opinião de quem se guia pelo que diz um certo
tipo de mídia e outra a dos que há anos analisam a política das águas
no nordeste. Eles dizem que, para um projeto político que mais
beneficiará os poderosos do que o povo é preciso uma resposta política
de quem sabe o que houve, o que há e o que certamente haverá, se a
transposição for feita sem a revitalização.Será apenas mais um capítulo
da famigerada indústria da seca. -"Quem nos acusa de favorecer a
indústria da não-água é que a favorece, porque esta água não
chegará aos sedentos. Vai chegar aos produtores." dizem.
Dizem que é possível jogar um rio no São Francisco antes de
revitalizá-lo. Não engolem a história de que depois se fará a outra
parte: revitalizar e bombear de volta a água que deságua no mar depois
de Penedo. Como tudo no Brasil, apostam que o governo atual fará a
sangria do rio e não injetará mais água nele nem bombeará as águas da
jusante. Não acreditam na sinceridade do projeto.
Os que querem o projeto como está, usam do argumento de que o bispo e
outros retrógrados sem alma estão contra o envio de água para 12
milhões de pobres. Os que estudam a fundo a política de recursos
hídricos e as políticas do nordeste garantem que não são 12 milhões,
que a água não chegará a eles e que o rio sofrerá um assoreamento de
tal monta que trará mais pobreza do que benefícios. Quem conhece a
história do rio sabe que não será 1%, não será pouca coisa e que a
demanda aumentará e mais água será bombeada para os projetos à sua
margem, empobrecendo o rio. Como sempre, pedem dinheiro para os pobres
para beneficiar grandes empresas. Seria a fase dois da indústria
da seca. Mas tem a mesma perversidade. Estranham que dois nordestinos a
queiram dessa forma.
É o que tenho ouvido. Imagino que Lula e seus ministros tenham outros
fortes argumentos. Nenhum dos lados estão brincando. Numa espera de
três horas no aeroporto e em viagens de conferências e shows, ouve-se
muito mais do que lendo os jornais. Relato o que ouvi. Dom Luiz não se
arriscou a morrer de fome por causa de 1% das águas do rio. Ele sabe
aonde tais águas irão, se o atual projeto não for mudado. Na torneira
do pobre é que não haverão de pingar. Nessas horas uma pressão política
ajuda. Democracia supõe gestos exigentes.
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