No dia 09 de
janeiro de 2005 o New York Times publicou um importante artigo
intitulado “Salvando crianças judias, mas a que preço?”, no qual acusa
o Vaticano e o papa Pio XII de terem dado instruções para não permitir
que crianças judias, abrigadas por católicos durante a guerra,
retornassem às suas famílias.
Certamente uma acusação séria, se verdadeira. Mas não é.
No dia 10 de janeiro, o painel
independente que investiga uma reportagem do programa da CBS “60
Minutes”, no caso que ficou conhecido como “Rathergate”, chegou à
conclusão que a transmissão do programa foi injusta e equivocada, que
foi ao ar de maneira precipitada sem muito exame, que não passou pela
mais elementar checagem de fatos e que, em resumo, não seguiu os
padrões de honestidade e acuidade. Como conseqüência quatro executivos
da CBS foram demitidos. Dan Rather pediu demissão.
Como nós vamos demonstrar, o
artigo publicado pelo New York Times foi injusto, equivocado e não
passou pela mais elementar checagem de fatos. Além disso, é
extremamente difamatório. Por causa disso tanto seus autores, Elaine
Sciolino e Jason Horowitz, quanto o editor executivo do jornal, Bill
Keller, devem ser demitidos.
Na verdade, em seu artigo, o New
York Times estava ecoando acusações similares baseadas no mesmo
documento, feitas por Alberto Melloni no jornal italiano Il Corriere
della Serra no dia 28 de dezembro de 2004.
O sensacionalismo de Melloni,
repetido pelo New York Times, já tinha sido desmascarado por dois
italianos especialistas em Pio XII, Andrea Tornielli e o Prof. Matteo
L. Napolitano (co-autores do livro “Il Papa che salvo gli Ebrei”).
Num artigo de primeira página
intitulado "Ecco il vero documento su Pio XII e i bimbi ebrei,” (O
verdadeiro documento de Pio XII e as crianças judias) publicado no Il
Giornale, um grande jornal italiano, Tornielli examina toda a
controvérsia comparando o verdadeiro texto do documento original do
Vaticano com as alegações de Melloni sobre um dúbio memorando francês
baseado nesse documento, revelando as gritantes diferenças entre os
dois, mostrando que as alegações de Melloni contra Pio XII eram falsas.
Vamos dar uma olhada na forma e no conteúdo do documento e suas alegações incriminadoras:
A acusação é feita com base em
“documento de uma página, datilografado, datado de 23 de outubro de
1946, que foi descoberto nos arquivos de uma igreja francesa fora de
Paris e colocado à disposição do New York Times, com a condição de que
a fonte não fosse revelada”.
Notamos que o arquivo no qual
estava o documento não está identificado e nos perguntamos porque o
descobridor de um documento histórico quer permanecer no anonimato.
O New York Times já tinha
publicado o artigo em seu website no dia 8 de janeiro, assim como o
documento incriminador identificado como “Carta de 1946, do Vaticano”.
O documento incriminador foi,
finalmente, trazido a público pelo jornalista Andréa Tornielli e
publicado em 11 de janeiro pelo jornal milanês “Il Giornale”.
Tornielli revelou que o documento
estava sendo mantido no Centro Nacional de Arquivos da Igreja Francesa,
arquivo do secretariado do Episcopado francês, posição “7 CE 131”.
Ele também revelou que o documento
foi escrito em francês, numa folha de papel, em cujo canto superior
esquerdo estava datilografado “Nunciatura Apostólica da França”, o
número de referência 4516 e a data, 23 de outubro de 1946. Tornielli
também revelou que o documento não está assinado e, portanto, que seu
autor é desconhecido. Também existe no alto da folha uma anotação
manuscrita onde se lê “Documento levado ao conhecimento do eminente
Cardeal Gerlier em 30 de abril de 1947”. Pierre Gerlier era o arcebispo
de Lyon.
O texto do documento é o que se segue:
“Com relação às crianças judias
que, durante a ocupação alemã foram confiadas a instituições católicas
e que as instituições judaicas estão querendo que sejam confiadas a
elas, a Congregação para o Santo Ofício tomou uma decisão que pode ser
resumida nos seguintes pontos:
1.
Evitar sempre que possível responder às autoridades judaicas por
escrito, preferindo fazê-lo oralmente;
2.
Em todos os casos em que seja necessário responder, é preciso dizer que
a Igreja precisa estudar cada caso separadamente;
3.
As crianças que foram batizadas não podem ser confiadas a instituições
que não estão em posição de assegurar a elas uma educação cristã;
4.
Em relação às crianças que perderam seus parentes, dado que é a Igreja
que tem tomado conta delas, não seria apropriado que elas fossem
abandonados pela Igreja, ou confiadas a pessoas que não têm direitos
sobre elas, pelo menos até que as crianças possam decidir por si
mesmas. Isso, obviamente, para as crianças que não foram batizadas;
5.
Se as crianças foram entregues à Igreja por parentes que agora as
queiram de volta, elas podem ser devolvidas a eles, contanto que não
tenham sido batizadas”.
Pontue-se que essa decisão da Congregação para o Santo Ofício foi aprovada pelo Santo Papa.
A primeira impressão, mesmo para
não-iniciados, é que o documento não é do Vaticano, pois está
endereçado, em francês, para a Nunciatura Apostólica na França. Além
disso, o Vaticano se correspondia em italiano, não em francês, com o
Arcebispo Ângelo Roncalli, que então era Núncio na França.
Portanto, essas duas pistas, além
do fato de que o autor do documento é desconhecido e que o documento
não está assinado, deveria ter feito o New York Times, ou qualquer
outro jornalista sério, pensar duas vezes antes de anunciar que o
documento é “uma carta do Vaticano”.
Além disso, Tornielli ainda
informa que o documento não tinha apenas uma página como dito pelo New
York Times, mas três. Duas páginas tinham desaparecido de maneira
misteriosa durante a investigação do New York Times e, magicamente,
reapareceram quando Tornielli achou o documento nos arquivos. Pontue-se
que as três páginas estavam grampeadas.
O documento original de três
páginas pode ser visto na página da internet do professor napolitano:
http://www.vaticanfiles.net/intelligence2.htm.
A segunda página é um memorando datilografado com o seguinte título:
“O problema das crianças judias recebidas por instituições de caridade católicas durantes a guerra”.
Resposta dada pela Congregação
para o Santo Ofício e comunicada por sua eminência, o Monsenhor Tardini
à Nunciatura Apostólica em Paris, com a carta datada de setembro de
1946.
Segue-se em italiano as seguintes instruções:
“Os mais eminentes padres
decidiram que, se possível, não deve haver resposta à solicitação do
Grande Rabino de Jerusalém. Em todo o caso, se for necessário dizer
algo, deve-se fazê-lo oralmente, dado o perigo de abuso e distorção de
tudo o que seja escrito pela Santa Sé sobre o assunto. Eventualmente,
será necessário explicar que a Igreja deve fazer suas próprias
investigações e observações para poder julgar caso por caso, sendo
evidente que as crianças que foram batizadas não podem ser confiadas a
instituições que não possam garantir a elas uma educação cristã. Além
disso, as crianças que não foram batizadas, e que não têm mais parentes
vivos, tendo sido confiadas à Igreja que as recebeu, não podem ser
abandonadas pela Igreja ou entregues a quem não tem direito sobre elas,
até que elas possam decidir por si mesmas. Seria diferente se as
crianças fossem requisitadas por seus parentes. A decisão dos eminentes
padres e o critério aqui apresentados foram remetidos ao Santo Padre
numa audiência em 28 de março e Sua Santidade se dignou a prover sua
augusta aprovação”.
A terceira página é uma carta
datilografada, parecida com a primeira página, e também contém o número
de referência 4516. Também está datada “Paris, 23 de outubro de 1946” e
escrito no canto superior esquerdo Nunciatura Apostólica da França.
Está escrito em francês:
“Com relação às crianças judias
que, durante a ocupação alemã, foram confiadas a instituições e
famílias católicas e que instituições judaicas estão reclamando que
sejam confiadas a elas, a Congregação para o Santo Ofício tomou uma
decisão que está aqui registrada integralmente”:
Segue-se o mesmo texto em italiano do memorando da página 2.
“Excertos da carta de Sua Excelência, o Monsenhor Tardini, datada de 28 de setembro de 1946, Prot. 6972-46”.
Se presumirmos que o documento é autêntico, o que se segue pode ser assim dito:
·
Monsenhor Tardini escreveu uma carta com data de 28 de setembro de 1946
para o Monsenhor Roncalli (o futuro papa João XXIII), o Núncio
Apostólico na França, na qual é comunicada a decisão da Congregação
para o Santo Ofício na questão de como lidar com as instituições (e não
famílias) judaicas que pediam a guarda das crianças judias.
·
A Nunciatura na França – se o Monsenhor Roncalli teve algum
envolvimento pessoal ou se omitiu a respeito disso, nada se sabe; mas
não há evidência de que ele teve qualquer envolvimento pessoal –
escreveu uma carta, datada de 23 de outubro de 1946, destinada
aos bispos franceses e que reproduz na íntegra a decisão da Congregação
para o Santo Ofício, aprovada pelo Santo Padre. Essa é a página 3 do
documento.
O documento declara expressamente
que essas instruções não deveriam ser seguidas nos casos em que as
crianças judias estejam sendo reclamadas por parentes. Em outras
palavras, essas crianças, tendo sido ou não batizadas, deveriam ser
reunidas com suas famílias.
O documento incriminador citado
pelo New York Times, é na melhor das hipóteses, se autêntico, uma
tradução bem intencionada, feita por só Deus sabe quem, resumindo a
decisão para qualquer um que não entendesse o original em italiano, que
foi transmitido na íntegra.
Entretanto, o quinto ponto do
texto em francês que declara que as crianças podem retornar a seus
lares desde que não tenham sido batizadas, não é achado em lugar algum
do original italiano, aprovado pelo papa e que diz justamente o
contrário.
A decisão que recebeu a aprovação do Santo Padre foi que as crianças judias deveriam ser devolvidas às suas famílias judias.
Dessa forma, a acusação do New
York Times de que o documento continha uma ordem para não permitir que
as crianças judias que tinham sido batizadas voltassem para a casa dos
próprios pais é sem fundamento e difamatória em sua essência. Não é
apenas a ausência da mais elementar checagem dos fatos, o jornal e/ou
suas fontes não sabiam da existência, ou suprimiram deliberadamente, as
duas páginas “perdidas” do documento achado no arquivo francês.
Como as três páginas estavam grampeadas é difícil imaginar como a segunda e a terceira página não foram vistas.
O New York Times também foi mais
longe, já que usou essa “grande descoberta” como pretexto para atacar a
reputação e o histórico do Papa Pio XII e da Igreja em seus esforços
para salvar judeus dos campos de concentração nazistas.
Citando um historiador francês,
Etienne Fouilloux, o New York Times escreve que “Este documento é um
indicativo da tendência existente no Vaticano em tratar os problemas
dentro de uma estrutura jurídica, sem se preocupar se seres humanos
estão envolvidos. Mostra que o massacre de judeus não foi visto pela
Santa Sé como algo importante”. (Pontue-se que Etienne Fouilloux é um
colaborador de Alberto Melloni, o qual publicou originalmente essas
alegações na Itália e que agora está completamente desacreditado).
O Rabino-Chefe da Palestina, Isaac
Herzog, tinha outra opinião. Numa carta endereçada a Pio XII em março
de 1946 ele escreve: “O povo de Israel lembra muito bem, com a mais
profunda gratidão, a ajuda dada pela Santa Sé às pessoas que sofreram
durante as perseguições nazistas”, e conclui com uma oração: “Se Deus
quiser, a história lembrará que quando tudo estava negro para o nosso
povo, Sua Santidade acendeu a luz da esperança para eles”.
Na verdade, essa foi a carta do
Rabino Herzog, na qual ele expressou a Pio XII, o desejo de que as
crianças judias salvas pela Igreja fossem devolvidas às instituições
judaicas e que causou a decisão da Congregação para o Santo Ofício. O
texto completo da carta do Rabino Herzog está disponível em
http://www.vaticanfiles.net/intelligence3.htm.
Além disso, o Dr. Leon Kubowitzki
(mais tarde, Aryeh Kubovy), Secretário Geral do Congresso Mundial
Judaico, também visitou o Vaticano para discutir o mesmo assunto. No
relatório oficial sobre o assunto, o Congresso escreveu: “Foi essencial
obter a concordância da Igreja Católica em liberar aqueles que foram
protegidos durante os anos de perseguição... no dia 21 de setembro de
1945 ele (Kubowitzki) foi recebido numa audiência privada pelo papa Pio
XII e, ao mesmo tempo em que demonstrava a gratidão do povo judeu pela
Igreja haver piedosamente escondido muitas vítimas da ferocidade
alemã, pediu que nenhum obstáculo fosse posto ao retorno das
crianças para a comunidade de seus falecidos pais. Garantiram-lhe que
uma política extremamente humanitária seria seguida nesse assunto tão
delicado”. (Unidade na Dispersão – A História do Congresso Mundial
Judaico [New York: Institute of Jewish Affairs of the World Jewish
Congress 1948] p. 303).
São conhecidos vários casos nos
quais o papa Pio XII teve que intervir pessoalmente para assegurar que
suas instruções estavam sendo seguidas. Esses casos mostram um homem
compreensivo e piedoso que respeitou os direitos fundamentais das
crianças judias e de seus parentes, provas que contradizem diretamente
as recentes alegações contra o papa do período da guerra.
Leokadia Jaromirska, uma polonesa
católica que salvou crianças judias, queria ficar com uma menina que
ela protegeu durante o Holocausto. A luta pela custódia dessa criança é
contada num importante livro de Peter Hellman Avenue of the Righteous
(Avenida dos Íntegros - New York: Atheneum, 2004). Descrevendo seus
esforços para ficar com a menina Bogusia, mesmo depois que o pai dela,
Jonisz, sobrevivente, voltou para pegá-la, o autor escreve: “Numa
tentativa desesperada de levar as autoridades para o seu lado, Leokadia
escreveu uma carta a Pio XII pedindo seus sábios conselhos no caso de
Bogusia. Em menos de um mês veio uma resposta que acabou com todas as
suas esperanças. Ela foi instruída pelo papa a devolver a menina ao
pai. Se ela mantivesse a criança a força, ou raptando-a, mais tarde ela
iria se arrepender visto que, eventualmente, a criança descobriria a
verdade, na escola ou em algum outro lugar. Era seu dever como católica
não só devolver a criança, mas fazer isso com boa vontade e amizade”.
(Pág. 237).
Na crítica literária do New York
Times, o livro foi descrito como digno de ser lido apenas pela história
de Leokadia Jaromirska e o bebê judeu que ela chamou de Bogusia.
Aparentemente os editores do jornal e os redatores que escreveram o
artigo que atacava Pio XII não lêem a crítica literária do próprio
jornal...
Em outro caso relatado pela Irmã
Grazia Loparco, professora na Academia Pontifícia para
Educação Científica, uma mãe judia e seus dois filhos encontraram
refúgio no Convento das Missionárias Franciscanas Irmãs de Maria, na
Via Balduína, em 1944. Depois de algum tempo pediu que ela e seus
filhos fossem batizados. O sacramento foi realizado, a pedido deles, na
Igreja de Nossa Senhora das Graças.
Após a libertação de Roma em 1945,
a mãe saiu do convento deixando seus filhos à guarda das freiras. Em
novembro de 1947 ela retornou ao convento com representantes de uma
organização judaica e pediu seus filhos de volta. Tinha mudado de
posição e voltado à fé judaica.
Sem saberem o que fazer, as
freiras pediram conselho ao Vicariato de Roma, que por sua vez
transmitiu o pedido à Secretaria de Estado. A resposta foi imediata. Em
24 horas foi marcada uma audiência com o papa para tratar
especificamente do caso. Não era o caso de um batismo forçado ou
realizado contra a ordem da Igreja (A Igreja deu ordem, durante a
guerra, de não batizar crianças judias que lhe tivessem sido
confiadas.), mas de um batismo solicitado explicitamente pela mãe, para
ela e seus filhos.
Como respondeu o papa Pio XII? Ele
ordenou que as crianças fossem devolvidas à mãe imediatamente. (Volume
1, 2004, Rivista di Storia della Chiesa in Italia (Vita e Pensiero).
Uma pergunta vem imediatamente à
mente: se Pio XII ordenou pessoalmente a devolução de crianças judias a
seus parentes, como é possível que ordens diferentes, se não opostas,
fossem dadas em seu nome? O Dr. Leon Kubowitzki, o Secretário-Geral do
Congresso Mundial Judaico talvez tenha a última palavra sobre o
assunto: quase vinte anos após haver se encontrado com Pio XII e ter
ouvido dele uma promessa de ajuda, Kubowitzki deu uma palestra em Tel
Aviv, no dia 7 de fevereiro de 1964. Nessa palestra ele declarou que
“agora eu posso afirmar que não conheço nenhum caso em que uma
instituição católica se recusou a devolver crianças judias”. (Citado
por Pinchas Lapide em Three Popes and the Jews [New York: Hawthorn
Books] p. 210).
Nesse livro, Lapide conclui após
anos de pesquisas e de entrevistas por ele reunidas, que Pio XII
“salvou pelo menos 700 mil, ou mais provavelmente, 860 mil judeus da
morte certa nas mãos de nazistas”. (Pág. 214)
Fonte: www.midiasemmascara.org
Tradução: Marcelo Moura Coelho