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Meus encontros com o Papa João Paulo II -Cardeal Eugenio de Araujo Sales PDF Imprimir E-mail
Escrito por Silas   
20-Out-2003
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Celebra-se em todo o mundo o Jubileu de Pontificado de João Paulo II – 25 anos à frente da Igreja Católica.

Conheci-o durante o Concílio Ecumênico Vaticano II, em 1964, na grande sala Bolonha, do Palácio Apostólico. Pertencíamos à mesma Comissão Mista que estudou o texto da Constituição Pastoral “Gaudium et Spes” sobre “a Igreja no mundo de hoje”. Eu, então Administrador Apostólico da Sede Primacial do Brasil, Salvador e ele, Arcebispo de Cracóvia, na Polônia. No Concílio, integrava a Comissão Teológica e eu havia sido eleito para a Comissão para o Apostolado dos Leigos, que trabalhou em dois documentos: Decreto “Inter Merífica”, “sobre os Meios de Comunicação Social”, e “Apostolicam Actuositatem”, sobre “O Apostolado dos Leigos”. Em 1963, a Comissão coordenadora dos trabalhos conciliares determinou que a Comissão Teológica e a do Apostolado dos leigos trabalhassem juntas, formando a chamada Comissão Mista, no documento que veio a ser denominado “Gaudium et Spes”. Os integrantes da primeira, por ordem de precedência, ocuparam as poltronas à direita da presidência e os da segunda, à esquerda. Sentei-me em frente do Arcebispo de Cracóvia. O que era discutido em Plenário passava para essa Comissão, que se reunia muitas vezes não somente na parte da tarde durante as sessões do Concílio, mas por convocação em outros períodos do ano.

Juntos, participamos dos Conclaves dos quais saíram eleitos João Paulo I em 1978, e, a seguir, no mesmo ano, quando ele, Cardeal de Cracóvia, foi eleito o Sucessor de Pedro. Meses depois viajei a Cracóvia com o objetivo específico de conhecer o ambiente em que ele nasceu e exerceu os ministérios sacerdotal e episcopal. Fiquei hospedado na mesma residência em que viveu. No 41º Congresso Eucarístico Internacional, realizado em 1976, em Philadelfia, nos Estados Unidos, ficamos alojados no mesmo Seminário da Arquidiocese, com alguns outros Cardeais e, juntos, participamos das cerimônias.


A partir de sua elevação ao Pontificado, os contatos pessoais foram freqüentes, em razão dos meus encargos na Cúria Romana e viagens. Sempre que ia a Roma, estava com João Paulo II. Com essa experiência, procurei entender os principais aspectos de sua personalidade expressos nos seus numerosos documentos, orientadores da vida da Igreja.

Sistematicamente, como fazia com Paulo VI, após o Cardinalato, sempre tinha audiência com ele a cada viagem a Roma. Li todos os documentos emanados do Santo Padre, sem exceção. Isto era, e é feito ainda hoje, através de “L´Osservatore Romano” onde é publicada, toda a documentação: Cartas Encíclicas, discursos, diretrizes, etc. Tal procedimento me ajuda a seguir a rota traçada pelo timoneiro da Barca de Pedro. Outrossim, me proporciona muita serenidade nas turbulências e incompreensões. Nos freqüentes contatos pessoais esclarecia dúvidas e firmava posições.

A grande celebração jubilar nos leva a recordar alguns aspectos marcantes da trajetória vitoriosa de João Paulo II à frente da Igreja Católica.

Comecemos pelo grande esforço ecumênico, em busca da unidade dos cristãos. A 2 de setembro último, o Patriarca ortodoxo da Romênia, Teoctisto, lembrando os 25 anos do Pontificado do Papa, reconheceu, de público, que ele ”pronunciou palavras que os ortodoxos esperavam há séculos”. Recordou também a primeira visita de um bispo de Roma a um país ortodoxo, a Romênia, em 1999. As visitas anuais de delegações credenciadas pelo Patriarca de Constantinopla por ocasião do Dia de São Pedro e São Paulo e a retribuição de Roma ao Chefe da comunidade ortodoxa. O mesmo se diga do intercâmbio com Moscou. A Carta Encíclica “Ut Unum Sint”, de 25 de maio de 1995, é um entre tantos outros marcos do esforço em aplicar o decreto “Unitatis Redintegratio”, sobre o Ecumenismo.

A defesa da dignidade do homem tem ocupado grande espaço entre as mais variadas atividades em favor do respeito à criatura feita à imagem de Deus. Esse longo caminho, de profícuo trabalho, tem início com sua primeira encíclica “Redemptor Hominis”. Em maio passado foi realizado um Congresso Internacional que teve como tema “João Paulo II: XXV anos de pontificado. A Igreja a serviço do homem”. Acrescente-se o ministério internacional de João Paulo II em favor da paz. É notório seu constante esforço nos últimos tempos em prol do reconhecimento explicito das raízes cristãs da Europa, como condição para assegurar êxito à União Européia. Romano Prodi, presidente da Comissão Européia, reconheceu, recentemente, o vínculo inviolável entre Europa e cristianismo, afirmando: “a história da Europa e a história do cristianismo estão indissoluvelmente unidas (...) e deve ser reconhecida no Tratado Constitucional”. Esse objetivo tem sido alvo de intensa atividade do Papa.

As viagens internacionais (102 fora da Itália) possibilitaram ao Sucessor de Pedro levar aos quadrantes da terra a mensagem do Evangelho a um mundo distanciado de Deus. Recordamos os momentos de grande espiritualidade em suas visitas ao Brasil e ao Rio de Janeiro, em particular. E elas não se limitam ao meio católico, mas abrangiam, dentro de um espírito ecumênico e de paz com outras religiões, a milhões de habitantes que tiverem a graça de participar, pessoalmente ou pela televisão, desses momentos de alegria e vitalidade religiosa.

A proteção aos fracos e injustiçados se revela de modo admirável na defesa da vida, contra o aborto. “Não matarás” exorta ele na Encíclica “Evangelium vitae”, datada de 25 de março de 1995, sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana”. O trabalho humano tem o reconhecimento de sua dignidade na Encíclica “Laborem Exercens”, publicada a 14 de setembro de 1981.

E que dizer da vida interna da Igreja? Lembro, apenas, o imenso esforço pela santidade de seus integrantes. O reconhecimento de exemplos a serem imitados, com o elevado número de canonizações e beatificações que falam eloqüentemente e aí incluímos os brasileiros elevados à honra dos altares.

A dor, a enfermidade e os sofrimentos formam uma coroa de espinhos a quem dedicou 25 anos de sua existência ao pastoreio supremo da Igreja e da Humanidade.

Todos os Cardeais foram convidados para um reconhecimento público por ocasião das festas jubilares. A resposta, nossa e de todos os fiéis, deve ser obediência plena e magnânima às suas diretrizes. Este será o melhor presente a quem serve a Jesus Cristo, em sua Igreja, de modo exemplar e generoso.

Fonte: CNBB

 
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