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Constitui lugar-comum em nosso pensar a questão dos limites do conhecimento, o aparecimento de uma fronteira que fica cada vez mais próxima, à medida que a inteligência humana descortina novos fenômenos. Pois, não temos a vida plena e nossa fragilidade chega aos limites da morte, e, no que se refere ao mundo exterior, a realidade física do universo é extremamente complexa e não aceita explicações fáceis. Não obstante, este é o nosso mundo e nós somos este corpo, na medida proporcional ao alcance de nossas percepções. Fazemos dele nossas preocupações com relação à sua sobrevivência, sua aparência saudável, seus condicionamentos inelutáveis à velhice e à morte. Então, nesta questão dos limites de nossa compreensão das coisas, o que fica para ser revelado é o indício da constatação de uma realidade sentida, mas encoberta, insinuada, fugidia; presente, mas ao mesmo tempo ausente de nossa experiência direta. Chamaremos tal intuição ser-do-limite, ou tentativa de encontrar um fundamento comum a todas as nossas discrepâncias. Tudo isto ocorre em função de nossa natureza espiritual, que transcende os limites normais de nossa materialidade corporal. Ora, o reconhecimento por nós de que há uma dimensão simbólica do espírito que, por bem ou por mal, nos torna seres frustrados em relação aos nossos limites, da mesma forma, pode gerar perspectivas de transposição virtual de nossas carências, abrindo assim um panorama fértil de intuições que já não dependem daqueles condicionamentos, pois tem como limites próprios apenas nossa capacidade de intuí-los. O mundo do espírito é, assim, a marca registrada humana para a afirmação ou negação de nossos limites existenciais, dentro de uma perspectiva de esperança e superação de tudo que possa se nos apresentar como negativo. Contudo, convém deixar claro que o mundo espiritual do simbólico não é apenas uma dimensão onírica (de sonhos), mas deve ser entendido como a própria constatação de que ele possui uma realidade ontológica sui generis, como pano de fundo de uma revelação parcialmente encoberta, mas que se configura real, presente e desafiadora. Eis, portanto, delineado o nosso destino: dominado pela atmosfera simbólica do espiritual, nossa própria existência limitada há de ser uma resposta condizente com nossa coragem e grandeza em confrontá-lo. Só assim nosso viver se justifica, como mais uma tentativa do que parece ser igual a cada nova geração, mas que na verdade traz em si o repto de uma tarefa transformadora, na concretização de altos ideais de realização em favor de si e da própria humanidade. O sentimento de que algo exterior nos move e nos inspira, deve se tornar o parâmetro limite de nossas incoerências e de nossos desafios. Se o mundo do espírito é o do mito e das utopias, importa agora considerá-los revelação expressa de uma realidade que nos cabe interpretar e compreender, dimensionando o verdadeiro alcance de suas sugestões em nossa vida, pois a interpretação que a cultura moderna nos oferece dessas manifestações não é o adequado, na medida em que os coloca apenas no nível das ideologias, quando, na verdade, eles devem ser considerados como peças- chave de uma manifestação espiritual que nos é imposta pela própria evolução histórica e cultural da humanidade. * Antônio Celso Mendes é professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e pertence à Academia Paranaense de Letras.
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