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As figurinhas do meu presépio PDF Imprimir E-mail
Escrito por Adriano F Oliveira   
12-Dez-2005
É de tradição em minha casa que o Presépio só se guarda passado o dia 13 de Janeiro, dia em que se comemora o Baptismo de Jesus. Depois as imagens e as «figurinhas» são arrumadas com todo o cuidado para não se estragarem.

Mas, é certo e sabido que todos os anos quando vou buscar as «figurinhas» que complementam o meu Presépio, encontro sempre alguma que se partiu ou pelo menos se esbotenou. Eu digo «as figurinhas» que complementam o meu Presépio, porque para mim o fundamental é o Menino Jesus, Nossa Senhora e S. José.

Este ano não foi excepção: ao desembrulhar as «figurinhas» e encontrando algumas estragadas, eu que pensava que as tinha acomodado cuidadosamente o ano passado, dei comigo a pensar em algo muito diferente, mas com uns certos traços de comum.

As «figurinhas» do meu Presépio, ainda que restauradas com cola, não impressionam pois não deitam sangue, apesar das suas «feridas», mas há outras «figurinhas» que, essas sim, sangram e de que maneira.

Refiro-me às crianças que pelo mundo fora, e parece que cada vez mais, são mortas ou estropiadas nos teatros de guerra de que não são culpadas. Aqueles que para tal contribuíram, com a venda, sem escrúpulos, de armas e munições, estão bem aconchegados nas suas casas longe do lugares dos conflitos, auferindo lucros que ensanguentam as mãos pois que foram adquiridos à custa do sangue inocente.

Refiro-me também às que sofrem horrores com a fome e o frio e das quais não corre o sangue vermelho, mas esse outro transparente das lágrimas derramadas por tanto sofrimento, enquanto que muitos dos responsáveis por essa miséria se banqueteiam até à saciedade e se abafam com todo o conforto.

Refiro-me às que ficam estropiadas no corpo, não só pelas minas que pululam no chão das suas terras, mas também pela prostituição a que as obrigam para angariar dinheiro para sobreviver.

Refiro-me, por último, às que são assassinadas no seio materno, mesmo antes de poderem soltar um vagido, receber uma carícia ou esboçar um sorriso.

Quando acabei de pensar em tudo isto, a pena que senti por ver partida ou esmurrada uma «figurinha» das minhas, que guardei com tanto cuidado para não se estragar, mudou totalmente; gosto de a ver assim estragada no meu Presépio pois me faz sentir pena, mas verdadeira e muito pungente, pelo pouco valor que merece a vida humana nos tempos que nos é dado viver e se dizem tempos evoluídos, quando afinal são tempos de barbárie.
 
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