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Dia 25, é dia de Natal. Comemoramos o
acontecimento que há 2000 anos fez descer à terra o Filho de Deus feito
Homem, nascido de Maria virgem.
Com as palavras do título destas linhas, S. Lucas no capítulo 2,
versículo 7 do seu Evangelho resume o nascimento de Jesus. Isto
aconteceu porque Maria e José foram obrigados por uma ordem de César
Augusto a deixar a sua terra – Nazaré – para ir a Belém, por serem da
linhagem de David, para se recensearem. Ora Maria estava grávida e
quase no fim do tempo e ao chegar a Belém deu à luz o seu Filho
primogénito.
Quando dizemos que deu à luz o seu filho primogénito, não queremos
insinuar que Maria teve mais filhos, mas simplesmente que nunca tinha
tido nenhum. É dogma de fé que Maria foi virgem antes do parto, no
parto e depois do parto. A linguagem da época é que atraiçoa, mas
podemos confirmar isso com o que conta Salvador M. Iglesias no seu
livro O Evangelho de Maria. No sepulcro de uma jovem mãe hebreia, que
morreu de parto no Egipto no ano 5 antes de Cristo, pode ler-se esta
frase: “O destino conduziu-me ao termo da minha vida entre as dores de
parto do meu filho primogénito”.
O Natal é uma data que não passa em claro a crentes e não crentes, pois
que se andássemos tão distraídos que isso viesse a acontecer, muitos
no-lo lembrariam. São os que se empenham em ornamentar as ruas e
iluminar profusamente as montras dos estabelecimentos comerciais. O seu
fim, que eu não censuro, não é propriamente festejar o nascimento de
Jesus, mas atrair clientes e assim aumentar o seu negócio, uma vez que
é de tradição, nesta altura trocar prendas em sinal de festa e amizade.
A Igreja Católica dedica quatro semanas a preparar o Natal – é o tempo
do Advento; a sociedade civil, pelo menos este ano, antecipou-se – em
Outubro já as ruas estavam a ser preparadas para receber as
iluminações. E porquê? Porque vivemos numa sociedade de consumo em que
se gasta mais do que se deve e do quu se pode. Ora o Evangelho diz-nos
que Maria “(...) envolveu (o Menino Jesus) em panos e deitou-o numa
manjedoira, por não haver lugar para eles na hospedaria. Lugar havia,
mas não «para eles». O estalajadeiro ao ver o estado de Maria e a
pobreza do casal não quis complicações e mandou-os embora. A pressa com
que Maria e José saíram de Nazaré para Belém não permitiu a Nossa
Senhora levar tudo o que necessitava para aconchegar o Menino. Por isso
o nosso consumismo quando exagerado é contrastante, para não dizer
escandaloso, face à pobreza do nosso Deus.
Mas nesta época de Natal há muita coisa contraditória; vou tentar referir-me a algumas.
Muitos pais e educadores não querem dizer às crianças pequeninas que é
o Menino Jesus que traz as prendas, argumentando que as crianças quando
souberem a verdade chamam mentirosos a quem os enganou e perdem a
confiança que neles depositavam. Nada de mais falso. Conseguem sim, não
deixar as crianças viver um sonho muito belo que fez o encanto dos
adultos da minha geração. Mas o mais curioso é que não querem dizer que
é o Menino Jesus que traz as prendas, mas dizem, sem receio de mentir
ou perder a confiança, que é o Pai Natal...
Pessoalmente simpatizo com o Pai Natal e não o dispenso, em minha casa,
junto do Presépio. O simpático velhinho, cheio de bonomia, é a
lembrança de S. Nicolau, que foi Bispo de Lécia (hoje Turquia), tendo
morrido em meados do século IV.
Conta a lenda, e eu abro aqui um parêntesis para explicar que lenda nem
sempre é uma história inventada; pode ser verídica, pois lenda é a
forma abreviada de legenda que se relaciona com informação), que S.
Nicolau, vivendo numa terra onde havia muitas famílias carenciadas e
com filhas em idade de casar, receava que estas o não fizessem por não
ter dote, coisa indispensável na época e assim ficassem com a porta
aberta para entrar por maus caminhos. S. Nicolau, então, pela calada da
noite, deitava para dentro das casas dessas famílias sacos com moedas
de ouro que angariava junto dos ricos. As moças podiam assim ter um
dote e casar. Daí o costume de dar prendas por esta altura – nos países
nórdicos isso acontece a 6 de Dezembro, festa litúrgica de S. Nicolau.
Muita gente considera que é uma afronta gastar tanto dinheiro para
celebrar o Natal quando tanta gente morre de fome. É claro que é uma
afronta e não só, se houver exagero, mas não caiamos no economicismo:
uma prenda, um adorno, uma roupa mais requintada, uma refeição mais
lauta é uma prova de carinho e afecto de uns para com os outros. Não
nos esqueçamos que há muitos pobres de pão, mas há muitos mais de
carinho e afecto. E além do mais é uma maneira de dar brilho a um
acontecimento ímpar – a vinda ao mundo de Deus feito Homem.
Mons. Hugo de Azevedo no seu livro Meditação do Natal, diz a dado
passo: “os caminhos humanos são caminhos bons, adequados aos mais
elevados anseios de infinitude – anseios que o próprio Deus em nós
criou e fomentou até graus inimagináveis ao vir à Terra para nos unir a
Si (...) A natureza pode conduzir a Deus. É digna de que Deus a faça
caminho para Si, porque é boa, participa da sua Bondade”.
Não tenhamos pois escrúpulos; não sejamos mesquinhos; o nosso Deus,
feito Menino, tendo como berço uma manjedoira, merece uns «extras»
nesta altura. E depois há também um modo de compatibilizar o que nos
parece um gasto excessivo, com o que Deus «merece» (se me é permitido
falar assim): é exercer nesta altura, de um modo significativo o dom da
partilha. Os pobres devem ser lembrados todo o ano, mas nesta altura
devem ser lembrados de um modo especial, não só com suplementos de
roupas e alimentos, mas também com aquilo que podemos chamar supérfluo:
gulodices, brinquedos, festas, etc., sem esquecer o minorar da solidão
daqueles que têm familiares nos hospitais ou nas cadeias, ou longe da
sua terra em busca de melhores condições de vida. Para quantos desses
vale mais uma visita, dinheiro para fazer um telefonema para o
estrangeiro para o filho emigrado, do que um cabaz com alimentos...
Apelo aos que têm Fé, para não deixar paganizar mais o Natal, ficando
só no material e exterior. O Natal do Homem crente deve ser a
comemoração do princípio da sua regeneração – Deus fez-se Homem para
que o homem pudesse um dia, depois de remido, gozar d’Ele por toda a
Eternidade.
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