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Envolveu-o em panos e deitou-o numa mangedora PDF Imprimir E-mail
Escrito por Maria Fernanda Barroca   
19-Dez-2005
Dia 25, é dia de Natal. Comemoramos o acontecimento que há 2000 anos fez descer à terra o Filho de Deus feito Homem, nascido de Maria virgem.

 
Com as palavras do título destas linhas,  S. Lucas no capítulo 2, versículo 7 do seu Evangelho resume o nascimento de Jesus. Isto aconteceu porque Maria e José foram obrigados por uma ordem de César Augusto a deixar a sua terra – Nazaré – para ir a Belém, por serem da linhagem de David, para se recensearem. Ora Maria estava grávida e quase no fim do tempo e ao chegar a Belém deu à luz o seu Filho primogénito.

 
Quando dizemos que deu à luz o seu filho primogénito, não queremos insinuar que Maria teve mais filhos, mas simplesmente que nunca tinha tido nenhum. É dogma de fé que Maria foi virgem antes do parto, no parto e depois do parto. A linguagem da época é que atraiçoa, mas podemos confirmar isso com o que conta Salvador M. Iglesias no seu livro O Evangelho de Maria. No sepulcro de uma jovem mãe hebreia, que morreu de parto no Egipto no ano 5 antes de Cristo, pode ler-se esta frase: “O destino conduziu-me ao termo da minha vida entre as dores de parto do meu filho primogénito”.

 
O Natal é uma data que não passa em claro a crentes e não crentes, pois que se andássemos tão distraídos que isso viesse a acontecer, muitos no-lo lembrariam. São os que se empenham em ornamentar as ruas e iluminar profusamente as montras dos estabelecimentos comerciais. O seu fim, que eu não censuro, não é propriamente festejar o nascimento de Jesus, mas atrair clientes e assim aumentar o seu negócio, uma vez que é de tradição, nesta altura trocar prendas em sinal de festa e amizade.

 
A Igreja Católica dedica quatro semanas a preparar o Natal – é o tempo do Advento; a sociedade civil, pelo menos este ano, antecipou-se – em Outubro já as ruas estavam a ser preparadas para receber as iluminações. E porquê? Porque vivemos numa sociedade de consumo em que se gasta mais do que se deve e do quu se pode. Ora o Evangelho diz-nos que Maria “(...) envolveu (o Menino Jesus) em panos e deitou-o numa manjedoira, por não haver lugar para eles na hospedaria. Lugar havia, mas não «para eles». O estalajadeiro ao ver o estado de Maria e a pobreza do casal não quis complicações e mandou-os embora. A pressa com que Maria  e José saíram de Nazaré para Belém não permitiu a Nossa Senhora levar tudo o que necessitava para aconchegar o Menino. Por isso o nosso consumismo quando exagerado é contrastante, para não dizer escandaloso, face à pobreza do nosso Deus.

 
Mas nesta época de Natal há muita coisa contraditória; vou tentar referir-me a algumas.

 
Muitos pais e educadores não querem dizer às crianças pequeninas que é o Menino Jesus que traz as prendas, argumentando que as crianças quando souberem a verdade chamam mentirosos a quem os enganou e perdem a confiança que neles depositavam. Nada de mais falso. Conseguem sim, não deixar as crianças viver um sonho muito belo que fez o encanto dos adultos da minha geração. Mas o mais curioso é que não querem dizer que é o Menino Jesus que traz as prendas, mas dizem, sem receio de mentir ou perder a confiança, que é o Pai Natal...

 
Pessoalmente simpatizo com o Pai Natal e não o dispenso, em minha casa, junto do Presépio. O simpático velhinho, cheio de bonomia, é a lembrança de S. Nicolau, que foi Bispo de Lécia (hoje Turquia), tendo morrido em meados do século IV.

 
Conta a lenda, e eu abro aqui um parêntesis para explicar que lenda nem sempre é uma história inventada; pode ser verídica, pois lenda é a forma abreviada de legenda que se relaciona com informação), que S. Nicolau, vivendo numa terra onde havia muitas famílias carenciadas e com filhas em idade de casar, receava que estas o não fizessem por não ter dote, coisa indispensável na época e assim ficassem com a porta aberta para entrar por maus caminhos. S. Nicolau, então, pela calada da noite, deitava para dentro das casas dessas famílias sacos com moedas de ouro que angariava junto dos ricos. As moças podiam assim ter um dote e casar. Daí o costume de dar prendas por esta altura – nos países nórdicos isso acontece a 6 de Dezembro, festa litúrgica de S. Nicolau.

 
Muita gente considera que é uma afronta gastar tanto dinheiro para celebrar o Natal quando tanta gente morre de fome. É claro que é uma afronta e não só, se houver exagero, mas não caiamos no economicismo: uma prenda, um adorno, uma roupa mais requintada, uma refeição mais lauta é uma prova de carinho e afecto de uns para com os outros. Não nos esqueçamos que há muitos pobres de pão, mas há muitos mais de carinho e afecto. E além do mais é uma maneira de dar brilho a um acontecimento ímpar – a vinda ao mundo de Deus feito Homem.

 
Mons. Hugo de Azevedo no seu livro Meditação do Natal, diz a dado passo: “os caminhos humanos são caminhos bons, adequados aos mais elevados anseios de infinitude – anseios que o próprio Deus em nós criou e fomentou até graus inimagináveis ao vir à Terra para nos unir a Si (...) A natureza pode conduzir a Deus. É digna de que Deus a faça caminho para Si, porque é boa, participa da sua Bondade”.

 
Não tenhamos pois escrúpulos; não sejamos mesquinhos; o nosso Deus, feito Menino, tendo como berço uma manjedoira, merece uns «extras» nesta altura. E depois há também um modo de compatibilizar o que nos parece um gasto excessivo, com o que Deus «merece» (se me é permitido falar assim): é exercer nesta altura, de um modo significativo o dom da partilha. Os pobres devem ser lembrados todo o ano, mas nesta altura devem ser lembrados de um modo especial, não só com suplementos de roupas e alimentos, mas também com aquilo que podemos chamar supérfluo: gulodices, brinquedos, festas, etc., sem esquecer o minorar da solidão daqueles que têm familiares nos hospitais ou nas cadeias, ou longe da sua terra em busca de melhores condições de vida. Para quantos desses vale mais uma visita, dinheiro para fazer um telefonema para o estrangeiro para o filho emigrado, do que um cabaz com alimentos...

 
Apelo aos que têm Fé, para não deixar paganizar mais o Natal, ficando só no material e exterior. O Natal do Homem crente deve ser a comemoração do princípio da sua regeneração – Deus fez-se Homem para que o homem pudesse um dia, depois de remido, gozar d’Ele por toda a Eternidade.

 
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