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OS ANJOS PDF Imprimir E-mail
06-Mai-2002

Verifica-se entre a população uma grande crença nos
anjos. Será que isso é sinal de uma fé forte e bem
embasada? Não necessariamente, pois, muitas vezes,
esse sentimento não passa de uma superstição ou
crendice: acredita-se em anjos da mesma maneira que se
acredita em gnomos, fadas e duendes. Em certas
publicações, trata-se com a mesma ¨seriedade¨ de anjos,
orações, símbolos astrológicos, círculos mágicos,
controle da mente e outros assuntos. Afinal, o que
existe de verdade sobre os anjos?

Os anjos e a razão

A idéia dos anjos não é algo que vá contra nossa
razão. No Universo criado por Deus, todo ser tem sua
parcela de semelhança com o Criador, Espírito Puro e
Eterno: dentre as criaturas visíveis, vemos que desde
os seres inanimados - como uma pedra, cuja semelhança com
Deus baseia-se no ato de existir - até o homem - dotado
de corpo e alma, inteligência e semelhança de Deus -,
todos somos reflexo do Criador. Nessa crescente escala
de perfeições, não seria de estranhar que houvesse uma
outra criatura de maior semelhança a Deus que nós, os
homens, pois, apesar de termos alma, ¨não funcionamos¨
sem o nosso corpo. É justamente nesse ¨degrau¨ da
criação que estão situadas as criaturas que chamamos
Anjos, espíritos puros (no sentido de não terem uma
parcela material) que Deus criou para Sua glória e Seu
serviço. Talvez através deste mesmo raciocínio, homens
de diferentes raças e civilizações chegaram, ao longo da
história da humanidade, à crença em seres superiores a
nós (espirituais) que estariam nos acompanhando durante
nossa vida na terra.

Os anjos e a revelação

Mas não é apenas pela razão que cremos na existência
dos anjos: a Revelação nos confirma aquilo que o bom-
senso nos indica. Na Sagrada Escritura, tanto no Antigo
quanto no Novo Testamento, temos muitas passagens que
nos falam dos anjos. A começar pelo livro de Gênesis,
que nos fala tanto dos anjos bons e leias a Deus quanto
do Anjo Mau por excelência, o Tentador. Há livros na
Escritura nos quais a presença dos anjos é uma
constante: como no Livro de Tobias, no qual o anjo
Rafael, acompanha o jovem Tobias ao longo de toda sua
jornada, encaminhando-o, inclusive, para o casamento;
Jacó lutou com um anjo; Abraão foi avisado por anjos que
seria pai, e, no livro de Jó, temos, novamente, a
presença dos anjos bons e do demônio. Em todos esses
casos, vemos os anjos atuando a serviço do Criador; uma
das principais atividades exercidas por esses seres é
servirem de emissários de Deus junto aos homens. Não é
por acaso que o termo ¨Anjo¨, originário do grego,
significa ¨mensageiro¨.
A revelação sobre os anjos continua no Novo
Testamento; nos momentos mais importantes da História da
Salvação, lá estão eles presentes: na Anunciação, no
Nascimento de Jesus (Lc 1,26-38); em sua oração no Horto
das Oliveiras (Lc 22,43); na Ressurreição (Mt 28,1-8; Mc
16,1-8; Lc 24,1-10; Jo 20,11-13); na Ascensão (At 1,10-
11). Jesus fala diversas vezes sobre esses seres: diz
que os anjos dos pequeninos estão sempre na presença do
Pai (Mt 18,10), explica que no céu seremos como anjos de
Deus (Mc 12,25) e conta-nos que em sua volta Ele virá
acompanhado dos anjos (Mt 25,31).
Nos Atos dos Apóstolos, vemos uma manifestação
espantosa da fé que os primeiros cristãos tinham nos
anjos (At 12,1-17): Pedro está preso pelos romanos,
mas, no meio da noite, um anjo lhe aparece e abre as
portas da prisão, ele escapa e dirige-se à casa onde
estão reunidos seus companheiros. Ao chegar, bate à
porta, mas a criada que vai atender, de tão contente que
fica ao ouvir sua voz, não abre a porta, mas corre aos
outros que ali estão para dar-lhes a notícia; os
discípulos não acreditam no que aquela mulheres lhes
diz, mas, diante de sua persistência, começam a dizer
entre si: ¨De certo, é o anjo dele¨, tal a fé que
tinham neste guardião que cada um de nós traz consigo.

Os Anjos bons e os Anjos maus

A Sagrada Escritura fala-nos dos anjos fiéis a Deus;
mas fala-nos também dos anjos maus, ou demônios. E o
que são os demônios?
Assim como aqueles que usualmente chamamos,
simplesmente ¨anjos¨, ao anjos mas ou demônios são
espíritos puros, criados por Deus, mas que se
revoltaram contra seu Criador. Qual o teor, o motivo
dessa revolta? Não sabemos ao certo. Alguns teólogos
dizem que, ao serem criados, os anjos deveriam adorar a
Deus, à Trindade, mas alguns teriam-se rebelado por não
querem adorar o Verbo encarnado; outros crêem que a
revolta teria sido causada também pela veneração que os
anjos devem a Maria, a Mãe de Deus, a mais perfeita das
criaturas, maior até que os anjos. O motivo concreto da
revolta, não sabe-se ao certo, mas o fato é que alguns
anjos se afastaram de Deus, liderados por Lúcifer,
o ¨Portador da luz¨ (ou, em outra tradução, o ¨Anjo de
luz¨), o mais perfeito dos anjos: desta maneira, temos
os ¨anjos bons¨ - ou simplesmente anjos -, que agora
estão para sempre junto a Deus, e os ¨anjos maus¨ -
ou ¨demônios¨ -, afastados de Deus, sem possibilidade
de volta. O Apocalipse descreve a batalha entre o dragão
(ou seja, o demônio) e Miguel (o Príncipe das milícias
celestes), e a vitória destes últimos (Ap 12,7-9).
Talvez nos venha a dúvida: por que o homem,
criatura de Deus, recebeu uma ¨segunda chance¨após o
pecado original (de Adão e Eva), mas aos anjos, após a
prova a que foram submetidos, ficaram com seu destino
eternamente selado? Isso deve-se ao fato de que a
inteligência, a vontade e, conseqüentemente, a liberdade
Angélica são extremamente elevados quando comparadas às
dos homem, mesmo quando trata-se do homem no estado em
que foi criado, com todos os dons que havíamos recebido
na criação.
Para participar da Glória de Deus, a criatura, seja
homem ou seja anjo, deve fazer um ato de adesão, de amor
a Deus: ¨não podemos estar unidos a Deus se não fizermos
livremente a opção de amá-lo¨ (Catecismo); esse ato é
fruto da liberdade que recebemos ao sermos criados, e,
portanto, quanto mais perfeita a liberdade, mais
definitiva a escolha feita. No caso dos anjos, dada a
plena liberdade que têm, definitiva é a decisão, ou
seja, não é que Deus não lhes quisesse dar outra
chance: mesmo que a tivessem, a decisão seria a mesma.
Deste modo, originou-se o inferno; o Catecismo nos
diz: ¨É este estado de auto-exclusão definitiva da
comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa
com a palavra ´inferno´¨.
Os demônios já foram derrotados pela Paixão e Morte
de Jesus, mas Deus não lhes retirou a inteligências e
poder, que usam para agir contra o homem: o ódio que têm
a Deus e àquele que procuram servir a Ele é proporcional
ao desespero que têm pelo fato de estarem para sempre
afastados de seu Criador, e, assim, procuram impedir, de
todas as maneiras, que cheguemos ao nosso fim último, que
é a Glória de Deus. O próprio termo ¨satanás¨ tem em sua
raiz o sentido de ¨adversário¨; ¨o que arma
ciladas¨; ¨inimigo¨.
E nós, o que faremos contra inimigos tão poderosos?
Em primeiro lugar, é bom ter claro que as tentações nem
sempre procedem do demônio, mas muitas vezes vêm de
nossas próprias fraquezas; e, além disto, deus não
permite que sejamos tentados acima de nossas forças. Por
outro lado, o diabo não pode controlar nossa vontade,
mesmo nos casos (raros hoje em dia!) de possessão.
Depois, sabemos que, através dos Sacramentos que Jesus
nos deixou, recebemos as graças necessárias, e mesmo
abundantes, para resistirmos ao mal. Em especial,
temos na Eucaristia a presença do próprio Filho de Deus,
feito alimento para nos sustentar na luta. Por último,
não podemos nos esquecer de que Deus também nos destinou
anjos protetores, os nossos anjos da guarda, que têm
poderes iguais ou até maiores que os dos demônios, pois
estão agindo ao lado de Deus, para o nosso bem e para a
Glória do Criador.

Erro sobre os Anjos

Nas concepções atuais sobre anjos, divulgadas por
revistas, livros, palestras e muitos outros meios,
existem verdades que vieram da Doutrina Católica, mas
existem também muitas idéias confusas, vindas, por
vezes, de um misticismo superficial e sentimentalista.
É muito comum ouvirmos falar sobre os ¨nomes¨ dos
anjos. Certas publicações chegam a apontar listas
numerosas de nomes, indicando inclusive a ¨especialidade¨
de cada um: ajudar médicos, advogados, pessoas que
atuam em ciências exatas; auxiliar-nos quando passamos
por necessidades no campo amoroso, financeiro,
profissional, familiar... Segundo essas publicações,
existem mesmo ¨horários mais fáceis¨ para estabelecermos
contato com esses anjos, e, de acordo com a data de
nascimento de cada pessoa, é-lhe designado um ¨anjo
protetor¨. Ora, na Sagrada Escritura, há algumas
revelações sobre o mundo angélico, mas nada que chegue a
esses níveis de ¨detalhes¨. Assim, conhecemos os nomes
de três Anjos - Miguel, Gabriel e Rafael; o primeiro é o
Anjo que derrotou o ¨dragão¨, comandando os anjos bons na
batalha contra os anjos maus, e também prestou auxílio a
Daniel (Ap 12,7e Dn 10,12-21); o segundo é o anunciador
dos nascimentos de João Batista e de Jesus (Lc 1,19-26);
e o último acompanhou Tobias em sua viagem (Tb 12,15).
Através da Tradição e dos estudos dos teólogos,
baseados nas revelações da Bíblia, temos um maior
aprofundamento na doutrina sobre os anjos, que teve
grande impulso através de São Tomás de Aquino, um dos
maiores teólogos da Igreja, que recebeu o título
de ¨Doutor Angélico¨ devido a esses seus estudos. Temos
de tomar cuidado com essas publicações que andam por aí,
pois muitas delas, mais do que esclarecer, podem
confundir-nos. Por exemplo: um certo autor, romancista
dos mais difundidos atualmente, chega a sugerir que
devemos pedir a ajuda do demônio e aceita-lo como amigo,
desde que não nos deixemos dominar por ele (!)...

O nosso Anjo da Guarda

São Basílio recorda-nos que temos um Anjo que Deus
designou para nos acompanhar: ¨Cada fiel é ladeado por um
Anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida¨. É
importante questionar-nos, de vez em quando, sobre como
tem sido nosso trato com o Anjo da Guarda: se Deus
colocou-o ao nosso lado para que nos proteja e interceda
por nós, da infância até a morte, é justo que não nos
esqueçamos desse nosso companheiro.
Podemos (e devemos!) ter um bom relacionamento com
nossos Anjos: em primeiro lugar, com o nosso, mas também
com os dos que nos cercam. Vimos, acima, que ele, nosso
Anjo, existe para nos conduzir à vida: portanto, em
todos os assuntos que dizem respeito à nossa vida
espiritual e à saúde de nossa alma é conveniente que lhe
peçamos auxílio. Por exemplo: podemos solicitar que
nosso Anjo nos ajude a vencer as distrações em nossas
orações, ou a ter paciência com aquela pessoa com
quem ¨não nos damos muito bem¨, mas que, por alguns
motivos temos de nos relacionar todos os dias; se alguma
vez nos custar ir à confissão, podemos pedir ao nosso
Anjo que nos ajude a voltar à graça de Deus. E podemos,
também, pedir-lhe ajuda para coisas muito positivas: que
nos ajude a conseguir aquela virtude que buscamos, que
nos sugira um bom tema para nossa oração (que é nossa
conversa com Deus), etc...

Os Anjos dos outros

Podemos tratar, também, com os Anjos daqueles que
nos cercam: muitas vezes, os pais não podem acompanhar
seus filhos em todos os lugares. Então, juntamente com o
beijo que dá no filho que está saindo, a mãe pode pedir
ao se Anjo que cuide dele tão bem quanto ela o faria. Ou
então, para aquela pessoa que gostaríamos que se
aproximasse novamente dos Sacramentos, podemos pedir ao
seu Anjo que lhe faça ver as maravilhas de estar na Graça
de Deus... Há pessoas que têm por costume cumprimentar,
interiormente, o Anjo daqueles com quem se relaciona no
dia-a-dia, e pedir-lhe que os guarde. Tem pessoas que
agem muito piedosamente em relação a esse contato com os
anjos: há uma família que, à mesa das refeições, sempre
deixam um lugar a mais do que o número das pessoas
presentes: é ¨o lugar de Jesus¨, que os ajuda a te-lO
mais presente... Podemos adotar algum costume semelhante
para com nosso Anjo da Guarda.

Ajudas em todos os campos

Por fim, podemos também solicitar a ajuda de nosso
Anjo nas coisas materiais que nos dizem respeito: se
elas não forem prejudiciais ao nosso bem eterno, ele
poderá nos atender. Assim, por exemplo, podemos pedir-
lhe que nos ajude a não esquecer nada naquela prova
difícil, ou que nos lembre de um compromisso importante;
que, num dia de chuva, aquela carro que vem atrás
consiga frear a tempo, e que, num trânsito congestionado,
consigamos chegar a tempo para participar da Missa; ou
que nos ajude a conseguir um trabalho melhor, ou, ainda,
que nos mantenha no atual...
Se duvida da ação do anjo em seu meio, basta que
faça um pedido e espere para ver o que acontece. Se você
não pedir ele não saberá o que quer e não poderá te
ajudar. Ele sabe da dúvida que tem em seu coração, no
entanto, está esperando o seu pedido de ouvido bem
aberto! A experiência é a melhor maneira de crer.
Ao falar dos Anjos, não podemos nos esquecer de
Maria: no Livro do Gênesis, Deus fala ao
demônio: ¨porei inimizade entre ti e a mulher (...) e
sua descendência te esmagará a cabeça¨ (Gn 3,15). Essa
passagem é uma alusão a Nossa Senhora, a Imaculada, que,
no Livro do Apocalipse, aparece como a ¨mulher revestida
de sol, com a lua a seus pés e uma coroa de doze
estrelas na cabeça¨ (Ap 12,1), e que enfrenta o dragão,
outra imagem do demônio. Devemos recorrer a Ela sempre
que nos sentirmos em tentação, pois Deus lhe concedeu um
grande poder contra o Maligno. Nossa Senhora é, também
a Rainha dos Anjos, como a invocamos na ladainha: ela
nos ajudará a manter viva em nós a presença desses nossos
guardiões, e a recorrer a eles em nossas necessidades.

Abaixo, há algumas passagens bíblicas onde apontam
os anjos Querubins, Serafins e Arcanjos.

Os Querubins

Em hebraico kerub, pl. kerubim, são seres
mitológicos e gênios vigilantes dos palácios
mesopotâmios. O plural hebraico virou um singular
português (o querubim); daí o plural querubins. O
ofício de vigilantes, já está no Gênesis, como
vigilantes da entrada do Paraíso:
¨Javé Deus expulsou o homem e plantou ante o Jardim
de Éden os Querubins e a chama da espada abanadora, a
fim de vedar o caminho da Árvore da Vida¨ (Gen 3,24).

Para caracterizar a grandeza do rei de Tiro na
Fenícia, Ezequiel empresta o cenário do paraíso vigiado
por um kerub (singular). O Jardim de Éden é
chamado ¨Monte santo de Deus¨. As ¨pedras de fogo¨
lembram um vulcão, um fenômeno ligado à presença da
divindade:
¨Ao lado do querub te coloquei, no monte santo de
Deus.
Nasceste no meio das pedras de fogo¨. (Ez 28,14).

Na tenda da reunião, dois querubins em baixo-relevo
adornaram a tampa da Arca da Aliança (propiciatório),
indicando o local onde Javé era imaginado sentado para
atender as preces de Moisés e do povo de Israel: Ex
25,18-22; Num 7,89; 1Sam 4,4; 2Sam 6,2:
¨Davi e todo o exército que o acompanhava partiram
de Baala de Judá, a fim de transportar a arca de Deus
que lá estava e que leva o nome de Javé dos Exércitos que
está sentado sobre os querubins¨.

No templo de Salomão, os querubins eram esculturas
enormes, colocados ao lado da Arca, cobrindo com as suas
asas o interior do Santíssimo do Templo. Os querubins do
propiciatório continuavam considerados Trono de Javé.
Painéis de querubins cobriam as paredes interiores e
exteriores do santuário: 1Rs 6,23-29.

Os Serafins

O hebraico saraf , pl serafim,
significa ¨ardente¨, ¨abrasador¨, em grego ¨mortífero¨.
Como adjetivo, refere-se às ¨Serpentes de Fogo¨ em Num
21,6:
¨Javé mandou contra o povo serpentes incendiadas
(serafim) cuja mordedura fez perecer muita gente em
Israel¨.
¨Javé, teu Deus, te conduziu através daquele
grande e terrível deserto, repleto da serpente abrasadora
(saraf)¨. (Deut 8,15).

Em clara observância, o adjetivo qualificativo
(ardente) passou para substantivo qualificado (serpente)
recebendo agora o qualificativo ¨voadora¨:
¨Não te alegres, ó Filistéia, porque da raiz da
serpente sairá uma víbora, e o seu fruto será uma
serpente voadora¨ (Is 14,29). E mais, Is 14,29; 30,6.

Seres sobre-humanos: num terceiro estágio
semântico, as serpentes ¨voadoras¨ tornam-se serpentes
com ¨asas¨, ¨aladas¨, seres descomunais e fantásticos,
mais mitológicos do que naturais. Uma coisa dessas,
Isaías ¨viu¨ na sua visão vocacional (6,1-7), autênticos
serafins angélicos e únicos de sua espécie na Bíblia. As
versões grega e latina conservaram o termo hebraico
(serafim), fato esse que prova que eles não acharam, na
própria língua, uma palavra adequada para tais
criaturas. Já o autor hebreu os denominava
aproximadamente, comparando-os ao que mais se
assemelhavam, ou seja, dragões alados. O Dicionário
hebraico aproxima o termo saraf ao árabe sharif =
príncipe, nobre.
¨Eu vi o Adonai sentado sobre o trono alto e
elevado. Acima dele estavam Serafins, cada um com seis
asas: com duas cobriam o rosto, com duas os pés e com
duas voavam. Clamavam uns aos outros e diziam: Santo,
Santo, Santo, Javé dos Exércitos, a sua Glória enche
toda a terra. O troar dos seus clamores fazia oscilar os
gonzos dos portões e o templo se enchia de fumaça¨ (Is
6,1-4).

Os Arcanjos

O título ¨Arcanjo¨ consta somente no Novo
Testamento, em 1Tes 4,16 e Jud 9, reportando-se a
Miguel. O original grego arch-ángelos
significa ¨Príncipe-Anjo¨, ¨chefe dos Anjos¨. Assim, o
inventor do termo já refletia sobre uma hierarquia no
interior do mundo angélico. Para os cristãos, os
componentes dos ¨Sete antes o trono de Deus¨ costumam
levar este título. Três são conhecidos na Bíblia:
Miguel, Gabriel e Rafael

Miguel aparece inesperadamente no Antigo Testamento:
¨Miguel, um dos primeiro príncipes, veio em meu
socorro¨ (Dan 10,13.21)

O nome hebraico Mi-Ka-El é uma pergunta
retórica: ¨Quem é como Deus?¨ e é encontrado várias
vezes na Bíblia; por exemplo:
¨Quem é como Tu, Javé, entre os deuses?¨ (Ex 15,11)
¨Quem é Deus senão Javé, quem é como Tu?¨ (Sl 18,32)
E mais ainda: Deut 3,24; Sl 35,10; 86,8; 89,9;
Is 40,18; 44,7; 46,5.

Gabriel significa ¨Força de Deus¨ ou ¨Varão de
Deus¨. No A.T. ele apareceu duas vezes a Daniel como
intérprete dos mistérios do futuro de Israel:
¨Ouvi uma voz humana sobre o rio Ulai, que gritava e
dizia: Gabriel, explica a este a visão!¨ (Dan 8,16).
¨Eu estava ainda falando em oração, quando Gabriel,
aquele varão que tinha visto antes, aproximou-se de mim,
num vôo rápido para me falar¨ (Dan 9,21).

No Alcorão, Gabriel é o interlocutor de Maomé e
portador da mensagem celeste. O seu nome árabe é Djibril.

Rafael significa ¨Deus curou¨ ou ¨Cura de Deus¨. O
seu nome é justificado na história de Tobias (pai) e de
Sara, noiva de Tobias (filho). Pai e nora suplicaram a
Deus pela cura de suas moléstias e na hora da súplica,
Rafael foi enviado à terra:
¨Naquele instante, na Glória de Deus, foi atendida
a oração de ambos; e foi destacado Rafael para curar os
dois: tirar as manchas brancas dos olhos de Tobit e
entregar Sara como esposa a Tobias¨ (Tob 3,16.17).

Para valer a Tobias e a Sara, Rafael demonstrou seu
poder sobre o demônio Asmodeu:
¨O cheiro de peixe expulsou o demônio, que fugiu
pelos ares até o Egito; Rafael o perseguiu e acorrentou
imediatamente¨ (Tob 8,3).

Solene identificação da parte do Anjo Rafael

¨Vou confessar-vos toda a verdade: Quando tu e Sara
fazíeis oração, era eu quem apresentava o atestado de
vossas súplicas ante a Glória do Senhor; quando não
hesitaste em te levantar da mesa para sepultar um
defunto, fui enviado para te pôr à prova; e ao mesmo
tempo, Deus me destacou para te curar a ti e à tua nora
Sara. EU SOU RAFAEL, um dos sete que estão presentes
ante a Glória do Senhor.
Ambos, Tobit e Tobias, quedaram de espanto e caíram
com a face por terra, com grande pavor. Mas Rafael lhes
disse: Não tenhais medo! A paz esteja convosco!
Bendizei a Deus para sempre! Se estive convosco, não era
pura benevolência minha, mais era vontade de Deus. A Ele
deveis louvar todos os dias, a Ele deveis cantar. Todos
os dias eu fui visto por vós; não comia nem bebia; é
que tivestes apenas uma visão. Agora vou voltar para
Aquele que me enviou¨ (Tob 12,11-21).

Aparência externa dos Anjos

Varões ou donzelas?

Em todos os lugares até agora referidos, o visual
externo do Anjo é algo verdadeiramente descomunal. Posto
em frente à aparição, o homem fica perplexo,
assustado, desmaiado! Assim, por exemplo, Daniel:
¨À sua chegada, eu fui tomado de terror e caí com a
face por terra... Ele fala ainda, quando desmaiei,
caindo no chão¨ (8,17.18)

¨Levantei os olhos para observar, e vi: Um homem
vestido de linho, os rins cingidos de ouro puro, seu
corpo de aparência de crisólito e o seu semblante como um
relâmpago, seus olhos como faróis de fogo, seus braços e
pernas como fulgor de bronze polido, e o som de suas
palavras como clamor de uma multidão. Somente eu,
Daniel, vi esta aparição. Os homens que estavam comigo
não viam e, no entanto, um grande temor os abateu a ponto
de fugirem para se esconder (At 22,9; 26,14). Ao ouvir o
som de suas palavras desmaiei sobre meu rosto, caindo por
terra. Mas, eis que certa mão me tocou e me fez
levantar, tremendo, sobre os joelhos. Ele me disse:
Daniel! Põe-te de pé porque é para ti que eu fui
enviado. Ao dizer-me estas palavras, levantei-me, todo
trêmulo. E ele prosseguiu: Não temas!¨ (10,4-12).

Ao sacerdote Zacarias: ¨Apareceu-lhe o Anjo, de
pé, à direita do altar do incenso. Ao vê-lo, Zacarias
perturbou-se e o temor apoderou-se dele. Disse-lhe,
porém o Anjo: Não temas, Zacarias!¨ (Lc 1,11-13).

Gabriel é chamado expressamente ¨varão¨ (Dan 9,21).
Rafael é um ¨jovem¨ (Tob 5,5), e assim por diante, até o
séc. 13, quando, ninguém sabe o porquê, os Anjos
começaram a se transformar em figuras femininas, mocinhas
doces e bonitas. E não bastava! A arte barroca pintava-
os como crianças decorativas, de corpinhos roliços e
sensuais. Às vezes, até sobravam as cabecinhas
enfeitadas de asinhas de galinhas, como se fossem
emblemas duma companhia aérea! Semelhantes desvios
artísticos estão causando enorme prejuízo ao culto dos
Anjos e à Religião em geral, destruindo-lhe a seriedade
e a credibilidade. Que blasfêmia e que profanação,
quando um príncipe celeste é degradado para figurar como
mocinha segurando lâmpadas elétricas ao lado do altar! É
o fim da seriedade teológica e espiritual.

O idioma dos Anjos

Afirmação de grande efeito retórico para demonstrar
a superioridade do amor (caridade) sobre todos os
carismas. O estilo tem analogias com o seguinte. Não
faltam na Bíblia alusões à fala dos Anjos; eles cantam
louvores ao Altíssimo, mas em que língua? Quando
arrebatado ao Paraíso, Paulo ouviu palavras
impronunciáveis em qualquer idioma humano. Palavras
supõem conceitos e pensamentos; no Céu deve ser tudo
diferente:
¨Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos
Anjos; se não tivesse caridade, seria um bronze que
ressoa¨ (1Cor 13,1).

Culto prestado aos Anjos

É preciso distinguir entre culto e culto. Quando
Cornélio se prostrou ante Pedro (S 80), ou quando o
visionário do Apocalipse quis adorar o Anjo (19,10 e
22,8), então eles agiram com boas intenções, embora
exagerando. Existe, porém, na história religiosa, um
culto indevido, uma religião de cunho gnóstico, na qual
os Anjos são considerados como entidades autônomas,
intermediárias entre um deus distante do mundo material e
os homens. Num sistema deste tipo, os Anjos já não são
mais criaturas postas ao serviço dos homens e de Deus:
¨Ninguém vos prive de vosso prêmio com engodo de
humildade e de veneração dos Anjos, embevecido por
coisas que teria visto¨ (Col 2,18).
Isso mostra que o próprio Deus não faz objeção em
ver-nos venerando (e não adorando) os Anjos. Se permite
a veneração aos Anjos, o que dirá então à respeito da
Mulher que escolheu para ser a mãe de Seu próprio filho?


Revista Cavaleiro da Imaculada /
Os Anjos na Bíblia [ O Recado ] Pe. Frederico Dattler

 
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