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Verifica-se entre a população uma grande
crença nos anjos. Será que isso é sinal de uma fé forte e bem
embasada? Não necessariamente, pois, muitas vezes,
esse sentimento não passa de uma superstição ou crendice:
acredita-se em anjos da mesma maneira que se acredita em gnomos, fadas e
duendes. Em certas publicações, trata-se com a mesma ¨seriedade¨
de anjos, orações, símbolos astrológicos, círculos mágicos, controle da
mente e outros assuntos. Afinal, o que existe de verdade sobre
os anjos?
Os anjos e a
razão
A idéia dos anjos não é algo que vá contra
nossa razão. No Universo criado por Deus, todo ser tem sua
parcela de semelhança com o Criador, Espírito Puro e Eterno:
dentre as criaturas visíveis, vemos que desde os seres inanimados -
como uma pedra, cuja semelhança com Deus baseia-se no ato de existir - até o
homem - dotado de corpo e alma, inteligência e semelhança de Deus -,
todos somos reflexo do Criador. Nessa crescente escala de
perfeições, não seria de estranhar que houvesse uma outra criatura de
maior semelhança a Deus que nós, os homens, pois, apesar
de termos alma, ¨não funcionamos¨ sem o nosso corpo. É justamente
nesse ¨degrau¨ da criação que estão situadas as criaturas que chamamos
Anjos, espíritos puros (no sentido de não terem uma parcela
material) que Deus criou para Sua glória e Seu serviço. Talvez através
deste mesmo raciocínio, homens de diferentes raças e civilizações
chegaram, ao longo da história da humanidade, à crença em seres
superiores a nós (espirituais) que estariam nos acompanhando durante
nossa vida na terra.
Os anjos e a
revelação Mas não é apenas pela razão que
cremos na existência dos anjos: a Revelação nos confirma aquilo que o
bom- senso nos indica. Na Sagrada Escritura, tanto no Antigo
quanto no Novo Testamento, temos muitas passagens que nos falam
dos anjos. A começar pelo livro de Gênesis, que nos fala tanto
dos anjos bons e leias a Deus quanto do Anjo Mau por excelência, o
Tentador. Há livros na Escritura nos quais a presença dos anjos é uma
constante: como no Livro de Tobias, no qual o anjo
Rafael, acompanha o jovem Tobias ao longo de toda sua jornada,
encaminhando-o, inclusive, para o casamento; Jacó lutou com um
anjo; Abraão foi avisado por anjos que seria pai, e, no livro de
Jó, temos, novamente, a presença dos anjos bons e do
demônio. Em todos esses casos, vemos os anjos atuando a serviço
do Criador; uma das principais atividades exercidas por esses seres é
servirem de emissários de Deus junto aos homens. Não é por acaso
que o termo ¨Anjo¨, originário do grego, significa
¨mensageiro¨. A revelação sobre os anjos continua no
Novo Testamento; nos momentos mais importantes da História da
Salvação, lá estão eles presentes: na Anunciação, no
Nascimento de Jesus (Lc 1,26-38); em sua oração no Horto das
Oliveiras (Lc 22,43); na Ressurreição (Mt 28,1-8; Mc 16,1-8; Lc
24,1-10; Jo 20,11-13); na Ascensão (At 1,10- 11). Jesus
fala diversas vezes sobre esses seres: diz que os anjos dos pequeninos
estão sempre na presença do Pai (Mt 18,10), explica que no céu seremos
como anjos de Deus (Mc 12,25) e conta-nos que em sua volta Ele virá
acompanhado dos anjos (Mt 25,31). Nos Atos dos
Apóstolos, vemos uma manifestação espantosa da fé que os primeiros
cristãos tinham nos anjos (At 12,1-17): Pedro está preso pelos
romanos, mas, no meio da noite, um anjo lhe aparece e abre
as portas da prisão, ele escapa e dirige-se à casa onde estão
reunidos seus companheiros. Ao chegar, bate à porta, mas a
criada que vai atender, de tão contente que fica ao ouvir sua voz, não
abre a porta, mas corre aos outros que ali estão para dar-lhes a
notícia; os discípulos não acreditam no que aquela mulheres lhes
diz, mas, diante de sua persistência, começam a dizer entre
si: ¨De certo, é o anjo dele¨, tal a fé que tinham neste
guardião que cada um de nós traz consigo.
Os
Anjos bons e os Anjos maus
A Sagrada
Escritura fala-nos dos anjos fiéis a Deus; mas fala-nos também dos anjos
maus, ou demônios. E o que são os
demônios? Assim como aqueles que usualmente
chamamos, simplesmente ¨anjos¨, ao anjos mas ou demônios são
espíritos puros, criados por Deus, mas que se revoltaram
contra seu Criador. Qual o teor, o motivo dessa revolta?
Não sabemos ao certo. Alguns teólogos dizem que, ao serem
criados, os anjos deveriam adorar a Deus, à Trindade, mas
alguns teriam-se rebelado por não querem adorar o Verbo encarnado;
outros crêem que a revolta teria sido causada também pela veneração que os
anjos devem a Maria, a Mãe de Deus, a mais perfeita das
criaturas, maior até que os anjos. O motivo concreto da
revolta, não sabe-se ao certo, mas o fato é que alguns anjos
se afastaram de Deus, liderados por Lúcifer, o ¨Portador da luz¨ (ou,
em outra tradução, o ¨Anjo de luz¨), o mais perfeito dos anjos:
desta maneira, temos os ¨anjos bons¨ - ou simplesmente anjos -,
que agora estão para sempre junto a Deus, e os ¨anjos maus¨ - ou
¨demônios¨ -, afastados de Deus, sem possibilidade de
volta. O Apocalipse descreve a batalha entre o dragão (ou seja, o
demônio) e Miguel (o Príncipe das milícias celestes), e a vitória
destes últimos (Ap 12,7-9). Talvez nos venha a
dúvida: por que o homem, criatura de Deus, recebeu uma ¨segunda
chance¨após o pecado original (de Adão e Eva), mas aos anjos,
após a prova a que foram submetidos, ficaram com seu destino eternamente
selado? Isso deve-se ao fato de que a inteligência, a vontade e,
conseqüentemente, a liberdade Angélica são extremamente elevados quando
comparadas às dos homem, mesmo quando trata-se do homem no estado em
que foi criado, com todos os dons que havíamos recebido na
criação. Para participar da Glória de Deus, a
criatura, seja homem ou seja anjo, deve fazer um ato de adesão, de
amor a Deus: ¨não podemos estar unidos a Deus se não fizermos
livremente a opção de amá-lo¨ (Catecismo); esse ato é fruto da
liberdade que recebemos ao sermos criados, e, portanto, quanto
mais perfeita a liberdade, mais definitiva a escolha feita. No caso
dos anjos, dada a plena liberdade que têm, definitiva é a
decisão, ou seja, não é que Deus não lhes quisesse dar outra
chance: mesmo que a tivessem, a decisão seria a mesma.
Deste modo, originou-se o inferno; o Catecismo nos
diz: ¨É este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com
Deus e com os bem-aventurados que se designa com a palavra
´inferno´¨. Os demônios já foram derrotados pela
Paixão e Morte de Jesus, mas Deus não lhes retirou a inteligências e
poder, que usam para agir contra o homem: o ódio que têm a Deus e
àquele que procuram servir a Ele é proporcional ao desespero que têm pelo
fato de estarem para sempre afastados de seu Criador, e, assim, procuram
impedir, de todas as maneiras, que cheguemos ao nosso fim último, que
é a Glória de Deus. O próprio termo ¨satanás¨ tem em sua raiz o
sentido de ¨adversário¨; ¨o que arma ciladas¨;
¨inimigo¨. E nós, o que faremos contra inimigos tão
poderosos? Em primeiro lugar, é bom ter claro que as tentações nem
sempre procedem do demônio, mas muitas vezes vêm de nossas próprias
fraquezas; e, além disto, deus não permite que sejamos tentados acima
de nossas forças. Por outro lado, o diabo não pode controlar
nossa vontade, mesmo nos casos (raros hoje em dia!) de
possessão. Depois, sabemos que, através dos Sacramentos
que Jesus nos deixou, recebemos as graças necessárias, e mesmo
abundantes, para resistirmos ao mal. Em especial,
temos na Eucaristia a presença do próprio Filho de Deus, feito
alimento para nos sustentar na luta. Por último, não podemos nos
esquecer de que Deus também nos destinou anjos protetores, os nossos
anjos da guarda, que têm poderes iguais ou até maiores que os dos
demônios, pois estão agindo ao lado de Deus, para o nosso bem e
para a Glória do Criador.
Erro sobre os Anjos
Nas concepções atuais sobre anjos, divulgadas por revistas, livros,
palestras e muitos outros meios, existem verdades que vieram da
Doutrina Católica, mas existem também muitas idéias confusas, vindas,
por vezes, de um misticismo superficial e
sentimentalista. É muito comum ouvirmos falar sobre
os ¨nomes¨ dos anjos. Certas publicações chegam a apontar listas
numerosas de nomes, indicando inclusive a ¨especialidade¨ de cada
um: ajudar médicos, advogados, pessoas que atuam em ciências
exatas; auxiliar-nos quando passamos por necessidades no campo
amoroso, financeiro, profissional, familiar... Segundo essas
publicações, existem mesmo ¨horários mais fáceis¨ para estabelecermos
contato com esses anjos, e, de acordo com a data de nascimento de
cada pessoa, é-lhe designado um ¨anjo protetor¨. Ora, na Sagrada
Escritura, há algumas revelações sobre o mundo angélico, mas nada que
chegue a esses níveis de ¨detalhes¨. Assim, conhecemos os nomes de
três Anjos - Miguel, Gabriel e Rafael; o primeiro é o Anjo que
derrotou o ¨dragão¨, comandando os anjos bons na batalha contra os anjos
maus, e também prestou auxílio a Daniel (Ap 12,7e Dn 10,12-21);
o segundo é o anunciador dos nascimentos de João Batista e de Jesus (Lc
1,19-26); e o último acompanhou Tobias em sua viagem (Tb
12,15). Através da Tradição e dos estudos dos
teólogos, baseados nas revelações da Bíblia, temos um maior
aprofundamento na doutrina sobre os anjos, que teve grande impulso
através de São Tomás de Aquino, um dos maiores teólogos da Igreja, que
recebeu o título de ¨Doutor Angélico¨ devido a esses seus estudos.
Temos de tomar cuidado com essas publicações que andam por aí,
pois muitas delas, mais do que esclarecer, podem
confundir-nos. Por exemplo: um certo autor, romancista dos
mais difundidos atualmente, chega a sugerir que devemos pedir a ajuda do
demônio e aceita-lo como amigo, desde que não nos deixemos dominar por ele
(!)... O nosso Anjo da
Guarda
São Basílio recorda-nos que temos um Anjo
que Deus designou para nos acompanhar: ¨Cada fiel é ladeado por um Anjo
como protetor e pastor para conduzi-lo à vida¨. É importante
questionar-nos, de vez em quando, sobre como tem sido nosso trato com o Anjo
da Guarda: se Deus colocou-o ao nosso lado para que nos proteja e
interceda por nós, da infância até a morte, é justo que não nos
esqueçamos desse nosso companheiro.
Podemos (e devemos!) ter um bom relacionamento com nossos Anjos: em
primeiro lugar, com o nosso, mas também com os dos que nos cercam.
Vimos, acima, que ele, nosso Anjo, existe para nos conduzir à vida:
portanto, em todos os assuntos que dizem respeito à nossa vida
espiritual e à saúde de nossa alma é conveniente que lhe peçamos
auxílio. Por exemplo: podemos solicitar que nosso Anjo nos
ajude a vencer as distrações em nossas orações, ou a ter
paciência com aquela pessoa com quem ¨não nos damos muito bem¨, mas
que, por alguns motivos temos de nos relacionar todos os dias;
se alguma vez nos custar ir à confissão, podemos pedir ao nosso Anjo que
nos ajude a voltar à graça de Deus. E podemos, também, pedir-lhe ajuda
para coisas muito positivas: que nos ajude a conseguir aquela virtude
que buscamos, que nos sugira um bom tema para nossa oração (que é
nossa conversa com Deus), etc...
Os Anjos
dos outros
Podemos tratar, também, com os Anjos
daqueles que nos cercam: muitas vezes, os pais não podem acompanhar
seus filhos em todos os lugares. Então, juntamente com o beijo que
dá no filho que está saindo, a mãe pode pedir ao se Anjo que cuide
dele tão bem quanto ela o faria. Ou então, para aquela pessoa que
gostaríamos que se aproximasse novamente dos Sacramentos, podemos pedir ao
seu Anjo que lhe faça ver as maravilhas de estar na Graça de
Deus... Há pessoas que têm por costume cumprimentar, interiormente, o
Anjo daqueles com quem se relaciona no dia-a-dia, e pedir-lhe que os guarde.
Tem pessoas que agem muito piedosamente em relação a esse contato com os
anjos: há uma família que, à mesa das refeições, sempre
deixam um lugar a mais do que o número das pessoas presentes: é ¨o
lugar de Jesus¨, que os ajuda a te-lO mais presente... Podemos adotar
algum costume semelhante para com nosso Anjo da
Guarda.
Ajudas em todos os
campos
Por fim, podemos também solicitar a
ajuda de nosso Anjo nas coisas materiais que nos dizem respeito:
se elas não forem prejudiciais ao nosso bem eterno, ele poderá nos
atender. Assim, por exemplo, podemos pedir- lhe que nos
ajude a não esquecer nada naquela prova difícil, ou que nos lembre de um
compromisso importante; que, num dia de chuva, aquela carro que
vem atrás consiga frear a tempo, e que, num trânsito congestionado,
consigamos chegar a tempo para participar da Missa; ou que nos
ajude a conseguir um trabalho melhor, ou, ainda, que nos mantenha no
atual... Se duvida da ação do anjo em seu meio,
basta que faça um pedido e espere para ver o que acontece. Se você
não pedir ele não saberá o que quer e não poderá te ajudar. Ele
sabe da dúvida que tem em seu coração, no entanto, está esperando o
seu pedido de ouvido bem aberto! A experiência é a melhor maneira de
crer. Ao falar dos Anjos, não podemos nos esquecer
de Maria: no Livro do Gênesis, Deus fala ao demônio:
¨porei inimizade entre ti e a mulher (...) e sua descendência te esmagará a
cabeça¨ (Gn 3,15). Essa passagem é uma alusão a Nossa Senhora, a
Imaculada, que, no Livro do Apocalipse, aparece como a ¨mulher
revestida de sol, com a lua a seus pés e uma coroa de doze
estrelas na cabeça¨ (Ap 12,1), e que enfrenta o dragão, outra imagem do
demônio. Devemos recorrer a Ela sempre que nos sentirmos em
tentação, pois Deus lhe concedeu um grande poder contra o
Maligno. Nossa Senhora é, também a Rainha dos Anjos, como a
invocamos na ladainha: ela nos ajudará a manter viva em nós a presença
desses nossos guardiões, e a recorrer a eles em nossas
necessidades.
Abaixo, há algumas passagens
bíblicas onde apontam os anjos Querubins, Serafins e Arcanjos.
Os
Querubins Em hebraico
kerub, pl. kerubim, são seres mitológicos e gênios vigilantes dos
palácios mesopotâmios. O plural hebraico virou um singular
português (o querubim); daí o plural querubins. O ofício de
vigilantes, já está no Gênesis, como vigilantes da entrada do
Paraíso: ¨Javé Deus expulsou o homem e plantou ante
o Jardim de Éden os Querubins e a chama da espada abanadora, a fim
de vedar o caminho da Árvore da Vida¨ (Gen
3,24).
Para caracterizar a grandeza do rei de
Tiro na Fenícia, Ezequiel empresta o cenário do paraíso vigiado por um
kerub (singular). O Jardim de Éden é chamado ¨Monte santo de
Deus¨. As ¨pedras de fogo¨ lembram um vulcão, um fenômeno ligado à
presença da divindade: ¨Ao lado do querub te
coloquei, no monte santo de Deus. Nasceste
no meio das pedras de fogo¨. (Ez 28,14).
Na tenda da reunião, dois querubins em baixo-relevo adornaram a tampa
da Arca da Aliança (propiciatório), indicando o local onde Javé era
imaginado sentado para atender as preces de Moisés e do povo de
Israel: Ex 25,18-22; Num 7,89; 1Sam 4,4; 2Sam
6,2: ¨Davi e todo o exército que o acompanhava
partiram de Baala de Judá, a fim de transportar a arca de Deus que
lá estava e que leva o nome de Javé dos Exércitos que está sentado sobre os
querubins¨.
No templo de Salomão, os
querubins eram esculturas enormes, colocados ao lado da Arca, cobrindo com
as suas asas o interior do Santíssimo do Templo. Os querubins do
propiciatório continuavam considerados Trono de Javé. Painéis de
querubins cobriam as paredes interiores e exteriores do santuário: 1Rs
6,23-29.
Os Serafins
O hebraico saraf ,
pl serafim, significa ¨ardente¨, ¨abrasador¨, em grego
¨mortífero¨. Como adjetivo, refere-se às ¨Serpentes de Fogo¨ em
Num 21,6: ¨Javé mandou contra o povo serpentes
incendiadas (serafim) cuja mordedura fez perecer muita gente em
Israel¨. ¨Javé, teu Deus, te
conduziu através daquele grande e terrível deserto, repleto da serpente
abrasadora (saraf)¨. (Deut 8,15).
Em
clara observância, o adjetivo qualificativo (ardente) passou para
substantivo qualificado (serpente) recebendo agora o qualificativo
¨voadora¨: ¨Não te alegres, ó Filistéia,
porque da raiz da serpente sairá uma víbora, e o seu fruto será uma
serpente voadora¨ (Is 14,29). E mais, Is
14,29; 30,6.
Seres sobre-humanos:
num terceiro estágio semântico, as serpentes ¨voadoras¨ tornam-se
serpentes com ¨asas¨, ¨aladas¨, seres descomunais e fantásticos,
mais mitológicos do que naturais. Uma coisa dessas, Isaías
¨viu¨ na sua visão vocacional (6,1-7), autênticos serafins angélicos e
únicos de sua espécie na Bíblia. As versões grega e latina conservaram
o termo hebraico (serafim), fato esse que prova que eles não
acharam, na própria língua, uma palavra adequada para tais
criaturas. Já o autor hebreu os denominava aproximadamente,
comparando-os ao que mais se assemelhavam, ou seja, dragões
alados. O Dicionário hebraico aproxima o termo saraf ao árabe sharif =
príncipe, nobre. ¨Eu vi o Adonai sentado
sobre o trono alto e elevado. Acima dele estavam Serafins, cada
um com seis asas: com duas cobriam o rosto, com duas os pés e com
duas voavam. Clamavam uns aos outros e diziam: Santo, Santo,
Santo, Javé dos Exércitos, a sua Glória enche toda a terra. O
troar dos seus clamores fazia oscilar os gonzos dos portões e o templo se
enchia de fumaça¨ (Is 6,1-4).
Os
Arcanjos
O título ¨Arcanjo¨ consta somente no
Novo Testamento, em 1Tes 4,16 e Jud 9, reportando-se a
Miguel. O original grego arch-ángelos significa
¨Príncipe-Anjo¨, ¨chefe dos Anjos¨. Assim, o inventor do
termo já refletia sobre uma hierarquia no interior do mundo
angélico. Para os cristãos, os componentes dos ¨Sete antes o
trono de Deus¨ costumam levar este título. Três são conhecidos na
Bíblia: Miguel, Gabriel e Rafael
Miguel aparece inesperadamente no Antigo Testamento:
¨Miguel, um dos primeiro príncipes, veio em meu
socorro¨ (Dan 10,13.21)
O nome hebraico Mi-Ka-El é uma pergunta
retórica: ¨Quem é como Deus?¨ e é encontrado várias vezes na
Bíblia; por exemplo: ¨Quem é como Tu,
Javé, entre os deuses?¨ (Ex 15,11) ¨Quem é Deus
senão Javé, quem é como Tu?¨ (Sl 18,32) E mais
ainda: Deut 3,24; Sl 35,10; 86,8; 89,9; Is
40,18; 44,7; 46,5.
Gabriel significa ¨Força de
Deus¨ ou ¨Varão de Deus¨. No A.T. ele apareceu duas vezes a Daniel
como intérprete dos mistérios do futuro de
Israel: ¨Ouvi uma voz humana sobre o rio Ulai, que
gritava e dizia: Gabriel, explica a este a visão!¨ (Dan
8,16). ¨Eu estava ainda falando em oração,
quando Gabriel, aquele varão que tinha visto antes, aproximou-se de
mim, num vôo rápido para me falar¨ (Dan
9,21).
No Alcorão, Gabriel é o
interlocutor de Maomé e portador da mensagem celeste. O seu nome árabe
é Djibril.
Rafael significa ¨Deus curou¨ ou
¨Cura de Deus¨. O seu nome é justificado na história de Tobias (pai) e
de Sara, noiva de Tobias (filho). Pai e nora suplicaram a
Deus pela cura de suas moléstias e na hora da súplica, Rafael foi
enviado à terra: ¨Naquele instante, na Glória
de Deus, foi atendida a oração de ambos; e foi destacado Rafael
para curar os dois: tirar as manchas brancas dos olhos de Tobit e
entregar Sara como esposa a Tobias¨ (Tob
3,16.17).
Para valer a Tobias e a Sara, Rafael
demonstrou seu poder sobre o demônio Asmodeu:
¨O cheiro de peixe expulsou o demônio, que fugiu
pelos ares até o Egito; Rafael o perseguiu e acorrentou
imediatamente¨ (Tob 8,3).
Solene
identificação da parte do Anjo Rafael
¨Vou
confessar-vos toda a verdade: Quando tu e Sara fazíeis oração, era eu
quem apresentava o atestado de vossas súplicas ante a Glória do
Senhor; quando não hesitaste em te levantar da mesa para sepultar um
defunto, fui enviado para te pôr à prova; e ao mesmo
tempo, Deus me destacou para te curar a ti e à tua nora
Sara. EU SOU RAFAEL, um dos sete que estão presentes ante a Glória
do Senhor. Ambos, Tobit e Tobias, quedaram de
espanto e caíram com a face por terra, com grande pavor. Mas Rafael
lhes disse: Não tenhais medo! A paz esteja convosco!
Bendizei a Deus para sempre! Se estive convosco, não era pura
benevolência minha, mais era vontade de Deus. A Ele deveis louvar
todos os dias, a Ele deveis cantar. Todos os dias eu fui visto
por vós; não comia nem bebia; é que tivestes apenas uma
visão. Agora vou voltar para Aquele que me enviou¨ (Tob
12,11-21). Aparência
externa dos Anjos
Varões ou
donzelas?
Em todos os lugares até agora
referidos, o visual externo do Anjo é algo verdadeiramente
descomunal. Posto em frente à aparição, o homem fica
perplexo, assustado, desmaiado! Assim, por
exemplo, Daniel: ¨À sua chegada, eu fui tomado
de terror e caí com a face por terra... Ele fala ainda, quando
desmaiei, caindo no chão¨ (8,17.18)
¨Levantei os olhos para observar, e vi: Um homem vestido de linho, os
rins cingidos de ouro puro, seu corpo de aparência de crisólito e o seu
semblante como um relâmpago, seus olhos como faróis de fogo, seus
braços e pernas como fulgor de bronze polido, e o som de suas palavras
como clamor de uma multidão. Somente eu, Daniel, vi esta
aparição. Os homens que estavam comigo não viam e, no entanto, um
grande temor os abateu a ponto de fugirem para se esconder (At 22,9;
26,14). Ao ouvir o som de suas palavras desmaiei sobre meu rosto,
caindo por terra. Mas, eis que certa mão me tocou e me fez
levantar, tremendo, sobre os joelhos. Ele me disse:
Daniel! Põe-te de pé porque é para ti que eu fui enviado. Ao
dizer-me estas palavras, levantei-me, todo trêmulo. E ele prosseguiu:
Não temas!¨ (10,4-12).
Ao sacerdote
Zacarias: ¨Apareceu-lhe o Anjo, de pé, à direita do altar
do incenso. Ao vê-lo, Zacarias perturbou-se e o temor
apoderou-se dele. Disse-lhe, porém o Anjo: Não temas,
Zacarias!¨ (Lc 1,11-13).
Gabriel é chamado
expressamente ¨varão¨ (Dan 9,21). Rafael é um ¨jovem¨ (Tob 5,5),
e assim por diante, até o séc. 13, quando, ninguém sabe o porquê, os Anjos
começaram a se transformar em figuras femininas, mocinhas doces e
bonitas. E não bastava! A arte barroca pintava- os como crianças
decorativas, de corpinhos roliços e sensuais. Às vezes, até
sobravam as cabecinhas enfeitadas de asinhas de galinhas, como se
fossem emblemas duma companhia aérea! Semelhantes desvios
artísticos estão causando enorme prejuízo ao culto dos Anjos e à
Religião em geral, destruindo-lhe a seriedade e a credibilidade.
Que blasfêmia e que profanação, quando um príncipe celeste é degradado
para figurar como mocinha segurando lâmpadas elétricas ao lado do
altar! É o fim da seriedade teológica e
espiritual.
O idioma dos
Anjos
Afirmação de grande efeito retórico para
demonstrar a superioridade do amor (caridade) sobre todos os
carismas. O estilo tem analogias com o seguinte. Não faltam
na Bíblia alusões à fala dos Anjos; eles cantam louvores ao
Altíssimo, mas em que língua? Quando arrebatado ao Paraíso,
Paulo ouviu palavras impronunciáveis em qualquer idioma humano.
Palavras supõem conceitos e pensamentos; no Céu deve ser tudo
diferente: ¨Ainda que eu falasse as línguas dos
homens e dos Anjos; se não tivesse caridade, seria um bronze que
ressoa¨ (1Cor 13,1).
Culto prestado
aos Anjos
É preciso distinguir entre culto e
culto. Quando Cornélio se prostrou ante Pedro (S 80), ou quando o
visionário do Apocalipse quis adorar o Anjo (19,10 e 22,8), então
eles agiram com boas intenções, embora exagerando. Existe,
porém, na história religiosa, um culto indevido, uma religião de
cunho gnóstico, na qual os Anjos são considerados como entidades autônomas,
intermediárias entre um deus distante do mundo material e os
homens. Num sistema deste tipo, os Anjos já não são mais
criaturas postas ao serviço dos homens e de Deus:
¨Ninguém vos prive de vosso prêmio com engodo de humildade e de veneração
dos Anjos, embevecido por coisas que teria visto¨ (Col
2,18). Isso mostra que o próprio Deus não faz
objeção em ver-nos venerando (e não adorando) os Anjos. Se permite
a veneração aos Anjos, o que dirá então à respeito da Mulher que
escolheu para ser a mãe de Seu próprio filho?
Revista Cavaleiro da
Imaculada / Os Anjos na Bíblia [ O Recado ] Pe. Frederico
Dattler
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