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“Qual o resultado que obteremos se
compararmos a Igreja com o «mundo» que está fora dela, ou que se opõe a
ela, ou que nos é oferecido como uma alternativa para a Igreja?”
A maior parte dos homens retornaria aos antigos costumes em matéria de
fé e de moral se conseguissem ampliar suficientemente os seus
horizontes. É principalmente a sua estreiteza mental que os mantém nos
trilhos da negação. Mas esse alargamento mental é facilmente mal
interpretado, porque a mente precisa ser alargada para poder enxergar
as coisas simples, ou mesmo as que são evidentes em si mesmas. Temos
necessidade de uma espécie de esticamento da nossa imaginação para
conseguirmos ver os objetos óbvios delinearem-se contra o seu fundo
óbvio, especialmente quando se trata de objetos grandes colocados
diante de um fundo grande.
Sempre há, por exemplo, aquele tipo de pessoas que não conseguem
enxergar nada além da mancha no tapete, a tal ponto que são incapazes
de enxergar sequer o tapete; esse tipo de atitude tende à irritação,
que por vezes se amplia até à rebelião. Depois, há aquele tipo de
pessoas que só conseguem enxergar o tapete, talvez por tratar-se um
tapete novo; essa atitude já é mais humana, mas pode facilmente estar
tingida de vaidade e até de vulgaridade. Há também o homem que só
enxerga o aposento atapetado, e assim tende a estar isolado de muitas
outras coisas – especialmente das dependências do empregados. E, por
fim, há o homem alargado pela imaginação, que é incapaz de permanecer
sentado no quarto atapetado, ou mesmo no porão do carvão, sem enxergar
a todo o momento o perfil da casa inteira delineado contra o seu fundo
primevo de terra e céu. Este homem, que compreende que desde a sua
origem o telhado foi concebido como um escudo contra o sol e a neve, e
a porta contra o frio e a lama, saberá melhor – e não pior – do que o
primeiro que não deveria haver uma mancha no tapete. E, ao contrário
desse homem, saberá também por que existe um tapete.
Este homem olhará do mesmo modo as falhas e manchas que possa haver na
história da sua tradição e do seu credo. Não procurará explicá-las
engenhosamente, nem muito menos tentará negá-las. Muito pelo contrário,
enxerga-las-á com toda a simplicidade, mas também as enxergará dentro
de um marco muito amplo, e contrastando com um fundo ainda mais amplo.
Fará aquilo que os seus críticos, em hipótese alguma, são capazes de
fazer: verá as coisas óbvias e fará as perguntas óbvias. Quanto mais
leio as modernas críticas contra a religião, e especialmente contra a
minha própria religião, mais me assusta essa estreita concentração em
determinados pontos, essa incapacidade imaginativa de compreender o
problema como um todo.
Andei lendo recentemente uma condenação muito moderada das práticas
católicas tradicionais, vinda dos Estados Unidos, onde esse tipo de
condenações nem sempre é muito moderado. Falando de maneira genérica,
poderia dizer que essa crítica assume a forma de um enxame de
questiúnculas, às quais eu estaria plenamente disposto a responder se
não tivesse uma consciência tão viva das grandes perguntas que não são
formuladas, aos invés das pequenas perguntas que o são. Acima de tudo,
sinto falta deste fato tão simples e tão esquecido: sejam ou não
verdadeiras determinadas acusações que se lançam contra os católicos, o
que está além de qualquer dúvida é que são verdadeiras quando aplicadas
a qualquer outra instituição. O crítico nunca se lembra de fazer alguma
coisa tão simples como comparar o católico com o não-católico. A única
coisa que nunca parece cruzar-lhe a mente, quando argumenta acerca da
idéia que tem da Igreja, é perguntar-se com toda a simplicidade que
seria do mundo sem a Igreja.
É isto o que procuro exprimir ao dizer que se pode ser demasiado
estreito para enxergar a casa que se chama Igreja contra o seu fundo
que se chama Cosmos. A título de exemplo: o autor que acabei de
mencionar incorre na milionésima repetição mecânica da acusação de
repetição mecânica; diz ele que repetimos as orações e outras fórmulas
verbais sem pensar no seu significado. Não há dúvida de que conta com
milhares de simpatizantes que repetirão essa denúncia depois dele, sem
pensarem nem por um momento no que significa. Mas, antes mesmo de
explicarmos quais são realmente os ensinamentos da Igreja a esse
respeito, ou de citarmos as suas inúmeras recomendações para que se
procure prestar atenção às orações vocais, ou de expormos as razões das
razoáveis exceções que ela autoriza, há uma ampla, simples e luminosa
verdade acerca de toda essa questão, e qualquer pessoa pode vê-la se
andar pelo mundo de olhos abertos: é o fato óbvio de que todas as
formas de dizer humanas tendem a fossilizar-se em formalismos, e de que
a Igreja é um exemplo único na História, não por falar uma língua morta
num mundo de línguas imortais, mas, pelo contrário, por ter preservado
uma língua viva num mundo de línguas moribundas. Explico-me.
Quando o grande brado grego, velho como o próprio cristianismo, invade
a Missa, muitos talvez se surpreenderão ao descobrir que há muita gente
na igreja que repete “Senhor, tende piedade de nós”, e pretende
realmente afirmar o que está dizendo. Seja como for, essas pessoas têm
muito mais consciência do que dizem do que um homem que encabeça uma
carta com um “Prezado Senhor”. “Prezado” é, neste contexto,
evidentemente uma palavra morta; no lugar em que é empregada, deixou de
ter qualquer significado. No entanto, é exatamente isto o que qualquer
crítico alega contra “os ritos e as formas papistas”: trata-se de um
ato realizado de maneira rápida, ritual, sem se conservar a menor
lembrança do seu significado.
Quando o Senhor Jones, advogado, escreve “prezado Senhor” ao Senhor
Brown, o banqueiro, não pretende afirmar que sente profunda afeição
pelo banqueiro, ou que o seu coração está repleto de caridade cristã,
nem mesmo naquela ínfima medida em que o está o coração de um pobre
papista ignorante a assistir à Missa. Ora bem, a vida, essa vida humana
ordinária, simples, divertida, pagã, simplesmente transborda de
palavras mortas e de cerimônias sem significado. Não se escapará delas
fugindo da Igreja para o “mundo”. Quando o crítico em questão, ou mil
outros críticos iguais a ele, afirma que só se exige do católico uma
presença material ou mecânica na Missa, está a afirmar algo que
simplesmente não se aplica ao católico médio nas suas disposições para
com os sacramentos católicos. Mas diz algo que efetivamente é verdade
se for aplicado a qualquer funcionário público médio no desempenho das
suas funções, a qualquer baile da Corte ou recepção no Ministério, ou a
aproximadamente três quartos daquilo que a sociedade normal chama
“visitas de cortesia”.
Essa morte lenta dos atos sociais repetitivos pode ser indiferente em
si mesma, ou pode ser melancólica, ou pode ser uma conseqüência do
Pecado Original, ou pode ser qualquer coisa que o crítico deseje. Mas
aqueles que fizeram disso, centenas e centenas de vezes, uma acusação
especial e concentrada contra a Igreja, são homens cegos para o inteiro
mundo humano em que vivem e incapazes de enxergar qualquer coisa para
além da única coisa que sabem repetir.
Ainda no escrito que mencionei, há inúmeros outros casos dessa estranha
e sinistra inconsciência. O autor queixa-se, por exemplo, de que os
sacerdotes são conduzidos de olhos vendados ao seu ministério e não
compreendem os deveres que traz consigo. Também isso já o ouvimos
antes. Mas raramente o ouvi formulado de maneira tão extraordinária
como nessa acusação de que um homem pode ser definitivamente votado ao
sacerdócio “desde a infância”. O autor parece ter idéias bastante
curiosas e elásticas acerca da duração da infância, <...> pois um
sacerdote tem pelo menos vinte e quatro anos quando formula os seus
compromissos. Mais uma vez, sinto-me perseguido pela enorme e nua e
mesmo assim negligenciada comparação entre a Igreja e tudo aquilo que
está fora da Igreja. <...>
Com efeito, que havemos de dizer aos que quereriam comparar o
patriotismo ou a cidadania civil com a Igreja nesta matéria? Rapazes de
dezoito anos têm de alistar-se obrigatoriamente; na Guerra, vimos
voluntários de dezesseis anos serem aplaudidos por afirmarem que tinham
dezoito; vimo-los ser lançados aos milhares naquela imensa fornalha e
câmara de torturas, que a sua imaginação era incapaz de conceber de
antemão, e da qual a sua honra os proibia de fugir; e vimo-los ser
mantidos nesses horrores ano após ano, sem qualquer esperança de
vitória; e vimo-los ser mortos como moscas, aos milhões, antes de que
tivessem tido a oportunidade de viver. Isto é o que faz o Estado; isto
é o que faz o “mundo”; isto é o que faz a sociedade, essa sociedade
secularizada, prática e razoável. E depois de tudo isso, ainda têm a
inominável impudência de vir queixar-se de nós porque permitimos que,
dentre uma pequena minoria especializada, um homem escolha uma vida de
caridade e paz, não depois de ter completado vinte e um anos, mas
quando já se aproxima dos trinta, e depois de ter tido quase dez anos
para refletir serenamente sobre a sua vocação!
Em suma, sinto falta, em tudo isso, da pergunta óbvia: qual o resultado
que obteremos se compararmos a Igreja com o “mundo” que está fora dela,
ou que se opõe a ela, ou que nos é oferecido como uma alternativa para
a Igreja? E a evidente resposta é que o “mundo”comete todas as
barbaridades de que sempre acusou a Igreja, e as comete de maneira
muito pior, e as comete em escala muito maior, e – e isto é o pior e o
mais importante – as comete sem dispor de padrões para voltar à
sanidade nem de motivos para fazer um movimento de penitência. Os
abusos católicos podem ser reformados, porque dispomos de uma forma
universalmente aceita; os pecados católicos podem ser expiados, porque
há um teste e um princípio de expiação. Em que outra parte do mundo de
hoje havemos de encontrar semelhante teste ou padrão? Ou mesmo qualquer
coisa além de veleidades sempre cambiantes, que fizeram do patriotismo
a grande moda de há dez anos, e do pacifismo a grande moda dez anos
depois?
O perigo atual é que as pessoas não se dispõem a ampliar
suficientemente os seus horizontes a ponto de se tornarem capazes de
enxergar as coisas óbvias, e esta é uma delas. Os homens acusam a
tradição Romana de ser semi-pagã, e depois se refugiam num paganismo
completo; queixam-se de que os cristãos se deixaram contaminar pelo
paganismo, e depois fogem dos doentes para se refugiarem junto à
doença. Não há uma única falta institucional imputada à Igreja Católica
que não esteja presente de maneira muitíssimo mais flagrante, e até
gritante, em qualquer outra instituição – o Estado, a Escola, a moderna
máquina tributária e policial – que as pessoas se voltam, na esperança
de que serão salvas por elas da superstição dos seus pais. Esta é a
contradição, esta é a violenta colisão, este é o inevitável desastre
intelectual em que estão envolvidas até as orelhas. Quanto a nós, só
nos resta esperar, pondo em jogo toda a paciência de que sejamos
capazes, até descobrirmos quanto tempo levarão para descobrir o que foi
que lhes aconteceu.
Autor: Gilbert Keith Chesterton
(A simple thought, in The Thing, Sheed & Ward, Londres, 1946)
Fonte: CHESTERTON, G. K. Os Paradoxos do Cristianismo. São Paulo: Quadrante, 1993
Tradução: Henrique Elfes
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