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Derradeiras Graças
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Íntegra do discurso do papa João Paulo II no 25º ano de seu pontificado PDF Imprimir E-mail
25-Out-2003
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Renova a Deus o dom de si mesmo, «do presente e do futuro»
Segue na íntegra a homilia que João Paulo II pronunciada durante a celebração eucarística de ação de graças por seu 25º aniversário de pontificado em 16 de outubro.

1. «“Misercordias Domini in aeternum cantabo” - Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor…» (Cf. Salmo 88, 2). Há vinte e cinco anos experimentei de maneira particular a misericórdia divina. No Conclave, por meio do Colégio Cardinalício, Cristo também me disse, como em uma ocasião a Pedro no Lago de Genesaré: «Apascenta minhas ovelhas» (Jo 21, 16).

Sentia em meu espírito o eco da pergunta dirigida então a Pedro: «Tu me amas mais do que estes?» (Cf. João 21, 15-16). Como podia não tremer, humanamente falando. Como não podia pesar-me uma responsabilidade tão grande? Tive que recorrer à divina misericórdia para que diante da pergunta: «Aceitas?», pudesse responder com confiança: «Na obediência da fé, ante Cristo meu Senhor, encomendo-me à Mãe de Cristo e da Igreja, consciente das grandes dificuldades, aceito».

Hoje, queridos irmãos e irmãs, me é grato partilhar convosco uma experiência que dura já um quarto de século. Cada dia revivo em meu coração o mesmo diálogo entre Jesus e Pedro. Em meu espírito, contemplo o olhar benevolente de Cristo ressucitado. Ele, apesar de consciente de minha fragilidade humana, me alenta a responder com confiança como Pedro: «Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo» (João 21, 17). E depois me convida a assumir as responsabilidades que ele mesmo me confiou.

2. «O bom pastor dá sua vida pelas ovelhas» (João 10, 11). Enquanto Jesus pronunciava estas palavras, os apóstolos não sabiam que falava de si mesmo. Não sabia nem sequer João, o apóstolo predileto. Compreendeu isso no Calvário, aos pés da Cruz, ao vê-lo oferecer silenciosamente a vida por «suas ovelhas».

Quando chegou para ele e para os demais apóstolos o momento de assumir a missão, então se lembraram de suas palavras. Perceberam que só pelo fato de lhes ter assegurado que Ele mesmo atuaria através deles, seriam capazes de cumprir a missão.

Disto foi particularmente consciente Pedro, «testemunha dos sofrimentos de Cristo» (1 Pedro 5,1), que exortava aos anciãos da Igreja: «apascenta o rebanho de Deus que vos está encomendado» (1 Pedro 5, 2).

Através dos séculos, os sucessores dos apóstolos, guiados pelo Espírito Santo, seguiram reunindo o rebanho de Cristo e guiando-o para o Reino dos céus, conscientes de poder assumir esta responsabilidade tão grande só «por Cristo, com Cristo e em Cristo».

Esta mesma consciência eu tive quando o Senhor me chamou para desempenhar a missão de Pedro nesta amada cidade de Roma e ao serviço de todo o mundo. Desde o início do pontificado, meus pensamentos, minhas orações e minhas ações foram animados por um único desejo: testemunhar que Cristo, o Bom Pastor, está presente e atua em sua Igreja. Ele está em contínua busca de cada ovelha perdida, volta a levá-la ao redil, cura suas feridas, atende a ovelha fraca e enferma e protege a forte. Por este motivo, desde o primeiro dia, não deixei nunca de clamar: «Não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar sua potestade!». Repito hoje com força: «Abri, abri completamente as portas para Cristo!». Desejai guiar-vos por Ele! Confiai em seu amor!

3. Ao iniciar meu pontificado, pedi: «Ajudai o Papa e a todos que querem servir a Cristo e, com a potestade de Cristo, servir ao homem e a toda a humanidade”». Enquanto dou graças a Deus junto a vós por estes vinte e cinco anos, marcados totalmente por sua misericórdia, sinto a necessidade particular de expressar minha gratidão também a vós, irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro, que respondestes e seguistes respondendo de diversas maneiras meu pedido de ajuda. Só Deus sabe quantos sacrifícios, orações e sofrimentos foram oferecidos para sustentar-me em meu serviço à Igreja. Quanta benevolência e atenção, quantos sinais de comunhão me rodearam cada dia. Que o bom Deus vos recompense a todos com generosidade! Peço-vos, queridos irmãos e irmãs, não interrompais esta grande obra de amor pelo sucessor de Pedro. Peço-vos uma vez mais: ajudai o Papa e a todos os que querem servir a Cristo a servir o homem e a toda a humanidade!

4. A ti, Senhor Jesus, único Pastor da Igreja, ofereço os frutos destes vinte e cinco aos de ministério ao serviço do povo que me confiaste. Perdoai o que foi mal realizado e multiplicai o bem: tudo é obra tua e a ti somente se deve a glória. Com plena confiança em tua misericórdia, apresento-te hoje uma vez mais aqueles que há anos confiaste à minha atenção pastoral. Conservai-os no amor, reuni-os em teu rebanho, carregai em teus ombros os fracos, curai os feridos, cuidai dos fortes. Seja seu Pastor, para que não se percam. Protege a querida Igreja que está em Roma e as Igrejas de todo o mundo. Auxilia com a luz e a potência de teu Espírito aqueles que puseste ao mando de teu rebanho: que cumpram com impulso sua missão de guias, mestres, santificadores, na espera de teu retorno glorioso. Renovo-te, por intercessão de Maria, Mãe amada, o dom de mim mesmo, do presente e do futuro: que tudo se cumpra segundo tua vontade, Pastor supremo, ficai entre nós, para que possamos avançar contigo seguros para a casa do Pai (para a casa do Pai, repetiu).

Amém.

JOÃO PAULO II: MADRE TERESA ENSINA QUE A EVANGELIZAÇÃO PASSA PELA CARIDADE
Homilia da celebração eucarística de beatificação da religiosa albanesa

Publicamos a seguir a homilia de João Paulo II da eucaristia celebrada na manhã deste domingo na Praça de São Pedro, durante a qual foi beatificada Madre Teresa de Calcutá.

Diante das mais de 300.000 pessoas que encheram a praça e seus arredores, o texto foi lido pelo arcebispo argentino Leonardo Sandri, substituto para os Assuntos Gerais da Secretaria de Estado do Vaticano, e pelo arcebispo de Bombaim, cardeal Ivan Dias.

1. «Quem quiser ser o primeiro entre vós seja o escravo de todos» (Mc 10, 44). Estas palavras de Jesus aos discípulos, que acabam de ressoar nesta praça, indicam qual é o caminho que conduz à «grandeza» evangélica. É o caminho que Cristo mesmo percorreu até a Cruz, um itinerário de amor e de serviço que vai contra toda lógica humana. Ser o servo de todos!

Por esta lógica se deixou guiar Madre Teresa de Calcutá, Fundadora dos Missionários e das Missionárias da Caridade, que hoje tenho a alegria de inscrever no Catálogo dos Beatos. Estou pessoalmente agradecido por esta valorosa mulher, a quem sempre senti próxima de mim. Imagem do Bom Samaritano, ela se acercava a qualquer lugar para servir a Cristo nos mais pobres entre os pobres. Nem os conflitos nem as guerras conseguiram detê-la.

De vez em quando vinha falar-me de suas experiências no serviço dos valores evangélicos. Recordo, por exemplo, quando disse ao receber o prêmio Nobel da Paz: «Se ouvis que alguma mulher não quer ter seu filho e deseja abortar, tentai convencê-la para que me traga esse filho. Eu o amarei, vendo nele o sinal do amor de Deus» (Oslo, 10 de dezembro de 1979).

2. Não é significativo que sua beatificação aconteça precisamente no dia em que a Igreja celebra a Jornada Missionária Mundial? Com o testemunho de sua vida, Madre Teresa recorda a todos que a missão evangelizadora da Igreja passa através da caridade, alimentada na oração e na escuta da palavra de Deus. Emblemática deste estilo missionário é a imagem que reflete a nova Beata enquanto sustenta, com uma mão, a de uma criança e, com a outra, percorre a coroa do Rosário.

Contemplação e ação, evangelização e promoção humana: Madre Teresa proclama o Evangelho com sua vida entregue por inteiro aos pobres, mas, ao mesmo tempo, envolvida na oração.

3. «Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve» (Mc 10, 43). Com particular emoção recordamos hoje Madre Teresa, uma grande servidora dos pobres, da Igreja e do mundo inteiro. Sua vida é um testemunho da dignidade e do privilégio do serviço humilde. Elegeu ser não só a última, mas a serva dos últimos. Como uma verdadeira mãe dos pobres, inclinou-se aos que sofriam diferentes formas de pobreza. Sua grandeza reside em sua capacidade de dar sem importar o custo, dar «até que doa». Sua vida foi uma vida radical e uma valente proclamação do Evangelho.

O grito de Jesus na cruz, «Tenho sede» (Jo 19, 28), expressando a profundidade do desejo de Deus pelo Homem, penetrou a alma de Madre Teresa e encontrou terra fértil em seu coração. Saciar a sede de amor e de almas de Jesus, em união com Maria, a Mãe de Jesus: isto se converteu no objetivo da existência de Madre Teresa e na força que a tirou de si mesma e a levou a percorrer o mundo para trabalhar pela salvação e santificação dos mais pobres entre os pobres.

4. «O quanto fizeste a um desses irmãos mais pequeninos, a mim o fizeste» (Mt 25, 49). Esta passagem do Evangelho, crucial para compreender o serviço de Madre Teresa aos pobres, era a base de sua convicção cheia de fé de que ao tocar os corpos feridos dos pobres ela estava tocando o corpo de Cristo. Era ao próprio Jesus, oculto sob a dolorosa aparência dos mais pobres entre os pobres, a quem se dirigia seu serviço. Madre Teresa põe em evidência o significado mais profundo do serviço: um ato de amor praticado ao que tem fome, sede, ao estrangeiro, ao que está nu, ao enfermo, ao prisioneiro (Cf. Mt 25, 34-36), se pratica ao próprio Jesus.

Reconhecendo a Ele, ela se consagrou com toda devoção, expressando a delicadeza de seu amor esponsal. Desta forma, em total doação de si mesma a Deus e ao próximo, Madre Teresa encontrou sua grande realização e viveu as mais nobres qualidades de sua feminilidade. Quis ser um sinal «do amor de Deus, da presença de Deus, da compaixão de Deus» e assim recordou a todos o valor e a dignidade de cada filho de Deus, «criado para amar e ser amado». Assim fez Madre Teresa, «levando as almas a Deus e Deus às almas» e saciando a sede de Cristo, especialmente naqueles mais necessitados, aqueles cuja visão de Deus ficara obscurecida pelo sofrimento e a dor.

5. «O Filho do homem veio para dar sua própria vida em resgate de muitos» (Mc 10, 45). Madre Teresa participou da paixão do Crucificado, de forma especial durante longos anos de «escuridão interior». Foi aquela uma prova às vezes muito dolorosa, acolhida como um singular «Dom e privilégio».

Nas horas mais obscuras se entretinha com maior tenacidade à oração ante o Santíssimo Sacramento. Este duro trabalho espiritual a levou a identificar-se cada vez mais com quem servia todo dia, experimentando a tristeza e até mesmo a rejeição». Amava repetir que a maior pobreza é não ser desejado, não ter ninguém que se ocupe de alguém.

6. «Dai-nos, Senhor, tua graça, e em Ti esperamos!». Quantas vezes, como o Salmista, Madre Teresa também nos momentos de desolação interior repetiu a seu Senhor. «Em Ti, em Ti espero, Deus meu!».

Nossa admiração a esta pequena mulher enamorada de Deus, humilde mensageira do Evangelho e infatigável benfeitora da humanidade. Honremos nela a uma das personalidades mais relevantes de nossa época. Acolhamos sua mensagem e sigamos seu exemplo.

Virgem Maria, Rainha de todos os Santos, ajuda-nos a ser mansos e humildes e coração como esta intrépida mensageira do Amor. Ajuda-nos a servir com alegria toda pessoa que encontremos. Ajuda-nos a ser missionários de Cristo, nossa paz e nossa esperança. Amém!

 
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