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O ESCÂNDALO DA POBREZA E AS RAÍZES DE UM EMPENHO PDF Imprimir E-mail
Escrito por CEI - Itaici   
20-Jan-2006
ENTREVISTA COM DOM LUCIANO MENDES DE ALMEIDA, SJ
Jesuíta, Arcebispo de Mariana, figura reconhecida no episcopado brasileiro, Dom Luciano responde, nesta entrevista, a perguntas sobre a ação da Igreja no Brasil contra a fome, dá suas impressões sobre o governo do Presidente Lula e o que há por trás da diminuição dos fiéis católicos. No fundo, o desafio de sempre: viver o Evangelho com radicalidade.
"Se os que levam o nome de Jesus não têm piedade da multidão dos famintos que hoje invade inteiros continentes, quer dizer que, para eles, o cristianismo se tornou um entretenimento religioso para uso da burguesia ocidental" - Dom Luciano Mendes de Almeida, jesuíta, Arcebispo de Mariana, a mais antiga cidade e sede prima de Minas Gerais, a 120 km de Belo Horizonte, a capital do Estado, é uma das personalidades de maior projeção do episcopado brasileiro. Entre 1987 e 1995 foi Presidente da CNBB. Em Santo Domingo foi o principal redator dos documentos da IV Conferência Episcopal Latino-americana. Atualmente é responsável do "Mutirão contra a miséria e a fome", lançada pelos Bispos do Brasil, que é preciso não confundir com o projeto "Fome Zero", de iniciativa do governo federal, com o qual tem concordância de objetivos. Nós o encontramos em Turim, na reunião "Turim - espiritualidade", onde foi convidado a falar da luta contra a fome.

Excelência, combater a forme é ainda uma prioridade para os fiéis?

Oito por cento dos brasileiros possuem 47% do território nacional. Até agora não se realizou uma distribuição que permita aos 12 milhões dos sem terra ter uma propriedade e iniciar uma lavoura.

Do ponto de vista cristão, esta desigualdade é um desafio à fé. Também é um desafio para qualquer pessoa, mas sobretudo para quem tem uma fé. A Igreja no Brasil está consciente de que se, numa nação rica de recursos naturais, a pobreza é tão grande por causa das desigualdades sociais, isto significa que o Evangelho foi traído. Esta desproporção entre a riqueza de poucos e a pobreza de tantos é um escândalo para a vida cristã, pois indica a falta de uma solidariedade e, portanto, de coerência em perseguir os valores da fraternidade e da partilha, próprios da do testemunho cristão.

Este tema já era tratado em Puebla, em 1979, e foi retomado em São Domingo, quando João Paulo II quis colocar como tema central dos trabalhos da Assembléia (do Episcopado Latino-americana, CELAM) a promoção humana. A CNBB, em 2005, elaborou um documento, indicando três principais desafios a serem enfrentados: o pluralismo doutrinal, donde a necessidade de um discernimento sobre os valores; a exclusão social, pois 55 milhões de brasileiros não têm condições dignas de vida; a biotecnologia e progresso científico.

A respeito do latifúndio, quando Lula se tornou Presidente, em 2002, era grande a esperança de que se pudesse chegar, finalmente, a uma reforma agrária, mas isto não se deu, pelo menos até agora...

O Brasil não possui uma legislação apropriada para permitir uma reforma agrária, porque falta uma definição clara do que seja "terra não produtiva". É preciso defini-lo, para que se possa colocar terras concretamente à disposição dos sem terra. A dificuldade de chegar a esta definição legal deste ponto vem do fato que, entre os parlamentares há muitos proprietários rurais, o que torna difícil enfrentar a questão.

Contudo, hoje, não se fala apenas da distribuição de terra, considerada insuficiente numa nova visão de agricultura, pois, quem possui a terra deve dispor também de todo o necessário para cultivá-la e ter a certeza de que a produção encontrará colocação no mercado.

Trata-se de uma questão mais ampla do que uma simples repartição, uma visão de conjunto que pede um programa governamental muito preciso.

Contudo, é verdade que estamos um pouco desiludidos com este governo, que, inicialmente, havia colocado os valores éticos como uma de suas características, mas que manteve nos seus quadros pessoas que não procederam de maneira ética, fazendo diminuir a credibilidade do poder executivo.

Também o programa "Fome Zero", lançado por Lula alimentou notáveis esperanças. O balanço feito por alguns observadores se mostra desiludido...

Minha opinião a respeito é mais positiva. É necessário distinguir do programa da Igreja católica, que se iniciou anteriormente, e que tem como objetivo convidar todas as comunidades ao esforço conjunto para superar a fome e a miséria e chegar a uma vida digna para todos.

Esta mensagem entrou no coração de nossas comunidades e produziu frutos evidentes. Basta lembrar nas cisternas das regiões semi-áridas; às hortas comunitárias; aos grupos de artesãos; aos projetos de desenvolvimento nas áreas amazônicas. São sementes que estão dando frutos.

Outra coisa é o "Fome Zero", programa de iniciativa do governo. Podemos referi os frutos do "bolsa família", que tem ajudado a tantos núcleos familiares, sobretudo nos municípios mais pobres de cada Estado da Federação. Embora não se possa dizer que o governo fez tudo quanto havia prometido, todavia não se pode afirmar que o "Fome Zero" não seja positivo.

Qual é o objetivo desta campanha levada adiante pela Igreja?

Para a comunidade cristão é fundamental ser não apenas uma entidade que promove ações de desenvolvimento, mas promove uma conversão de mentalidade. Direi que isto é o elemento central da ação da Igreja na luta contra a fome, para eliminar o vírus que se alojou no coração humano, tanto dos ricos quanto dos pobres: o rico quer acumular sempre mais; o pobre tem como seu maior sonho ganhar na loteria. Em ambos os casos o valor guia é a riqueza. Se não se supera esta mentalidade com uma atitude de liberdade diante dos bens materiais, não chegaremos a derrotar a fome.

O Senhor recordou Puebla, a Assembléia do Episcopado Latino-americano de 1979, num clima eclesial muito diferente do atual. Em particular, eram os anos da expansão da teologia da libertação. O que resta hoje desta corrente teológica?

Muito, porque a teologia da libertação indicava a necessidade de se apoiar sobretudo nas organizações populares, para que os excluídos se tornassem sujeito de sua própria promoção. Esta é uma convicção adquirida por muitos brasileiros. A mesma teologia da libertação teve oportunidade de aperfeiçoar-se, compreendendo o fato que há excluídos que não estão em condições de se organizarem: crianças, portadores de deficiências, populações analfabetas. É preciso ajudá-las a se promoverem. Não acredito que a teologia da libertação esteja superada, mas deve ser ampliada, insistindo sobre a necessidade de promover o próximo.

Talvez, porém, a verdadeira urgência para a Igreja no Brasil seja a forte difusão das "seitas", como a Igreja Universal e várias denominações pentecostais. Trata-se de um fenômeno preocupante?

Este não é um problema que deva ser analisado apenas na ótica da diminuição do número de católicos. Trata-se de um fenômeno mais complexo, que se compreende sob o nome de "trânsito religioso", isto é, o fato de que se troca freqüentemente de pertença religiosa, passando de um grupo a outro, de uma igreja a outra. Então o problema não é apenas que um certo número de católicos se tenha tornado pentecostal, mas o fato de que a mesma pertença religiosa esteja em discussão. As raízes religiosas não são profundas, cria-se uma instabilidade de pertença, e não se chega a captar a diferença entre as confissões, que falam todas da Palavra de Deus, da Bíblia e de Jesus.

Uma recente pesquisa, apresentada na última Assembléia da CNBB, mostra que o Brasil, que tinha mais de 90% de católicos, passou a 70%. Este é um fato estatístico. É preciso compreender o por quê. Não podemos negar que os métodos destas igrejas se mostraram mais eficazes para se aproximarem das populações mais pobres e que isto deve fazer a Igreja católica refletir sobre suas próprias organizações e sobre sua pastoral popular.

As "igrejas independentes" se empenham no método "corpo a corpo", isto é, cada crente deve trazer outro consigo. A isto se acrescenta uma propaganda insistente (há três redes televisivas que a transmitem todo dia); a presença política (nas eleições conseguem eleger seus representantes); e, finalmente, a construção de edifícios de culto.
Tudo isto coloca em questão o modo de trabalhar da Igreja católica, que, de certo, não está paralisada, mas que precisa se empenhar num trabalho mais intenso e num empenho social ainda maior.

Gostaria de concluir, lembrando que o verdadeiro drama é a passagem de tantos a nenhuma igreja, a nenhum contato com uma entidade religiosa. Afinal, os que vão a uma igreja pentecostal têm algum contacto com a Palavra de Deus e os outros, não.
Emanuele Rebuffini
POPOLI, dezembro de 2005
Tradução: R. Paiva, SJ
 
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