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Estive pensando na palavra “bastidores”, usada por
Jean Lauand e seus companheiros no título de seu livro, para
caracterizar sua intenção de revelar coisas normalmente ocultas,
acessíveis apenas a um grupo restrito de pessoas.
Um anúncio desse tipo costuma ser eficaz para
despertar a curiosidade. Aquilo que fica “escondido” sempre parece mais
excitante, porque traz o apelo do desconhecido, do segredo, do mistério.
Seria bom que nos lembrássemos, contudo,
de que algumas coisas permanecem escondidas porque assim deve ser. Não
há uma intenção egoísta de excluir ou enganar alguém, mas a intenção é,
ao contrário, favorecer as pessoas. Se, numa representação teatral, não
houvesse os bastidores para ocultar do público as trocas de roupas, a
montagem de cenários e demais preparativos, o espetáculo não teria o
brilho, o resultado esperado. Os espectadores vão ao teatro desejando
ver a representação, a cena, e não os “bastidores”. Quanto mais
invisível ficar a técnica por trás dos efeitos, melhor será a qualidade
do resultado... E se, no meio da apresentação, alguém chegasse de
repente e retirasse os bastidores, cortinas e coxias, será que essa
pessoa seria aclamada como benfeitora? Os espectadores pagaram seu
ingresso para ver a cena, e não o que está por trás dela...
Sabemos, é claro, que a fé não é ficção, nem fantasia. Queremos apenas
salientar que nem sempre o ato de ocultar alguma coisa é sinal de más
intenções, mentira ou fuga, mas pode também ser algo benéfico, correto,
adequado.
Confesso que eu não sabia que a mortificação corporal continua sendo
praticada hoje, não só pelos membros do Opus Dei, mas também nos
conventos, assim como por muitos sacerdotes e leigos que, de bom grado,
aceitaram o convite de Jesus a segui-lo no caminho da cruz, colaborando
com ele na obra de salvação do mundo.
Mas,
se as boas irmãzinhas em seus conventos, ou os leigos do Opus Dei
decidem “completar em seu corpo o que faltou à paixão de Cristo, em
favor da Igreja” (Col 1,24), será que devemos censurá-los por não
saírem por aí, apregoando nas esquinas e publicando nos jornais os seus
atos de mortificação? Se o fizessem, “já teriam recebido a sua
recompensa” (Mt 6,2.5.16), pois estariam buscando a própria glória.
Jesus, porém, recomenda que não busquemos os louvores do mundo por
nossas boas obras: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita”
(Mt 6,3), pois a recompensa que esperamos é de outro tipo. Esse é,
também, o motivo pelo qual o Opus Dei não se tem preocupado em
responder à altura às acusações que lhe são feitas: seu objetivo não é
“agradar ao mundo”, mas a Deus (Gl 1,10). Jesus também não fez questão
de justificar-se diante de seus acusadores, porque não estava
interessado em salvar sua vida, mas queria, justamente, entregá-la...
Se
há “bastidores” no Opus Dei, portanto, isso não é feito para enganar
ninguém, mas simplesmente por humildade e também por caridade, para
evitar que os mais fracos se deixem desanimar por não serem capazes de
imitar o exemplo dos mais fortes. E a revelação sensacionalista de tais
“segredos” é, no mínimo, uma indiscrição e uma indelicadeza.
A
bem da verdade, é preciso esclarecer: a mortificação corporal praticada
hoje é muito mais leve do que a que se praticava na antiguidade e na
Idade Média. A Igreja evoluiu em sua compreensão a esse respeito,
e prefere hoje colocar a ênfase nas disposições do coração, mais do que
nos atos externos. Há um certo apelo sensacionalista na forma como os
autores de “Opus Dei – os bastidores” mencionam o cilício, por exemplo,
como “uma coleira com pontas de ferro que penetram na carne”. Tal
descrição transmite uma idéia totalmente falsa para quem nunca viu um
cilício.
Tive a oportunidade de examinar um: trata-se de uma faixa com cerca de
5 cm de largura, formada por pequenos elos de metal entrelaçados. Em
alguns desses elos, a pequenos intervalos, encontram-se pendurados
(como pingentes numa pulseira) pedacinhos curvos do mesmo metal, como
se fossem metades desses elos, cortados no sentido vertical. Os
“pingentinhos” são móveis, não fixos, e suas pontas não são afiadas,
nem têm como “penetrar” na carne, por serem curvas. Podem, no máximo,
causar algum desconforto, e seus usuários garantem que nunca chega a
romper ou mesmo marcar a pele, nem o cilício, nem a disciplina (espécie
de chicotinho leve, feito de barbante). Certa mulher que os
experimentou declarou que “é muito mais dura uma sessão de cabeleireiro
do que usar uma hora o cilício; e eu trocaria o incômodo de um minuto
com o aparelho corretor dos dentes por dois minutos de disciplinas”.
Trata-se, portanto, de uma penitência pouco mais do que simbólica, cujo
maior valor está em ser sinal, expressão externa da verdadeira
penitência, que é a contrição do coração e a decisão de fortalecer e
disciplinar a vontade, para que esta prevaleça sobre o instinto e as
tentações.
Essas não são as únicas formas possíveis de penitência. Há quem dê
preferência a outras formas de mortificação igualmente fundamentadas na
Bíblia e consagradas pela Igreja, tais como o jejum e a esmola, sem
esquecer a oração. Em todas essas modalidades, porém, a tendência atual
é pedir (e dar) cada vez menos, e por isso vai-se perdendo, na Igreja,
o sentido da renúncia e do sacrifício. Uma “penitência” que não custe
nada, que não exija esforço, já não é penitência... E o fato é que sem
penitência, sem disciplina, não se fortalece o caráter, nem a fé.
São evidentes os efeitos desse “relaxamento”. Todos
lamentam a falta de seriedade e de profundidade na vivência cristã dos
católicos de hoje. O Cardeal Danneels, da Bélgica, comentava
recentemente o problema da falta de vocações sacerdotais, discutido no
Sínodo dos Bispos: “Para mim, a solução está no aprofundamento da fé.
Ter um sentido de radicalidade evangélica mais forte: deixar tudo para
seguir a Cristo...”. Pouco após o Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI
exortava: “É urgente recordar aos homens o significado e a importância
do preceito divino da penitência...” E, devido à recente beatificação
do Pe. Charles de Foucauld, muito se tem enaltecido a radicalidade da
entrega a Deus vivida por esse irmão. “Radicalidade” que falta à
maioria de nós, mas que, no fundo, todos sabem ser necessária e
benéfica ao mundo... porque a verdadeira forma de amar o próximo é dar
a vida por ele, e não há entrega sem sacrifício, sem renúncia aos
próprios interesses.
Quando se
perde de vista a dimensão do sacrifício (que é a da cruz), formam-se
noções equivocadas sobre o sentido do Amor, e muitos chegam a pensar
que amar é satisfazer aos caprichos e ceder às fraquezas, nossas e dos
irmãos... com base no falso pressuposto de que “fazer o que queremos”
nos tornará felizes. A realidade atual está aí para desmentir isso... E
é certo que ninguém aprende a “renunciar a si mesmo” a não ser por meio
da penitência, seja qual for a forma escolhida para praticá-la.
Certamente, o caminho proposto pelo Opus Dei não é para todos, nem é o
único caminho possível para a santidade. Tampouco se afirma que são as
“práticas” que salvam, nem que não possa haver, dentro da Obra, pessoas
mais pecadoras do que outras fora dela. Muitos certamente chegarão ao
céu sem nunca ter usado um cilício, nem praticado as virtudes em grau
heróico. Mas uma coisa é certa: para que essa maioria de pessoas
“comuns” possa também salvar-se, é preciso que haja, entre elas, alguns
santos, heróis e mártires da fé, que, a exemplo de Cristo, aceitam
subir à cruz em lugar dos outros, renunciando a si mesmos por amor a
Deus e aos irmãos. Para fazer frente à radicalidade com que o mundo
mergulha no pecado, impõe-se uma igual radicalidade na virtude...
Uma pequena
porção de sal confere sabor a uma grande quantidade de alimento, e uma
pequena luz ilumina o caminho de muitos. Nem todos precisam ser sal e
luz, mas é preciso que alguns o sejam... para que muitos sejam salgados
e iluminados.
Essa é a
vocação que o Opus Dei procura despertar em seus membros. Não somos
obrigados a imitá-los, mas, antes de criticar, seria bom pensar se não
lhes devemos, ao contrário, gratidão, por assumirem sobre si as
conseqüências de nossas misérias, e conquistarem para nós um lugar no
céu...
Margarida Hulshof
(dezembro/2005)
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