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Todos querem
uma certeza, uma prova indiscutível sobre alguma coisa. Em
outras palavras, é ver para crer. Este conceito invadiu também a
religião. Até a fé pede respostas imediatas: se não tenho provas
como posso crer? Segundo esta filosofia, fixar as
esperanças em meras promessas é perigoso. Pois bem, como
fica a religião ante isso se a concepção de fé prega exatamente o
contrário: ¨bem aventurados os que não viram e creram¨ (Jo
20,29). Aqui reside a razão fundamental para a descrença de tantos,
para os que teimam em fazer fila com os discípulos de Emaús e
Tomé. A vacilação na fé nos obriga a considerar duas
verdades: a preocupação de colocar a fé no verdadeiro patamar e o
sentir próprio do cristão de nosso tempo. As palavras de Deus
não deixam margem para dúvidas: ¨crede em Deus e crede também em
mim¨ (Jo 1,11). Um repórter ao entrevistar uma missionária em uma
cruzada mundial de evangelização perguntou à vidente: ¨Você tem
tanta intimidade com Jesus, por que não pede que Ele se faça mais
presente entre nós¨?. A mulher repetiu as palavras de Abraão
dirigidas ao rico Epulão que intercedia por seus irmãos: ¨Se eles não
acreditam nos profetas que têm na terra, não acreditarão se alguém
baixar do céu¨. Os motivos evocados para desculpar a negligência
religiosa são inúmeros. Os que acreditam em Deus de acordo
com o tempo; os que só acendem a vela da fé aos domingos; outros
são muito religiosos, mas fora da igreja; tem aqueles que pinçam
algumas verdades de acordo com as convivências; outros,
finalmente, só acreditam quando a desventura ou o perigo se fazem
presentes. Em uma viagem de Porto Alegre a Brasília de avião um
repórter fez a seguinte pergunta e anotou: ¨Você acredita em
Deus¨? Resultado da pesquisa: só 20% disseram que
sim, alguns disseram às vezes, e outros não crêem.
Minutos depois veio o inesperado: o avião é dominado por forte
turbulência. A aeronave dança, as bagagens rolam pelo
chão, as comportas expelem as máscaras de gás...
Restabelecida a calma, o repórter volta a entrevistar os passageiros
com a mesma pergunta e... que prodígio!: o termômetro da fé
dispara! A maioria disse que pediu por Deus naquele momento. É
preciso que Deus seja parte integrante de nossa vida. Se não nos
lembrarmos de Deus como podemos exigir que Deus se lembre de nós? Segundo
o Catecismo da Igreja Católica, várias causas alimentam a descrença
religiosa: ¨a revolta contra o mal, a ignorância
religiosa, a preocupação demasiada com os bens materiais, o mau
exemplo de muitos cristãos, as correntes de pensamentos contrárias à
religião, a fuga da face de Deus¨ (29) A insistência em
fundar a fé em provas materiais incorre numa contradição elementar,
pois só pode crer naquilo que não se vê. Se temos certeza
absoluta de algo, então estamos diante de um fato científico,
diante da experiência e, isto não requer fé. A certeza da fé
religiosa fundamenta-se na autoridade da palavra de Deus cuja verdade não
pode enganar nem enganar-se. Um Deus que ferisse a verdade não
seria Deus. É um compromisso de todos os que crêem de testemunhar a
Deus de todas as formas, até ¨de cima dos telhados¨ como diz o
evangelho. É preciso tornar viva a experiência de Deus,
compartilhando a fé com os irmãos. Assim, como é da essência do
amor dividir, o mesmo vale para a fé. Não se admite uma fé
egoísta, uma fé voltada sobre si mesma. Fé só é fé quando
compartilhada com os outros.
Jesus fez coisas maravilhosas e
deixou tantos vestígios da sua existência quantos são as criaturas. Os
fariseus contestavam a divindade de Jesus: ¨Que grandes milagres
você fez para que creiamos em você? Qual é sua obra? Nossos pais
comeram o maná do deserto, segundo as escrituras¨. Jesus
lhes deu o troco: ¨Dou-lhes para comer o pão vindo do céu.
Moisés não lhes deu o pão do céu; meu Pai é quem dá o verdadeiro pão
do céu¨. (Jo 6,30-35). Crer na pessoa de Jesus nos possibilita a
entender o significado de toda sua vida e obra. Jesus, em
resposta, dá o pão, símbolo múltiplo da vida nova que Ele veio
trazer a todo aquele que nEle crer. Sem Jesus a vida da humanidade não
tem sentido. ¨O pão que sacia é Jesus, pois a fome mais
angustiante da humanidade não é gerada pela falta de alimentos, mas
pela ausência dos reais valores da vida, desejo que só pode ser
saciado com um pão vindo do céu¨. O mundo de hoje como o de
antes, tem fome de Deus. Mesmo você que se diz descrente em
Deus, sente esta fome, mas o orgulho o impede de ver e de
aceitar. Quando buscamos por tantos meios a felicidade, será que
não estamos procurando por este pão? Os escamoteios na fé não são
apenas uma maneira indireta de clamar por uma crença que faz falta?
Busca-se alimento que sacia, água que dessedenta para sempre,
como Cristo prometeu: ¨Seu soubesses quem eu sou, tu me pedirias
água e eu te daria a água da vida¨ (Jo 4,10). Ser cristão consiste em
crer em Jesus Cristo, em abraçar com toda convicção e
fidelidade, a linda confissão de Pedro: ¨Tu és o Cristo,
Filho de Deus vivo¨ (Mt 16,16). As provas exigidas sobre a existência de
Deus nada mais são do que a intranqüilidade do coração humano que,
como definiu Sto. Agostinho, ¨não descansa enquanto não descansar em
Deus¨. O Catecismo diz em seu primeiro capítulo: ¨O desejo
de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por
Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e
somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não
para de procurar. O homem foi feito por amor, para o amor e só
pode crescer no amor e, Deus é a fonte de todo o amor!¨ Em
verdade, o grito de protesto de muitos cristãos mais do que
descrença, é busca de algo mais transcendental. Só em Deus pode
realizar-se o sonho humano. A grande revelação que Jesus Cristo trouxe
à terra é que Deus é amor. Só se pode conhece-lo experimentando o
amor. Deus é u mistério de amor. O mistério não se deve
procurar entender. O mistério se aceita, se entende através da
fé. Na medida em que experimentarmos este amor, deixaremos de
pedir provas sobre a presença de Deus. Afinal, é preciso
não ver e, contudo crer. ¨Tudo é possível, diz o
evangelista, ao que crê (Mc 9,23).
Livro da Família /
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