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Derradeiras Graças
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VOCÊ ACREDITA EM DEUS? PDF Imprimir E-mail
06-Mai-2002

Todos querem uma certeza, uma prova indiscutível
sobre alguma coisa. Em outras palavras, é ver para crer.
Este conceito invadiu também a religião. Até a
fé pede respostas imediatas: se não tenho provas como
posso crer? Segundo esta filosofia, fixar as
esperanças em meras promessas é perigoso. Pois bem,
como fica a religião ante isso se a concepção de fé prega
exatamente o contrário: ¨bem aventurados os que não
viram e creram¨ (Jo 20,29).
Aqui reside a razão fundamental para a descrença
de tantos, para os que teimam em fazer fila com os
discípulos de Emaús e Tomé. A vacilação na fé nos
obriga a considerar duas verdades: a preocupação de
colocar a fé no verdadeiro patamar e o sentir próprio do
cristão de nosso tempo. As palavras de Deus não deixam
margem para dúvidas: ¨crede em Deus e crede também em
mim¨ (Jo 1,11).
Um repórter ao entrevistar uma missionária em uma
cruzada mundial de evangelização perguntou à
vidente: ¨Você tem tanta intimidade com Jesus, por que
não pede que Ele se faça mais presente entre nós¨?. A
mulher repetiu as palavras de Abraão dirigidas ao rico
Epulão que intercedia por seus irmãos: ¨Se eles não
acreditam nos profetas que têm na terra, não acreditarão
se alguém baixar do céu¨.
Os motivos evocados para desculpar a negligência
religiosa são inúmeros. Os que acreditam em Deus de
acordo com o tempo; os que só acendem a vela da fé aos
domingos; outros são muito religiosos, mas fora da
igreja; tem aqueles que pinçam algumas verdades de
acordo com as convivências; outros, finalmente, só
acreditam quando a desventura ou o perigo se fazem
presentes.
Em uma viagem de Porto Alegre a Brasília de avião
um repórter fez a seguinte pergunta e anotou: ¨Você
acredita em Deus¨? Resultado da pesquisa: só 20%
disseram que sim, alguns disseram às vezes, e outros
não crêem. Minutos depois veio o inesperado: o avião é
dominado por forte turbulência. A aeronave dança, as
bagagens rolam pelo chão, as comportas expelem as
máscaras de gás... Restabelecida a calma, o repórter
volta a entrevistar os passageiros com a mesma pergunta
e... que prodígio!: o termômetro da fé dispara! A
maioria disse que pediu por Deus naquele momento.
É preciso que Deus seja parte integrante de nossa
vida. Se não nos lembrarmos de Deus como podemos exigir
que Deus se lembre de nós?
Segundo o Catecismo da Igreja Católica, várias
causas alimentam a descrença religiosa: ¨a revolta
contra o mal, a ignorância religiosa, a preocupação
demasiada com os bens materiais, o mau exemplo de muitos
cristãos, as correntes de pensamentos contrárias à
religião, a fuga da face de Deus¨ (29)
A insistência em fundar a fé em provas materiais
incorre numa contradição elementar, pois só pode crer
naquilo que não se vê. Se temos certeza absoluta de
algo, então estamos diante de um fato científico,
diante da experiência e, isto não requer fé. A certeza
da fé religiosa fundamenta-se na autoridade da palavra de
Deus cuja verdade não pode enganar nem enganar-se. Um
Deus que ferisse a verdade não seria Deus. É um
compromisso de todos os que crêem de testemunhar a Deus
de todas as formas, até ¨de cima dos telhados¨ como diz
o evangelho. É preciso tornar viva a experiência de
Deus, compartilhando a fé com os irmãos. Assim, como é
da essência do amor dividir, o mesmo vale para a fé.
Não se admite uma fé egoísta, uma fé voltada sobre si
mesma. Fé só é fé quando compartilhada com os outros.

Jesus fez coisas maravilhosas e deixou tantos
vestígios da sua existência quantos são as criaturas. Os
fariseus contestavam a divindade de Jesus: ¨Que grandes
milagres você fez para que creiamos em você? Qual é sua
obra? Nossos pais comeram o maná do deserto, segundo as
escrituras¨. Jesus lhes deu o troco: ¨Dou-lhes para
comer o pão vindo do céu. Moisés não lhes deu o pão do
céu; meu Pai é quem dá o verdadeiro pão do céu¨. (Jo
6,30-35).
Crer na pessoa de Jesus nos possibilita a
entender o significado de toda sua vida e obra. Jesus,
em resposta, dá o pão, símbolo múltiplo da vida nova
que Ele veio trazer a todo aquele que nEle crer. Sem
Jesus a vida da humanidade não tem sentido. ¨O pão que
sacia é Jesus, pois a fome mais angustiante da
humanidade não é gerada pela falta de alimentos, mas
pela ausência dos reais valores da vida, desejo que só
pode ser saciado com um pão vindo do céu¨.
O mundo de hoje como o de antes, tem fome de
Deus. Mesmo você que se diz descrente em Deus, sente
esta fome, mas o orgulho o impede de ver e de aceitar.
Quando buscamos por tantos meios a felicidade, será que
não estamos procurando por este pão? Os escamoteios na
fé não são apenas uma maneira indireta de clamar por uma
crença que faz falta? Busca-se alimento que sacia, água
que dessedenta para sempre, como Cristo prometeu: ¨Seu
soubesses quem eu sou, tu me pedirias água e eu te daria
a água da vida¨ (Jo 4,10).
Ser cristão consiste em crer em Jesus Cristo, em
abraçar com toda convicção e fidelidade, a linda
confissão de Pedro: ¨Tu és o Cristo, Filho de Deus
vivo¨ (Mt 16,16).
As provas exigidas sobre a existência de Deus
nada mais são do que a intranqüilidade do coração humano
que, como definiu Sto. Agostinho, ¨não descansa enquanto
não descansar em Deus¨.
O Catecismo diz em seu primeiro capítulo: ¨O
desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que
o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa
de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de
encontrar a verdade e a felicidade que não para de
procurar. O homem foi feito por amor, para o amor e só
pode crescer no amor e, Deus é a fonte de todo o amor!¨
Em verdade, o grito de protesto de muitos
cristãos mais do que descrença, é busca de algo mais
transcendental. Só em Deus pode realizar-se o sonho
humano. A grande revelação que Jesus Cristo trouxe à
terra é que Deus é amor. Só se pode conhece-lo
experimentando o amor. Deus é u mistério de amor. O
mistério não se deve procurar entender. O mistério se
aceita, se entende através da fé. Na medida em que
experimentarmos este amor, deixaremos de pedir provas
sobre a presença de Deus. Afinal, é preciso não ver
e, contudo crer. ¨Tudo é possível, diz o evangelista,
ao que crê (Mc 9,23).

Livro da Família / 96

 
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