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Uns plantam...outros colhem PDF Imprimir E-mail
Escrito por Maria Fernanda Barroca   
22-Jan-2006
Era agreste aquele dia 9 de Janeiro de 1902, na cidade de Barbastro situada no planalto aragonês (Espanha). Os estabelecimentos fecharam cedo e os habitantes apressam-se a chegar a casa para desfrutar o calor de uma boa lareira.

Na casa dos Escrivá y Albás há um movimento fora do comum: está para   nascer  o segundo filho do casal. D. Dolores e D. José Escrivá têm já uma filha – Carmen e a espera do novo filho faz D. José passear nervosamente pelo corredor da casa indiferente ao movimento da empregada Maria que, balbuciando orações vai preparando tudo o que é necessário para um parto doméstico, segundo os costumes de antigamente. De repente, eram 22 horas, um choro enérgico anuncia que mais um ser deu entrada neste mundo – era um menino forte e saudável.

Como bons cristãos os pais desejam que seja baptizado o mais depressa possível, o que aconteceu no dia 13 desse mês. Deram-lhe o nome de José, María, Julián, Mariano. Mais tarde, por amor à Virgem e a S. José, ele mesmo mudará o seu nome para Josemaría. No dia 23 de Abril desse mesmo ano recebeu, na Catedral onde foi baptizado e pelas mãos do Administrador Apostólico de Barbastro, o Sacramento da Confirmação. Era esse o costume da época: ministrar o Sacramento da Confirmação aos bébés, pouco depois do seu Baptismo.

Josemaría desenvolveu-se num clima de normalidade, mas com fortes raízes cristãs. Aos 15 anos sentiu que Deus queria algo dele, sem saber ao certo o quê. As pegadas deixadas na neve por um carmelita descalço, colocam-lhe na alma uma inquietação: “Se outros fazem tantos sacrifícios por Deus, eu não serei capaz de oferecer nada?”

Para estar disponível para o Deus lhe venha a pedir, resolve fazer-se sacerdote. Assim aconteceu – em 28 de Março de 1925 é ordenado sacerdote na igreja do seminário sacerdotal de S. Carlos e celebra, a 30 de Março, a primeira missa solene por alma de seu pai que entretanto falecera, na capela de Nossa Senhora do Pilar em Saragoça.

Em 2 de Outubro de 1928, estando recolhido no seu quarto na Casa dos Padres Paulinos, onde realizava o seu retiro anual, Deus faz-lhe «ver» o que quer dele. E que «viu» D. José? «Viu» o que mais tarde se havia de chamar o Opus Dei.

Começa então a plantar aquilo que outros irão colher até ao fim dos tempos.

Em 1930, mais precisamente no dia 14 de Fevereiro, Deus fez-lhe ver que o trabalho do Opus Dei, também devia ser feito com mulheres e confirmada a inspiração pela boca dos seu director espiritual, assim aconteceu.

Em 1933 surge o primeiro trabalho apostólico – a  academia DYA,  destinada a estudantes de Direito e Arquitectura, mas que de facto queria dizer: Deus e Audácia. Deus, porque ele só pensava na formação daqueles estudantes que já o acompanhavam e precisavam de um lugar para ter os meios de formação até aí dados com frequência à mesa de um café; audácia, porque são nulos os meios económicos de que dispõe – só há muita confiança e uma fé “de cortar à faca”, segundo uma das suas muito castiças expressões.

Mas a Obra é de Deus e nasceu para crescer e assim acontece, mesmo em plena Guerra Civil espanhola. Acabada esta, entre 1939 e 1946 começa a estender-se por Espanha: Valência, Barcelona, Valladolid, Zaragoza, Bilbau, Sevilha, Santiago.

Neste intervalo nasce, a 14 de Fevereiro de 1943 a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz inseparavelmente unida ao Opus Dei e destinada a acolher os sacerdotes que quisessem receber  formação.

Mas o Opus Dei, nasceu para “servir a Igreja como ela quer ser servida” e portanto era conveniente que a cabeça visível da Obra – o Padre – como lhe chamavam se mudasse para a Cidade Eterna e assim «romanizar» a Obra. Tal aconteceu em 1946. Passadas a s primeiras dificuldades de alojamento procuram algo de estável e suficientemente espaçoso, com os olhos da fé postos no futuro da Obra. É o próprio Cardeal Montini, futuro Papa Paulo VI, quem os aconselha a arranjarem uma casa  estável – surge assim Villa Tevere, um conjunto que integra: a Sede Central do Opus Dei, a administração doméstica em casa independente, e a Montagnola, para a Assessoria Central, organismo de governo da Secção de mulheres.

Em 1948 Mons. Escrivá erige o Colégio Romano de Santa Cruz, onde se formarão milhares de profissionais do Opus Dei, oriundos de todo o mundo.
 
Mons. Escrivá defendia que as mulheres também deviam ter uma sólida formação teológica e filosófica e para isso erigiu em 1953 o Colégio Romano de Santa Maria – a que chamou Villa delle Rose.

Apesar de todo este trabalho ainda tem tempo para escrever livros que têm sido para muitos alavanca para a entrega a uma vida de santidade que “é para todos” e não só para alguns privilegiados: Caminho, Cristo que passa e Amigos de Deus  (colectânea de homilias), Rosário, Via-Sacra, Sulco e Forja, muitos deles publicados depois da sua morte.

Mas fiel a uma frase sua : “E muito bonito plantar árvores de cuja sombra não gozaremos, para que a desfrutem os que nos sigam”, as suas «loucuras» não acabam aqui: em 1966 começam as obras do que viria a ser um dos maiores e mais belos templos dedicados a Nossa Senhora: Torreciudad, lugar de peregrinações e conversões sem número; e em 1971 a sede definitiva do Colégio Romano de Santa Maria que tomará o nome de Cavabianca.

De todas estas “árvores” que  o Padre semeou, não colheu os frutos do Santuário de Torreciudad, cuja altar principal ainda consagrou a 24 de Maio de 1975 e onde a primeira missa celebrada foi de sufrágio pela sua alma que em 26 de Junho desse ano deixou este mundo para o encontro definitivo porque sancionado pela Igreja com a Beatificação a 17 de Maio de 1992, com o seu Pai-Deus.

Resta-nos a nós, desfrutar desse enorme património espiritual que nos deixou e assim completar e expandir o que ele começou.
 
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