Prezado padre,
Francamente
busquei ser tolerante quando V. Sa., manifestou de público o seu apreço
e respeito pelas religiões “A e B”, respeito esse do qual compartilho,
afinal as pessoas são livres em suas opções religiosas, e essas opções
devem ser respeitadas, até porque vivemos num Estado laico, onde a
liberdade religiosa é um direito. Entretanto, como ser tolerante diante
do fato de V.Sa., por repetidas vezes, ter feito apologia a credos “A e
B”, chegando ao ponto de fundir elementos desses cultos em
nossas Missas?
Desculpe, mas da mesma forma que os cultos “A e
B” não mais precisam do sincretismo ou da mimetização para sobreviver à
intolerância cristã de outrora, eles tem identidade própria, e
certamente não precisam e nem querem ver num padre uma mea-culpa sob a
forma de uma caricatura religiosa, manifesta num escândalo indigno do
sacerdócio católico. Se V. Sa., optou tardiamente pelo credo “A e
B”, e está definitiva e irremediavelmente decidido por isso, direito
seu. Espero apenas que sejas corajoso e digno o suficiente para
abandonar os confortos da casa paroquial, o soldo de sacerdote, o tempo
livre, a projeção social e todas as demais facilidades que o fato de ser um sacerdote
católico lhe confere. Agora, se V. Sa., não está disposto a isso
e deseja mesmo “morrer num altar”, por favor, não me force a entrar na
Igreja com minha família e ter dúvidas se estou mesmo num templo
católico. Não optei pelo credo “A e B”, optei pela fé católica, e é
isso que espero encontrar na minha Igreja em toda sua expressão. A
comunidade não é obrigada a aceitar a irreflexão e a irresponsabilidade
de seu sacerdote, ninguém é padre para sí próprio.
Também
busquei ser tolerante quando V.Sa., manifestou idéias bastante liberais
quanto ao sexo, o matrimônio e a orientação ou opção sexual das
pessoas. Na verdade cheguei a me sentir bastante confortável ao
perceber o quanto o meu padre era um homem de mente aberta, que
estava disposto a ver essa questões de forma mais distendida e menos
pragmática. Não concordei com todos os seus pontos de vista, afinal
eles diferiam do que me ensina a Igreja em seu Catecismo, mas pelo
menos, num primeiro momento, o sr. me mostrou que pode haver mais de uma
ótica sobre esse tema. Mas como ser tolerante quando me
chegam aos ouvidos as notícias de seus envolvimentos amorosos? Pior é o
fato de perceber que V.Sa., não mais da-se ao trabalho de ocultar-se em
suas preferências e práticas sexuais, ou seja, não teme escandalizar seus
paroquianos, como se nos fosse obrigatória a aceitação de sua
infidelidade.
Fracamente prezado padre, se V.Sa. não mais deseja
ser referencial de excelência no que tange à moral, então o que
mais resta que justifique sua relevância enquanto pastor? O
senhor me afirma ser um homem como qualquer outro, entretanto um homem
como qualquer outro não serve ao papel de sacerdote, da mesma forma
como nem todo homem ou mulher serve ao papel de pai, mãe, marido ou
esposa. Pois da mesma forma que os filhos precisam do exemplo do pai e
da mãe para que edifiquem-se como pessoas, do mesmo jeito, uma
comunidade precisa do exemplo de seu pastor. Ambos, padres e
pais, ocupam lugares diversos na vida social é bem verdade, mas o
fruto do testemunho de ambos se faz sentir em toda a comunidade.
Portanto, nenhum dos dois pode nivelar-se por baixo.
Querido
padre. Se eu, enquanto homem casado, sou obrigado até mesmo pelas
leis civis a ser fiel ao meu voto matrimonial, como posso aceitar que o
Sr., sob a alegação de ser um homem como qualquer outro, possa ser
infiel aos seus votos publicamente e escandalizar de forma aberta a sua
comunidade, se entre mim e o senhor, no que tange a nossas condições
diante de Deus, temos em comum justamente um voto, voluntário e
vitalício, de sermos fiéis por toda uma vida ao nosso
compromisso? Já estive a um passo de ser padre, e bem sei o
quanto ser pai e marido é mais dificil. Se o senhor está mesmo decidido
a ser simplesmente um homem como qualquer outro, sugiro que experimente
faze-lo “do lado de cá”, verá que o mundo pouco ou nada reserva àqueles
que desejam nivelar-se forma tão rasteira em seus compromissos.
Da
mesma forma, querido padre, nada tenho contra homossexuais, bisexuais,
heterosexuais ou pansexuais, mas francamente é inaceitável que qualquer
pessoa busque esconder-se de sí próprio sob a aura de
respeitabilidade do sacerdócio, esse, além de ser o caminho dos
covardes é certamente a pavimentação da trilha de uma vida
irrealizável. Ninguém é menos filho de Deus em função da sua opção
sexual, mas não é criando um personagem, um espantalho, que se legitima
a própria personalidade.
Busquei
ser tolerante quando o Sr.
manifestou seus pontos de vista contra determinados dogmas da
Igreja. Pensei comigo: “ele não está se opondo, apenas jogando novas
luzes sobre um mesmo tema”. Mas essa minha tolerância durou pouco. Como
ser tolerante quando a pregação do pastor difere de forma tão ampla da
doutrina da Igreja Católica que ele representa? Francamente não
compreendemos como pode ser possível que um
jogador de determinado time fique a todo momento marcando gols para o
time adversário. Qual a torcida organizada que deseja ter em suas
fileiras um torcedor que a todo momento soterre o moral de sua torcida,
que incite o ódio ao seu time do coração? Pelo menos a lógica sugere
que nenhuma. Então é inaceitável que, no que tange à Igreja, seja
diferente.
Como sedimentar verdadades que muitas vezes
custaram a vida de tantos de nossos mártires quando sacerdotes como
V.Sa. preferem transmitir suas impressões e crenças pessoais em
substituição aos ensinamentos milenares da Igreja? Francamente
desconheço quais foram as fontes nas quais o sr. baseou-se, mas sejam
quais forem, se lhes foram tão sedutoras a ponto de modificar seus
conceitos a respeito da fé que guiou sua vocação, então o que ainda o
impulsiona? E mais, o que o motiva a ridicularizar a outros seus
colegas de sacerdócio que fazem da ortodoxia e da fidelidade à nossa
doutrina uma bandeira? Como pode alguém perdido guiar a outros?
É algo a ser pensado sr. padre, pois se o senhor ao
menos pensar no assunto e rever suas posições, teremos pelo menos a
esperança de que provavelmente cada vez menos membros de nossa
comunidade fiquem confusos e sem saber o que pensar a respeito de
determinados assuntos, tendo a forte impressão de que estão numa
religião onde cada pastor a formula como deseja. Ora padre, para isso
tem-se o protestantismo, onde cada igrejola e cada pseudo-pastor
interpreta a fé cristã como deseja, e por conta disso, o
protestantismo como um todo não se entende.
Busquei ser
tolerante quando o procurei por muitas vezes na Igreja mas não o
encontrei. Pensei comigo: “Ele deve estar ocupado demais com as coisas
da paróquia”. Mas esse pensamento logo não encontrou sustentação já que
pouco o via na sua própria paróquia. Várias vezes fui à sua procura
simplesmente para confessar-me, mas o sr. estava sempre apressado,
sempre havia algum compromisso urgente, ou era o horário da sua sesta,
do seu jornal, da sua leitura, da sua música, do seu passeio. Eu sentia
que eu sempre chegava num momento inoportuno, mas qual seria o momento
oportuno? O Sr. fixou um horário e um dia para as confissões, o que foi
bom, entretanto escutar a confissão dos seus paroquianos jamais foi uma
prioridade já que o sr. faltava por conta de algum compromisso, ou
escutava confissões em ritmo industrial, enfim, o sr. jamais teve tempo
para dar um mínimo de atenção aos seus paroquianos, e nós, por sua vez
passamos a nos sentir um estorvo para nosso padre.
Não tardou
a que ex-paroquianos chegassem contando de como eram
magnificamente recebidos e acolhidos em igrejas evangélicas. Contavam
que o pseudo-pastor estava disponível nos horários marcados, e passava
muito tempo disponível aos fiéis. Eles nos contavam que o dízimo não
era o diferencial, já que devolviam o dízimo da mesma forma na sua
paróquia quando eram católicos. Então por que o pseudo-pastor sempre estava mais
disponível que o padre?
É realmente difícil ser tolerante diante de sua
ausência caro padre, pois muito embora o sr. não queira nos receber ou
falar conosco, escutar nossos problemas e nos aconselhar, ainda assim
precisamos da sua assistência, afinal o nome padre não significa
justamente “pai”? O que se pode esperar de um pai?
Por fim caro
padre, ainda incluo seu nome todos os dias nas minhas preces. Rezo pelo
senhor e por todos os padres do mundo. Eu ainda tento
não internalizar a idéia de que um dos maiores problemas da igreja hoje
reside no próprio clero. Tento pensar com sobriedade nas palavras do
papa Bento XVI quando ele afirma: ‘‘Quanta imundície há na Igreja,
mesmo entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer inteiramente
a Ele (Deus). Quanto orgulho, quanta auto-suficiência’’. (Na missa da
Sexta-feira da Paixão de 2005). Tento não interpretar com excessiva
severidade essas palavras do papa, mesmo diante da crueza da realidade
que delineia-se diante de nós em relação ao senhor.
Continuarei
rezando sempre pelo senhor caro padre, mas tanto o senhor
quanto eu, sabemos o que desejamos de um sacerdote. Ao contrário
do
que o senhor pensa, os ares da modernidade não modificaram aquilo que
espera-se de um pastor, e nosso povo não está mais tolerando nada
diferente. Ou o senhor torna-se o nosso pastor de verdade, ou
simplesmente assume a irrelevância que tanto deseja, a irrelevância de
“um homem como qualquer outro”. Saiba apenas que um sacerdote católico
não tem o direito de ser medíocre.
Observação importante: Nosso
texto não descreve uma situação específica, mas muitas situações em
épocas e locais diferentes. Da mesma forma, o padre que aqui citamos
corresponde infelizmente a muitos padres. Qualquer semelhança não é
mera coincidência.