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Ensinam os ornitólogos que o canto do Uirapuru, dentro da selva amazônica, é muito raro. Mas a sua melodia é tão diferente e tão solene, que provoca o silêncio em toda a floresta. Não quero com isso dizer que Bento XVI seja comparável a essa ave. Mas a publicação de sua primeira encíclica provocou um silêncio geral. Embora a encíclica “Deus caritas est” tenha sido dirigida particularmente aos fiéis da Igreja Católica, os seus dizeres despertaram uma curiosidade irrefreável em todos os ambientes civilizados. A ele se pode aplicar o dito das Escrituras: “No meio da Igreja o Senhor o fez falar” ( Eclo 15, 5). Não quero fazer largos comentários sobre esse solene ensinamento, primícia do sucessor de Pedro. É muito melhor o caro leitor munir-se de ânimo e ler suas sábias palavras, num espírito aberto e independente. Deve buscar uma experiência própria. Nesse gesto de autonomia, terá a capacidade de formar sua própria síntese, e entenderá, a partir da fonte, o que o Pontífice quis ensinar. Mas não consigo furtar-me a uns pequenos comentários. Antes de tudo, esse escrito está dentro do que de melhor a sabedoria teológica e filosófica da humanidade produziu. É um escrito erudito e simples ao mesmo tempo. Em segundo lugar, os argumentos expostos nos dirigem diretamente ao Salvador. O pano de fundo, com toda a nitidez, faz a nossa atenção convergir para Cristo. O Pontífice sabe que o Mestre não é ele. Somente Jesus “tem palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). As multidões reconheciam que “Ele falava como quem tem autoridade” (Mt 7, 29). O que a encíclica deseja é apenas atualizar, para o século XXI, os ensinamentos de Jesus. Ele não quer reinventar a Igreja. Em terceiro lugar Bento XVI mostra, escudando-se no Mestre Divino, que a força motriz primordial do mundo não pode ser apenas a economia, ou a vida sexual – por melhores que sejam - ou muito menos o ódio. Aquilo que deve fornecer o dinamismo para os projetos humanos, deve ser o amor. E isso por uma disposição impossível de modificar: desde a eternidade o Criador tudo acionou, movido por amor a seu Filho (Col 1, 16). E o Pai Eterno continua volvendo-se para a criação toda, porque tem solicitudes amorosas para com tudo que saiu de sua Palavra prodigiosa. Sinto ainda necessidade de prevenir o caro amigo contra os preconceitos, que já pipocam lá e cá, contra a pessoa do sucessor de Pedro e sua carta. Já tem gente afirmando – porque tresleu – que se trata de uma encíclica pessimista. Outros lembram, com prazer, que o mesmo que escreve sobre o amor, é aquele que perseguiu teólogos irrequietos, em décadas passadas. Outros ainda sentenciam que o documento nada traz de novo, repetindo apenas velhos ensinamentos. Eu gostaria que o caro leitor entrasse blindado na leitura desse texto, e se mantivesse livre de preconceitos prejudiciais. E por último, gostaria de manifestar a minha grande alegria pelos conteúdos da segunda parte da carta papal. Nela o Pontífice exorta paternalmente os seus filhos na fé, que a caridade faz parte integrante da vida da Igreja. Que se dediquem às obras de caridade, não movidos por um esperto proselitismo, mas pelo amor a Cristo. Isso desvia os propósitos, ingênuos, de só querermos nos voltar aos “nossos”. A caridade deve ser universal, e não esconder objetivos escusos. Além do mais, a atividade eclesial, neste campo, não se deve confundir com as atribuições do poder político. A acentuação da Igreja deve, primordialmente, voltar-se para a formação das consciências, e colocar nos corações as verdadeiras motivações para uma ação caritativa de profundidade. Dom Aloísio Roque Oppermann scj – Arcebispo de Uberaba, MG Endereço eletrônico: roqueopp@ aol.com Fonte: CNBB
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