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Começa em breve o tempo do
Carnaval. Tempo curto e talvez por isso aproveitado com avidez e
desbragamento. É o tempo das máscaras que cada vez chamam menos a
atenção pelo facto de também serem usadas, por muitos, durante todo o
ano.
A história da Humanidade está ligada à história da procura da verdade
nos mais variados campos. A verdade atraí o homem e, se ainda tem um
pouco de dignidade, nada o fere tanto como dizer-lhe: «mentiste».
Ninguém gosta que lhe chamem mentiroso, mesmo que tenha a consciência
de ser verdade. Quando tal acontece arranja algum subterfúgio para
fazer crer que disse uma “não-verdade”, mas não uma mentira.
Ora, para mim, as máscaras são formas de mentira, pois não só escondem
a realidade como nos mostram uma outra coisa bem diferente. Umas vezes
as máscaras favorecem quem as usa, por exemplo: uma senhora cheia de
rugas no rosto e que aparece com uma máscara de uma rapariga de 20
anos. Outras vezes as máscaras prejudicam esteticamente quem as usa,
por exemplo: uma pessoa normal que aparece com um nariz
desmesuradamente grande e adunco.
A mentira é como o dinheiro falso: entra em circulação, mistura-se com
o verdadeiro e só vem a ser descoberto depois de consumadas as
consequências nefastas que acarreta.
O homem tem o “instinto da verdade”. As crianças são naturalmente
verdadeiras. Somos nós, os adultos, que lhes ensinamos a ser
mentirosas. O pai chega a casa cansado, o que é natural, e coloca-se
frente à televisão a ver um jogo de futebol onde entra o seu clube
preferido. Toca o telefone e ele diz ao filho de oito anos: “Vai
atender; se for para mim diz que eu não estou em casa...”. Tudo isto já
foi ensaiado não vá a criança dizer, na sua ingenuidade e “instinto de
verdade”: «O meu pai manda dizer que não está em casa...».
Os romanos eram uns apaixonados da beleza e do autêntico. Assim não
admitiam defeitos nas obras de arte. Quando notavam numa escultura
algum defeito, procuravam disfarçá-lo com cera. É esta a origem da
palavra “sincera” – “sem cera”, ou seja, sem disfarce.
Vivemos actualmente num mundo onde há muitas e variadas «ceras», ou
seja dissimulações: as modas, os cosméticos, as perucas, as operações
plásticas por motivo de um acidente, etc. Estas são normalmente
inofensivas e prendem-se com a vaidade ou o gosto de parecer bem. Este
último até pode ser uma forma de consideração e caridade para com os
outros. Há outras dissimulações mais graves: a do que faz crer que
ganhou a lotaria ou o totoloto, para disfarçar os sinais de riqueza que
ostenta e são produto de qualquer negócio menos claro, quando não de
uma fraude ou «luvas» recebidas.
No fim terça-feira, dia 28, acaba o Carnaval e portanto o tempo das
máscaras carnavalescas, mas ficam as outras, as de todo o ano,
pegadiças e difíceis de arrancar. Vamos analisar algumas.
Há a máscara do “importante”, sempre no topo do progresso, com ar
convicto, vivendo como o yuppie americano, preferindo «ter» e «parecer»
do que «ser».
Há a máscara do bem informado – tem opinião irrefutável, segundo a sua
óptica, sobre tudo: política, religião, desporto, economia, etc. Está
sempre na «crista da onda».
Há a máscara dos que para fugir às responsabilidades e à realidade
preferem a ignorância: não vão ao médico com medo que lhe descubram uma
doença; não procuram um bom livro ou um especialista na matéria que os
esclareça nas suas dúvidas, podendo assim argumentar, com um encolher
de ombros: “Não tenho culpa; não sabia...”. Fazem como a avestruz que,
quando vê o perigo mete a cabeça na areia; como não vê nada julga que
também ninguém a vê. As crianças fazem o mesmo: quando se querem
esconder vão pôr-se a um canto de cara para a parede. Cegam-se
voluntariamente para não assumir a realidade dos seus erros.
Por fim vem a pior das máscaras: as dos que se diluem nos grupos e se
escondem no anonimato. Não assumem opiniões pessoais, mas só de grupo –
têm «espírito de rebanho». Fecham-se numa mediocridade que lhes dá
segurança, pois sendo amorfos tomam como verdade o que o grupo faz ou
diz, sem se darem ao trabalho de pensar por conta própria. Muitos
juntam a esta máscara um adjectivo: sou autêntico. Não me apetece hoje
trabalhar, meto baixa, vou para a praia ou ao cinema e não vou para o
emprego fingir que trabalho. Não pensam que seriam autênticos se
cumprissem a sua obrigação, quer lhes apetecesse, quer não. A revogação
dos compromissos é uma falta de personalidade, pois que só o que é
autêntico e veraz, é transparente, não mutável e não se rege pela lei
do gosto, mas pela lei do dever. Destes podemos dizer que são homens de
uma só peça, seres em via de extinção tanta é a mentira que enche a
vida de muitos que nos rodeiam.
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