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O Carnaval PDF Imprimir E-mail
Escrito por Maria Fernanda Barroca   
20-Fev-2006
Começa em breve o tempo do Carnaval. Tempo curto e talvez por isso aproveitado com avidez e desbragamento. É o tempo das máscaras que cada vez chamam menos a atenção pelo facto de também serem usadas, por muitos, durante todo o ano.

 
A história da Humanidade está ligada à história da procura da verdade nos mais variados campos. A verdade atraí o homem e, se ainda tem um pouco de dignidade, nada o fere tanto como dizer-lhe: «mentiste». Ninguém gosta que lhe chamem mentiroso, mesmo que tenha a consciência de ser verdade. Quando tal acontece arranja algum subterfúgio para fazer crer que disse uma “não-verdade”, mas não uma mentira.

 
Ora, para mim, as máscaras são formas de mentira, pois não só escondem a realidade como nos mostram uma outra coisa bem diferente. Umas vezes as máscaras favorecem quem as usa, por exemplo: uma senhora cheia de rugas no rosto e que aparece com uma máscara de uma rapariga de 20 anos. Outras vezes as máscaras prejudicam esteticamente quem as usa, por exemplo: uma pessoa normal que aparece com um nariz desmesuradamente grande e adunco.

 
A mentira é como o dinheiro falso: entra em circulação, mistura-se com o verdadeiro e só vem a ser descoberto depois de consumadas as consequências nefastas que acarreta.

 
O homem tem o “instinto da verdade”. As crianças são naturalmente verdadeiras. Somos nós, os adultos, que lhes ensinamos a ser mentirosas. O pai chega a casa cansado, o que é natural, e coloca-se frente à televisão a ver um jogo de futebol onde entra o seu clube preferido. Toca o telefone e ele diz ao filho de oito anos: “Vai atender; se for para mim diz que eu não estou em casa...”. Tudo isto já foi ensaiado não vá a criança dizer, na sua ingenuidade e “instinto de verdade”: «O meu pai manda dizer que não está em casa...».

 
Os romanos eram uns apaixonados da beleza e do autêntico. Assim não admitiam defeitos nas obras de arte. Quando notavam numa escultura algum defeito, procuravam disfarçá-lo com cera. É esta a origem da palavra “sincera” – “sem cera”, ou seja, sem disfarce.

 
Vivemos actualmente num mundo onde há muitas e variadas «ceras», ou seja dissimulações: as modas, os cosméticos, as perucas, as operações plásticas por motivo de um acidente, etc. Estas são normalmente inofensivas e prendem-se com a vaidade ou o gosto de parecer bem. Este último até pode ser uma forma de consideração e caridade para com os outros. Há outras dissimulações mais graves: a do que faz crer que ganhou a lotaria ou o totoloto, para disfarçar os sinais de riqueza que ostenta e são produto de qualquer negócio menos claro, quando não de uma fraude ou «luvas» recebidas.

 
No fim terça-feira, dia 28, acaba o Carnaval e portanto o tempo das máscaras carnavalescas, mas ficam as outras, as de todo o ano, pegadiças e difíceis de arrancar. Vamos analisar algumas.

 
Há a máscara do “importante”, sempre no topo do progresso, com ar convicto, vivendo como o yuppie americano, preferindo «ter» e «parecer» do que «ser».

 
Há a máscara do bem informado – tem opinião irrefutável, segundo a sua óptica, sobre tudo: política, religião, desporto, economia, etc. Está sempre na «crista da onda».

 
Há a máscara dos que para fugir às responsabilidades e à realidade preferem a ignorância: não vão ao médico com medo que lhe descubram uma doença; não procuram um bom livro ou um especialista na matéria que os esclareça nas suas dúvidas, podendo assim argumentar, com um encolher de ombros: “Não tenho culpa; não sabia...”. Fazem como a avestruz que, quando vê o perigo mete a cabeça na areia; como não vê nada julga que também ninguém a vê. As crianças fazem o mesmo: quando se querem esconder vão pôr-se a um canto de cara para a parede. Cegam-se voluntariamente para não assumir a realidade dos seus erros.

 
Por fim vem a pior das máscaras: as dos que se diluem nos grupos e se escondem no anonimato. Não assumem opiniões pessoais, mas só de grupo – têm «espírito de rebanho». Fecham-se numa mediocridade que lhes dá segurança, pois sendo amorfos tomam como verdade o que o grupo faz ou diz, sem se darem ao trabalho de pensar por conta própria. Muitos juntam a esta máscara um adjectivo: sou autêntico. Não me apetece hoje trabalhar, meto baixa, vou para a praia ou ao cinema e não vou para o emprego fingir que trabalho. Não pensam que seriam autênticos se cumprissem a sua obrigação, quer lhes apetecesse, quer não. A revogação dos compromissos é uma falta de personalidade, pois que só o que é autêntico e veraz, é transparente, não mutável e não se rege pela lei do gosto, mas pela lei do dever. Destes podemos dizer que são homens de uma só peça, seres em via de extinção tanta é a mentira que enche a vida de muitos que nos rodeiam.
 
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