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Mais do que de repente tornei-me jubilar. Neste mês de fevereiro completaram-se 50 anos de minha consagração religiosa, na modesta, mas querida Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus. Neste tempo, a serviço da Igreja e do povo cristão, mudei de residência 12 vezes. Nos primeiros deslocamentos, todos os meus pertences cabiam numa mala. Posteriormente foi preciso lançar mão, progressivamente, de um caminhão, por causa da grande quantidade de livros e de revistas (minha única riqueza). Ah, tenho também uma coleção de moedas nacionais. Em cada mudança esquecia alguns objetos de estimação, nunca mais recuperados... O interessante é que em toda nova destinação, aonde aportava, sentia-me em casa, sempre acolhido pelo povo. Era sempre um novo lar. Senti, no âmago da minha experiência existencial, a veracidade das afirmações de Jesus: "Vós que tiverdes deixado pai, e mãe, ou casas ou campos, por causa do meu nome, recebereis muitas vezes mais..." (Mt 19, 29). Antes de tudo, entremos por um momento, no mundo das motivações humanas, que podem dar rumo e objetivos a uma vida, e que iluminaram (digo-o com humildade) o meu viver, como podem iluminar o seu também. Todos já encontramos pessoas cujo peregrinar por este mundo, é um dedicar-se, sem esmorecimentos, à família. Por causa dela muitos homens e mulheres dão um sentido profundo a todos os seus esforços e lutas. Participam da obra do Criador. Outros tem nobres ideais sociais, buscando melhorar este mundo através do trabalho, da ciência, das artes, da cultura e da prática da justiça. Mas reconheçamos que há pessoas que tem um programa "furado", pelo fato de colocarem como força motriz da existência o ódio e a raiva contra seu semelhante. É um programa de frustração. Giotto dizia que "perduto é tutto il tempo che in amor non si spende". (perdido é todo tempo que não se gasta em amar). Talvez os seres mais fora de sintonia com a beleza da vida, são os que não tem nenhum objetivo. Nada os provoca. Andam a reboque dos fatos. Não "fazem as coisas acontecer". Não tem ideal, tornando a vida vazia.
Tive a felicidade de ver muita gente pautar sua caminhada a partir de uma motivação de valor superior. Trata-se do amor a Jesus Cristo. Por causa do amor ao Salvador da humanidade vi Padres de grande santidade, doando seus esforços, dia e noite, em favor do povo. Vi mulheres dar sua contribuição gratuita à comunidade paroquial, por dezenas de anos. Sem jamais exigir dividendos financeiros, sempre movidas só pelo amor a Jesus. Vi Religiosas consumir seus anos, numa entrega total a crianças deficientes, sem nunca procurar sequer um louvor, só interessadas em trabalhar pelo compromisso com seu Amado. Vi homens suportar com misteriosa força interior, maus entendimentos, por trabalharem com afinco em favor da justiça social. Tudo tolerado por causa do Mestre Divino. Vi moças de grande valor humano, sacrificar um brilhante futuro, para servir, por causa de Jesus, o seu próximo.
O rosto de Jesus empolga. O seu Coração sagrado é o único que induz a um compromisso pessoal. Só Ele leva a empatar toda uma vida por uma causa, que se localiza fora dos interesses pessoais. Os outros fundadores de religiões só provocam admiração. Os grandes líderes despertam entusiasmo. Mas o único que desperta amor, é Cristo Jesus. É esse amor que explica meus 50 anos de consagração. Apesar de minhas grandes deficiências.
Dom Aloísio Roque Oppermann scj - Arcebispo de Uberaba, MG
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