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Perdoar pecado PDF Imprimir E-mail
Escrito por Dom Geraldo M. Agnelo   
21-Fev-2006

Artigo publicado no domingo, 19 de fevereiro de 2006

As leituras bíblicas deste sétimo Domingo do tempo comum nos falam de misericórdia, de perdão, de reconciliação, do amor de Deus.

A opressão política e o exílio, lembrados na primeira leitura de Isaias 43, 18-25, a escravidão física da enfermidade e o perdão, Marcos 2,1-12, são o pão de cada dia do homem de todos os tempos.

Nessas situações, sentir-se completamente dominado pelo mal que aflige, chamar a atenção só para si é a atitude normal do homem, querer livrar-se, quanto antes e a qualquer custo, é a reação espontânea e justa.

A liturgia de hoje documenta com dois exemplos essa experiência: os hebreus exilados e escravos na Babilônia aspiram a liberdade, um paralítico faz de tudo para encontrar-se com Jesus e ficar livre da própria enfermidade. Tudo isso nos faz pensar nas situações de dor e de esperanças humanas do nosso tempo.

A atitude de Deus em relação ao homem necessitado é porém diferente daquela que esse homem espera. O desejo de ficar livre do mal que o atormenta é sinal de uma libertação muitas vezes diversa, porque mais profunda. Aos exilados de Israel Deus promete um novo êxodo, a libertação da escravidão política, e contemporaneamente lhes recorda os seus pecados dos quais promete livrá-los.

Ao paralítico que pede a cura Jesus diz: “Teus pecados te são perdoados”! Faz assim um discurso inesperado: dá saúde diversa da que foi pedida, e dará a cura física somente se procurar sua capacidade de renovar inteiramente o homem, atuando assim, de modo histórico e visível, as promessas de Deus, e antecipando a libertação total que é própria dos últimos tempos.

Disso resulta que ninguém é somente vítima, ninguém é sem culpa. Deus quer salvar totalmente o homem, em particular a sua personalidade interior, onde se fazem as escolhas decisivas. Nem sempre o que nos aflige ao nível sensível é o maior mal. O homem não deve se preocupar somente com uma salvação de ordem física, a mais imediata. O verdadeiro mal do homem é o moral. Aí está em causa a sua responsabilidade, aí está a fonte de tantos dramas: violências, desfrutamentos, egoísmos. É aí também que Deus se sente mais empenhado em uma ação de renovação, o que acontece não segundo a lógica de punição, mas de perdão.

 

O Filho de Deus feito homem tem na terra o poder de perdoar os pecados. O perdão de Deus não é cobrir ou esquecer, é ao invés cancelar, eliminar o mal moral em sua raiz., ou melhor, renovar o homem interiormente, no íntimo de seu eu, para que possa efetivamente praticar o bem. Depois do perdão de Deus, o homem pode voltar a caminhar, como o paralítico do evangelho.

Sucede a todos nós poder equivocar-nos. Mas ninguém quer permanecer sob o peso de seu erro. Mais que uma palavra vazia ou de consolação, cada um deseja
escutar uma palavra de libertação para  recomeçar de novo o caminho da verdade e da justiça.

A palavra do perdão de Deus que no Cristo assumiu uma dimensão histórica, agora continua na comunidade dos fiéis, e tem um sinal também sacramental.

Mas que coisa é o pecado? As leituras de hoje não o dizem, pressupõem porém o seu conceito, cuja verificação é sempre muito importante; por causa dos equívocos que podem ocasionar. A compreensão do pecado torna-se sempre mais estranha ao mundo moderno. É preciso se esforçar por interpretar os seus conteúdos segundo as categorias mais apropriadas e mais acessíveis ao homem contemporâneo?

Que significa “São te perdoados os teus pecados”? Trata-se de uma propriedade exclusiva de Deus como pensavam os israelitas ou, com Cristo, é agora também uma possibilidade humana? Não é talvez um dever de todo fiel livrar a si mesmo e aos outros do pecado?

Não pode receber o perdão de Deus quem não está disposto a conceder o perdão ao próprio irmão. A graça é o perdão concedido, porque nos leva de novo a amar a Deus como Pai e aos outros como irmãos.

A obra salvífica de Deus é totalmente gratuita. Ele não é condicionado por nenhum mérito humano, mas ao contrário ele salva “não obstante o pecado” que, no contexto da aliança feita com o povo de Israel, assume sobretudo a cor da ingratidão. Deus é determinado unicamente pelo seu superabundante amor.

O enfermo vive tantas vezes o drama da solidão e da esperança. A doença, para o salmista deste Domingo, salmo 40, contem um sinal inequívoco: é um apelo à consciência do homem, para que se converta. Com a conversão, a solidão é desfeita. Deus de novo se faz presente,  inclina-se sobre o homem que sofre, perdoa-o, cura-o, ama-o.
Fonte: CNBB
 
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