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Artigo publicado no domingo, 19 de fevereiro de 2006
As leituras bíblicas deste sétimo Domingo do tempo comum nos falam de misericórdia, de perdão, de reconciliação, do amor de Deus. A opressão política e o exílio, lembrados na primeira leitura de Isaias 43, 18-25, a escravidão física da enfermidade e o perdão, Marcos 2,1-12, são o pão de cada dia do homem de todos os tempos.
Nessas situações, sentir-se completamente dominado pelo mal que aflige, chamar a atenção só para si é a atitude normal do homem, querer livrar-se, quanto antes e a qualquer custo, é a reação espontânea e justa.
A liturgia de hoje documenta com dois exemplos essa experiência: os hebreus exilados e escravos na Babilônia aspiram a liberdade, um paralítico faz de tudo para encontrar-se com Jesus e ficar livre da própria enfermidade. Tudo isso nos faz pensar nas situações de dor e de esperanças humanas do nosso tempo.
A atitude de Deus em relação ao homem necessitado é porém diferente daquela que esse homem espera. O desejo de ficar livre do mal que o atormenta é sinal de uma libertação muitas vezes diversa, porque mais profunda. Aos exilados de Israel Deus promete um novo êxodo, a libertação da escravidão política, e contemporaneamente lhes recorda os seus pecados dos quais promete livrá-los.
Ao paralítico que pede a cura Jesus diz: “Teus pecados te são perdoados”! Faz assim um discurso inesperado: dá saúde diversa da que foi pedida, e dará a cura física somente se procurar sua capacidade de renovar inteiramente o homem, atuando assim, de modo histórico e visível, as promessas de Deus, e antecipando a libertação total que é própria dos últimos tempos.
Disso resulta que ninguém é somente vítima, ninguém é sem culpa. Deus quer salvar totalmente o homem, em particular a sua personalidade interior, onde se fazem as escolhas decisivas. Nem sempre o que nos aflige ao nível sensível é o maior mal. O homem não deve se preocupar somente com uma salvação de ordem física, a mais imediata. O verdadeiro mal do homem é o moral. Aí está em causa a sua responsabilidade, aí está a fonte de tantos dramas: violências, desfrutamentos, egoísmos. É aí também que Deus se sente mais empenhado em uma ação de renovação, o que acontece não segundo a lógica de punição, mas de perdão.
O Filho de Deus feito homem tem na terra o poder de perdoar os pecados. O perdão de Deus não é cobrir ou esquecer, é ao invés cancelar, eliminar o mal moral em sua raiz., ou melhor, renovar o homem interiormente, no íntimo de seu eu, para que possa efetivamente praticar o bem. Depois do perdão de Deus, o homem pode voltar a caminhar, como o paralítico do evangelho.
Sucede a todos nós poder equivocar-nos. Mas ninguém quer permanecer sob o peso de seu erro. Mais que uma palavra vazia ou de consolação, cada um deseja escutar uma palavra de libertação para recomeçar de novo o caminho da verdade e da justiça.
A palavra do perdão de Deus que no Cristo assumiu uma dimensão histórica, agora continua na comunidade dos fiéis, e tem um sinal também sacramental.
Mas que coisa é o pecado? As leituras de hoje não o dizem, pressupõem porém o seu conceito, cuja verificação é sempre muito importante; por causa dos equívocos que podem ocasionar. A compreensão do pecado torna-se sempre mais estranha ao mundo moderno. É preciso se esforçar por interpretar os seus conteúdos segundo as categorias mais apropriadas e mais acessíveis ao homem contemporâneo?
Que significa “São te perdoados os teus pecados”? Trata-se de uma propriedade exclusiva de Deus como pensavam os israelitas ou, com Cristo, é agora também uma possibilidade humana? Não é talvez um dever de todo fiel livrar a si mesmo e aos outros do pecado?
Não pode receber o perdão de Deus quem não está disposto a conceder o perdão ao próprio irmão. A graça é o perdão concedido, porque nos leva de novo a amar a Deus como Pai e aos outros como irmãos.
A obra salvífica de Deus é totalmente gratuita. Ele não é condicionado por nenhum mérito humano, mas ao contrário ele salva “não obstante o pecado” que, no contexto da aliança feita com o povo de Israel, assume sobretudo a cor da ingratidão. Deus é determinado unicamente pelo seu superabundante amor.
O enfermo vive tantas vezes o drama da solidão e da esperança. A doença, para o salmista deste Domingo, salmo 40, contem um sinal inequívoco: é um apelo à consciência do homem, para que se converta. Com a conversão, a solidão é desfeita. Deus de novo se faz presente, inclina-se sobre o homem que sofre, perdoa-o, cura-o, ama-o.
Fonte: CNBB
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