Diante dessa realidade
complexa, as sociedades construíram termos e expressões para designar,
caracterizar e diferenciar as pessoas com deficiência. A lista é
enorme: paralítico, anormal, mongolóide, alienado, aleijado, portador
de necessidades especiais, coxo, manco, especial, cego, inválido,
surdo-mudo, imperfeito, retardado, débil mental, excepcional, PC etc.
Esses termos foram incorporados pela cultura, encontram-se presentes
nos dicionários atuais e até no texto bíblico. Todas essas palavras e
rótulos expressam posicionamentos diante dessas realidades humanas, em
diversos contextos históricos e culturais, mais ou menos
preconceituosos.
Bem-intencionadas ou rotuladoras, essas expressões podem ser conceitos
ou preconceitos. Elas retratam a dificuldade de se nomear, não somente
um evento biológico ou acidental, mas todo um relacionamento afetivo e
social com o outro, em sua diferença e alteridade. A palavra cego,
comum nos Evangelhos, pode ser vista como ofensa por quem prefere o
termo “deficiente visual”. A palavra surdo, também, para quem o termo
“deficiente auditivo” seria mais adequado. A expressão deficiente
mental não é bem recebida por quem prefere o termo “especial”,
“excepcional”, “deficiente intelectual ou cognitivo”. Outros abominam a
expressão “portador” de necessidades especiais ou de alguma síndrome.
Julgam que a pessoa não porta, nem carrega nada. Ela simplesmente é
assim.
Cada época introduz novos termos para designar as pessoas com
deficiência e condena os termos anteriores. Muitas vezes, a semântica
amaciada, pretensamente não discrimina tória e bem intencionada acaba
escondendo, e não explicitando uma condição humana e pessoal
irredutível e bem específica. Está-se diante de uma realidade
diferenciada, inegável. Mesmo quando os termos empregados parecem ser
ou pretendem parecer politicamente corretos.
Não se trata de criar uma cultura da deficiência, um modelo deficitário
como parâmetro de vida para as pessoas especiais. Cada um é muito maior
do que suas deficiências e suas circunstâncias.
Uma
pessoa não deve ser reduzida, nem identificada com seus limites
sensoriais, mentais ou motores. Mas ela também não pode ser entendida e
acolhida sem eles. Hoje, a tendência é para uma suavização dos termos.
A busca sempre renovada de expressões mais adequadas, socialmente
positivas, para designar essas condições diferenciadas, não deve ser a
ocasião de uma nova alienação. Um dos primeiros passos para transformar
em graça o que poderia tornar-se uma desgraça, está na capacidade de
nomear, sem subterfúgios, as realidades vividas, mesmo se indesejadas.
Como faz esta CF-2006 sobre “pessoas com deficiência”.