Não temos nos Evangelhos nenhuma palavra proferida por S. José e as referências à sua pessoa são também muito poucas.
Podemos
imaginar, através do que escreveu o historiador Flávio Josefo, ou do
que consta do Talmude, o que seria a vida de José – a vida de um judeu
cumpridor da Lei e piedoso.
São inúmeras as figuras do
Antigo testamento que fazem pensar em S. José, mas a mais
significativa, é a de José filho de Jacob que os irmãos venderam aos
egípcios e veio a tornar-se figura de relevo no país, conquistando, com
justiça, a plena confiança do Faraó. O Papa Pio XI no decreto que
proclama S. José, padroeiro da Igreja Universal, e Leão XIII, seguindo
muitos Padres da Igreja e a própria Liturgia, afirmam isso mesmo.
Como
José do Egipto, foi encarregado de gerir os negócios do país, por ordem
do Faraó, também José foi encarregado de cuidar da Sagrada Família e
mais tarde de toda a Igreja.
Assombramo-nos com o
silêncio de José, quando viu que Maria, sua esposa, estava grávida. E
mais ainda, quando pensamos na atitude que resolveu tomar – deixar
Maria em segredo. Isso, segundo os costumes da época, ia colocá-lo em
má posição aos olhos dos homens, pois correspondia a não cumprir os
seus deveres, uma vez que os esponsais, já tinham ocorrido, e eles já
possuíam um vínculo indissolúvel. Se ele não fosse justo, podia dar a
Maria um libelo de repúdio, mas isso iria colocá-la muito mal
socialmente. Preferiu, assim assumir ele a vergonha.
Palavras
de José não temos, contudo, quando o Anjo lhe dissipou as dúvidas
acerca da maternidade da sua esposa, com certeza que no dia seguinte
falou com Maria e a nuvem, que envolvia há tempos as suas relações, deu
lugar a um brilho de sol de Verão. Quem me dera saber o que disseram os
dois?
Quando teve de ir a Belém para o recenseamento,
teve que falar com muita gente para ver se arranjava alojamento para
ele e para Maria que estava no fim da gravidez, como também teve de
comunicar a Maria o insucesso das suas diligências. Só que os
Evangelhos não nos deixaram nada registado.
Por
cortesia e gratidão, falou com os pastores que vieram procurar o Menino
anunciado pelos Anjos. Do mesmo modo teria falado com os Magos que, de
tão longe, procuraram o Menino à custa de tantos trabalhos.
Quando da circuncisão, foi José, que impôs o nome a Jesus, como o Anjo lhe tinha ordenado.
Na
apresentação de Jesus no Templo, foi José quem tomou as iniciativas,
como chefe de família que era: comprou as rolinhas, e acompanhou Maria
com o Menino ao colo. Por fim, tirando do cinto o dinheiro, deu os
cinco ciclos de prata para resgatar Aquele que vinha resgatar o mundo.
E
quando avisado em sonhos, por um anjo, para que fugisse para o Egipto,
pois Herodes queria matar o Menino, teve, com certeza, de combinar com
Maria, os preparativos para uma fuga tão apressada. Como seriam as suas
palavras? Podemos imaginar que a serenidade e o abandono em Deus nunca
lhe fizeram proferir qualquer palavra impaciente. A sua atitude não
foi, como nos acontece a nós, produto da nossa fraqueza, a de
recriminar Deus e imaginar soluções melhores do que as que o Senhor nos
apresenta – é a eterna rebelião do homem-criatura, contra o seu
Criador. Com José nada disso se passou: a tónica foi a aceitação e a
submissão, corroboradas por Maria.
E como seria a vida
na casa de Nazaré? E quando o Menino cresceu e começou a ajudar o pai,
como seria a vida na oficina? Só com a imaginação podemos reconstituir
as cenas. Os textos apócrifos são prolixos em palavras, em oposição ao
silêncio dos Evangelhos.
E quando o Menino se perdeu
aos doze anos? A partir daquela idade, qualquer menino estava aos
cuidados do pai, enquanto que até aos cinco anos estava aos cuidados da
mãe. Como devia José ter perguntado a conhecidos e desconhecidos se
tinham visto o Menino!
E a sua ocultação é tão grande,
que nem a morte nos é narrada. Podemos pensar que morreu antes do
começo da vida pública de Jesus, pois não é mencionada a sua presença
nas bodas de Caná. No momento da morte, Jesus e Maria
prodigalizaram-lhe todos os cuidados que a situação exigia; pensar o
contrário seria blasfemo. Maria com a sua ternura de esposa e Jesus com
a sua piedade filial, fizeram-lhe sentir que a separação seria por
pouco tempo. Morreu tranquilamente nos braços de Jesus e de Maria e por
isso alguns dos Pontífices Romanos, muito especialmente Pio IX, Leão
XIII e Bento XV, apresentam-no como padroeiro dos moribundos.
Não temos palavras de S. José, mas ele foi o homem que mais escutou as palavras de Deus. As suas acções falam por si.
|