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Superar preconceitos PDF Imprimir E-mail
Escrito por Dom Demétrio Valentini   
15-Mar-2006

 O Evangelho de Cristo revela sua originalidade na força em derrubar velhos preconceitos. Em cada Campanha de Fraternidade podemos constatar como esta força não se esgotou. Basta trazer as realidades à luz do Evangelho, e começam a ser vistas de maneira mais humana e verdadeira, livre de preconceitos.

            O que mais admira nos posicionamentos de Cristo é constatar como ele não se deixou aprisionar pelas teias dos preconceitos que havia em seu tempo. Soube desfazer as amarras das normas arcaicas do puro e do impuro, da observância cega do sábado, e das prevenções hipócritas dos escribas e fariseus.

            O Evangelho nos oferece um exemplo típico da lenta e persistente superação de preconceitos, que Jesus empreendeu conscientemente e levou adiante com tenacidade. Trata-se da superação dos preconceitos contra os samaritanos.
            O próprio Evangelho constata que "os judeus, com efeito, não se dão com os samaritanos" (Jo, 4,9). Pois bem, mesmo assim, Jesus decide passar pela Samaria. Ele começa por aí.
          O Evangelho enfatiza que Jesus  "precisava passar pela Samaria" (Jo . 4,4). Na verdade, não precisava, não. Aliás, todos preferiam desviar a Samaria, subindo à Galiléia pelo vale do Jordão, e não pelas montanhas da Samaria. Este "precisava",  portanto, fazia parte dos planos conscientes de Jesus. Ele começava a desmontar um velho preconceito. Seriam necessárias muitas marteladas para moldar um novo relacionamento entre judeus e samaritanos.
            Chegando na Samaria, Jesus soube proporcionar o surpreendente diálogo com a Samaritana. Sobre ela pesava uma dupla carga: era mulher, e samaritana.  Jesus enfrentou a situação com serenidade, paz de espírito e abertura de coração. Os próprios discípulos se surpreendem vendo o Mestre detido em conversa com uma mulher. Ficam atônitos e sem palavras.
            Em seguida, Jesus aceita ficar dois dias na aldeia dos samaritanos. Fato impensável para a mentalidade daquele tempo. Em outro episódio, quando os próprios samaritanos, por sua vez, manifestam seu preconceito contra os judeus e não querem oferecer hospitalidade, Jesus sai em sua defesa, e repreende os discípulos que pensavam em represálias. "Não sabeis de que espírito sois!", adverte Jesus.
            Ele não perdia oportunidade de elogiar os samaritanos. Ao contar a história dos dez leprosos, sublinhou que o único a agradecer era samaritano.
            Mas o arremate final no desmonte deste preconceito Jesus o deu ao contar a história conhecida como a "parábola do bom samaritano" (Lc 10,29-37).  O sacerdote e o levita passam ao largo do homem caído à beira do caminho, vítima dos assaltantes. Só o samaritano tem compaixão dele.
            Pois bem, tal era o preconceito, que todos ligavam os samaritanos  à idéia do mal. Na cabeça do povo só havia "maus samaritanos".  Jesus inverte o preconceito,  e realiza uma transformação semântica mais difícil do que mudar água em vinho, como tinha feito em Caná. Ele cunhou a imagem do "bom samaritano". 
Assim, samaritano passou a ser sinônimo de bom, compassivo, solícito.  Agora, até a Igreja quer ser "samaritana".
            Tal a força do Evangelho. Ele derruba preconceitos.  Mas aí vem a grave questão: nossa evangelização continua derrubando preconceitos, ou continua vendendo preconceitos?
            Mais ainda: a Igreja, como toda instituição, corre o risco de consolidar preconceitos, para justificar sua organização tradicional.  Os preconceitos firmados servem de apoio à ordem estabelecida. 
E' o caso da posição das mulheres na Igreja.  O próprio Evangelho já teria munição suficiente para inverter o preconceito que ainda pesa sobre elas. Mas, além disto, o Novo Testamento traz relatos muito elucidativos, mostrando como o Espírito foi abrindo os olhos da Igreja, para que ela superasse preconceitos que já não tinham mais sustentação,  e que eram impedimento para o próprio Evangelho.
A batalha de Cristo não terminou. Seu Evangelho precisa continuar derrubando preconceitos.
Fonte: CNBB
 
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