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Paradoxalmente, o fim do ano cronológico é o começo do ano para os cristãos. Celebrada que foi a festa de Cristo Rei , entramos agora no tempo do Advento, que é acima de tudo um tempo de esperança e de espera. Espera do novo que virá e que já envia seus sinais para excitar em nós a tensão fecunda e vigilante da espera. Para convidar-nos, acima de tudo, a levantar a cabeça , olhar para frente e ficar de pé.
Advento é vinda, chegada, aparecimento, começo. É a celebração do sentimento que sustenta a humanidade para suportar tudo aquilo que a acabrunha e a coloca cabisbaixa, na espera do novo que se anuncia e que vem. É para testemunhar essa espera vigilante que a Igreja Católica anuncia o tempo do Advento como início, primeira divisão do ano litúrgico, período das quatro semanas antes do Natal, durante o qual os fiéis são convidados para a preparação espiritual compatível com a festa que celebrarão em cinco semanas: a festa de um Deus que não se contenta em criar e retirar-se, mas que faz aliança e se aproxima sempre mais amorosamente da obra de suas mãos até fazer-se carne e ser encontrado como um de tantos, encarnado, criança nascida de mulher.
O Advento nos relembra que apesar de tudo que acontece, das guerras loucas e sem sentido, da violência urbana que transforma a vida dos cidadãos em uma rotina de medo e ocultamento , da falta de sentido que parece querer tragar e envolver a experiência de vida e plenitude, é preciso não perder a capacidade de desejar. É preciso não apagar o ardor do coração e das entranhas. É preciso não deixar de olhar para frente, para o horizonte, para o futuro aonde a qualquer momento pode delinear-se a figura d´Aquele que vem para renovar a face da terra e anunciar a boa nova.
O tempo do Advento é o tempo em que se espera ativamente. Esperar crendo que o Senhor vem e cumprirá as promessas feitas a Israel desde os inícios de Sua Aliança nunca revogada. Esperar que em meio à injustiça, Ele tem poder para fazer brotar a semente da justiça na casa de David. Esperar que Jerusalém – quase ironicamente a cidade da paz – poderá enfim ter paz e cumprir sua vocação: ser a cidade onde todo homem nasceu e onde estão todas as fontes da vida.
No mundo que ao longo do ano de 2003 viu estourar mais uma guerra devastadora, que viu defraudarem-se esperanças de todos os lados, onde decepções tomaram o lugar das mais legítimas expectativas, onde pais assassinaram filhos e filhos conspiraram a morte dos pais. Num mundo onde, trucidados pela pressão mortífera do mercado, pais de família honrados mataram a família que amavam e a si próprios por não terem mais condições de manter-se na ciranda consumista. No mundo onde o terror pareceu ganhar a partida e o bem ser confinado a um espaço cada vez menor. Neste mundo, o Evangelho nos diz que é tempo de Advento.
No Brasil, nosso querido país, tivemos um ano de experimentos de coisas novas. Como tudo que é novo e que se encontra ainda em fase de experimento, foi preciso ter paciência, relativizar decepções e não magnificar equívocos que podem suceder e sucedem daqui e dali. Agora, ao completar um ano de um novo Brasil, está na hora de erguer a cabeça e, juntamente com o Tempo litúrgico do Advento, esperar com todo entusiasmo e alegria, o novo Brasil que ad-vém, que deve ad-vir do futuro que o Senhor tem certamente para ele preparado.
É tempo, pois. Tempo de esperar mais do que nunca e apesar de tudo. Tempo de acreditar que o novo pode e deve vir. Não é tempo de derrotismos, mas de otimismos. O Brasil que ad´vém certamente é muito melhor do que jamais ousamos esperar. E portanto, enquanto esperamos o Menino que renovará para sempre nossas esperanças, é tempo de erguer os olhos e atentamente ler os sinais dos tempos.
Tempo de levantar-se e erguer a cabeça, crendo que a libertação está próxima. Erguer a cabeça na vigilância de quem crê que o caminho não é deixar-se escravizar pelos vícios, pela gula, pela embriaguez, pelas preocupações da vida. Erguer a cabeça e ficar atentos.
A atenção é um êxtase, uma atitude de fé, daquele ou daquela que espera o que ainda não vê. Mas percebe os sinais que se anunciam e se fazem próximos. E não permite que a onda frenética do consumismo pré-natalino anestesie o ardor de sua espera e sobretudo de sua esperança.
A um Brasil combalido e cabisbaixo pelas dificuldades enfrentadas ao longo deste ano onde o novo tem às vezes um preço alto a pagar, o tempo do Advento recomenda atenção e vigilância. É preciso, é indispensável, a fim de ter forças para ficar de pé diante do Filho do Homem. Se como dizia Santo Irineu de Lyon, a glória de Deus é o homem vivo e a glória do homem é a vida em Deus, o tempo do Advento que ora iniciamos incita a olhar para frente. O que se anuncia, o que é esperado, o que vai nascer, infeccionará a miséria com vida nova e sadia. E invadirá a treva da desesperança com o raio luminoso da presença do divino em meio à ambigüidade humana.
Disponibilizado no Amai-vos em Dezembro/2003
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