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Padre Alfredo Gonçalves Pastoral Social da CNBB
Em vésperas do Dia de Finados, o título acima pode parecer estranho ou até acintoso. Na história dos povos, os mortos sempre mereceram lugar de destaque. Ao redor da morte, desenvolvem-se inúmeros rituais para o culto e despedida da memória dos falecidos. Por isso é que morte e sagrado mantêm relações tão íntimas. Qual a religião que não elaborou algum cerimonial de sepultamento? Em não poucos casos, inclusive, a família ou o grupo social fazem de tudo para preservar, e até engrandecer, o passado de quem parte. O dia 2 de novembro é testemunho do grande carinho que temos para com os entes queridos que já se foram.
Por que, então, cadáveres insepultos? A verdade é que muitas pessoas que partem, além da memória familiar ou pessoal, deixam uma memória social ou política de grande relevância. Reportemo-nos, por exemplo, à lembrança de Oscar Romero, Madre Tereza de Calcutá, Margarida Maria Alves, Che Guevara, Santo Dias da Silva – não esquecendo que estes têm nome, às vezes folhinha ou calendário na parede, data a ser celebrada, flores na tumba e constante recordação. Mas há outros, aos milhares, os quais, fazendo parte da multidão dos “sem” antes da morte, permanecem anônimos e esquecidos após a partida.
A essa imensa multidão anônima pertencem as crianças que continuam morrendo de fome sobre um país tão rico em terras e alimentos; os jovens e adolescentes ceifados em plena vitalidade pela droga e o crime organizado, meninas e meninos vendidos e comprados no tráfico internacional de seres humanos, como mercadoria sexual, e que acabam desaparecendo para sempre; camponeses, indígenas e suas lideranças, assassinados impunemente pelos verdugos do latifúndio; as vítimas de balas perdidas, do trânsito e de tantas outras formas de violência urbana; mulheres violadas e violentadas por seus companheiros, morrendo a conta gotas no silêncio impenetrável do lar.
Tanto aqueles que foram citados acima, com nome e sobrenome, quanto a grande procissão dos esquecidos, deixam atrás de si uma memória subversiva. Consciente para uns, inconsciente para outros, essa memória é simultaneamente denúncia e anúncio. Denúncia de uma sociedade que idolatra o mercado total, exacerba a produção e o consumo, devasta os recursos naturais e o meio ambiente e se rege por um patriarcalismo arcaico e feroz. Com isso, enquanto privilegia as classes dominantes, condena à exclusão social a grande maioria da população. Mas a memória subversiva é também anúncio de uma utopia mil vezes começada e mil vezes interrompida, mas que se mantém viva no sonho dos que não se deixam abater e, por veredas as mais diversas, lutam para torná-lo realidade.
Por mais que os impérios e imperadores apontem suas armas para as populações “descartáveis”, por mais que se levem ao túmulo seus corpos sem vida, por mais que se lamente e se pranteie sua partida inesperada – a memória subversiva permanece de pé e ativa. Seus testemunhos são cadáveres insepultos, prontos a sacudir e acordar da inércia os que ficaram. Com tais mortos-vivos em volta, é difícil um sono tranqüilo. Seu sangue, sua coragem ou simplesmente sua morte anônima são espinhos no dorso de uma sociedade sem alma; mas são também pétalas de flores que apontam para um mundo justo e solidário. Numa palavra, cadáveres que, pondo a nu a morte violenta e prematura, trazem a esperança e reforçam o compromisso por uma nova vida.
Disponibilizado pela CNBB em 31/10/2003
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